quarta-feira, março 14, 2007

Ainda a propósito de trabalhos dos alunos

No post anterior, a propósito do dia do Pi, lembrei-me de um dos tipos de actividades (os trabalhos referidos nesse post) a que conduzia os meus alunos quando a minha escola já tinha condições mínimas para 'aulas de Matemática nos computadores'.

Abro um perêntesis para contar que, na minha escola, todos os alunos do 3º ciclo passaram a estar já iniciados no uso da internet e de várias ferramentas no computador desde que nela se poude ter uma sala de informática minimamente equipada para permitir a inclusão no currículo do 6º ano da disciplina de "Introdução à Informática" (no âmbito dos tempos destinados a ofertas de escola e possibilitada quer por funcionamento em desdobramento das turmas, quer por a escola ter, por acaso, recursos humanos, centrados principalmente numa colega credenciada com habilitação formal para tal e completados por dois ou três professores, em que fui incluída, também habilitados, embora por formação mais informal).

Voltando aos trabalhos dos alunos, terminei o post anterior aludindo a recomendações que lhes fazia e, a propósito destas, lembrando-me de uma ou outra situação (saliento que não generalizo) que, na altura, me fez pensar cá comigo mesma na questão de valer a pena alguns professores começarem a pedir trabalhos aos alunos com recurso às "novas tecnologias", incluindo o uso da internet para pesquisa de informação. Recordo a questão, que ainda há pouco tempo tinha, a meu ver, razão para ser colocada, mas recordo-a mais para me congratular com o reconhecimento por parte do ME (este também toma algumas medidas acertadas - se chega a concretizá-las na extensão que requerem, isso já não sei), para me congratular com o reconhecimento, dizia, da necessidade de proporcionar a todos os professores formação no uso das TIC no ensino.
A pouco e pouco, sobretudo por causa da Área de Projecto (que, por acaso, até nunca me calhou no horário), alargou-se na minha escola o número, inicialmente reduzidíssimo, de professores que levavam os alunos à sala de informática, quando livre. Naquela área, os alunos realizavam, entre outros, trabalhos a apresentar baseados em pesquisa na net, pelo que, a dada altura, pensei que já não seria necessário gastar eu tempo especial para que aprendessem a seguir as minhas recomendações nos trabalhos de matemática, recomendações tais como "nada de meras colagens", "seleccionem só informação e ilustrações que já possam compreender", recolhem informação mas depois têm que a seleccionar e organizar, com redacção vossa, num texto coerente", "todos terão que saber expor o que fizerem", "não esqueçam que o trabalho tem que incluir a indicação de todas as fontes utilizadas" e - agora sobretudo para 9º - "não esqueçam que os trabalhos devem ter uma introdução e uma conclusão".
Contudo, a verdade é que continuei a deparar-me com uma ou outra turma em que ninguém parecia habituado a nada disso, apesar de já terem realizado trabalhos na dita Área de Pojecto, com vistosas capinhas, baseados em pesquisa na net sobre determinados temas, mas fazendo-o muito entregues a si mesmos. Já salientei que tal não era uma situação generalizada, mas alguns casos não deixaram de me fazer pensar cá comigo mesma que era melhor os respectivos professores, enquanto não se habituassem eles próprios a usar a net e a procurarem previamente nela fontes a indicar criteriosamente aos alunos ou a irem verificar, nas que estes encontravam, se não se tinham limitado a "copy-past" sem trabalho pessoal de redacção e organização coerente (o que, aliás, era de suspeitar pela não correcção pelos alunos de brasileirismos, dado que grande parte da informação em língua portuguesa se encontra mais profusamente em páginas brasileiras), era melhor, dizia, que enquanto esses professores não se familiarizassem com a prática pessoal que referi, prescindissem de "novas tecnologias" e orientassem as suas turmas na Área de Projecto (e não só) para pesquisas em livros da biblioteca ou disponibilizados pelo professor, como decerto faziam dantes sem que acontecesse pouca atenção tal como não repararem que os trabalhos eram meras colagens mal compreendidas, e sem parecer haver algumas demissões na orientação dos alunos para aprenderem a estruturar um trabalho - deixado demasiado entregue a eles talvez pelo facto de dominarem o uso de ferramentas em que (alguns professores) se sentiam "a zero".

Creio que estas minhas considerações são já extemporâneas. Apesar de essa fase ainda se ter estendido a tempo relativamente recente, derivada da resistência de várias gerações de professores ao uso do computador com os alunos pela insegurança decorrente de estes até os ultrapassarem em termos "técnicos", acredito que foi uma fase neste momento já vencida por grande parte dos professores (não foram, de facto, muitos os que, por iniciativa própria, nunca se deixaram desactualizar nesse campo) e que, em breve, estará ultrapassada por todos, já que a formação no uso das TIC (a começar pelo mais simples e elementar, quando necessário) finalmente se impôs.

Dia do Pi (recordação)

Ao lembrar-me que este é o dia do Pi, veio-me à memória o cartaz que sempre aparecia na minha sala de aula, ou com a canção de "aniversário", ou com um dos poemas que na net se podem encontrar dedicados a esse número. E, atrás dessa memória, veio-me a de trabalhos dos meus alunos, esses trabalhos de grupo que lhes exigem pesquisa, selecção, escrita sem meros "copy-past" e estruturação do trabalho final a apresentar à restante turma, mas que eles fazem com gosto, quer porque lhes agrada sempre irem para os computadores, quer porque os leva a descobrir curiosidades interessantes fora do "clima" do currículo "obrigatório".
Tenho alguns porque, por vezes (depois da exposição, no final do ano lectivo, de trabalhos dos alunos nas várias disciplinas), diziam-me para ficar com eles para "dar ideias" a futuras turmas. E como um desses, além de ser sobre o Pi, refere este dia, aproveito para deixar no meu cantinho uma recordação.




_____
Adenda
Fora do tema (O Dia do PI), mas a propósito do tipo de trabalhos dos alunos, que acima referi, a minha memória estende-se um pouco mais. Bastava-me dedicar a eles um ou dois blocos do horário da disciplina uma vez por ano (formatações e outros pequenos acabamentos ficavam por conta dos alunos já sem a minha presença) pois cada grupo tinha o seu tema (escolhido entre várias sugestões minhas se eles próprios não conseguiam sugerir), cada trabalho era depois apresentado à restante turma, pelo que se multiplicavam as oportunidades de todos descobrirem mais aprofundadamente quer a presença da matemática na própria natureza - incluindo o mundo microscópico, e não só nas formas, simetrias, etc., mas também nessa harmonia de uma proporção misteriosamente detectável também na natureza (lembro-me de trabalhos sobre o "número de ouro" - o phi ("fi") -, não referido no programa mas que era oportuno a propósito dos números irracionais) -, quer episódios da história da matemática propiciando uma melhor compreensão e distinção dos números que usavam - dos racionais aos irracionais -, quer curiosidades interessantes. E as exposições de final de ano fizeram-me ouvir, sobretudo inicialmente, colegas não de Matemática dizerem "Já aprendi coisas que não sabia" ou "Não fazia ideia que na disciplina de Matemática se fizessem trabalhos teóricos - assim chamavam a alguns, mas cá para mim trata-se de proporcionar aos alunos olharem a matemática na sua beleza ou harmonia, e também na sua história, como já disse acima, vindo por acréscimo o aproveitamento da motivação para trabalhar no computador (e também motivação por adorarem procurar, além de informação, imagens ilustrativas a seu gosto) para elaborarem eles um trabalho a apresentar.
O trabalho mostrado é escolhido por ser o único, dos que ficaram comigo, que refere o dia do Pi, e nem tem os nomes dos elementos do grupo (falha que não era habitual). Outros, sobre diferentes temas, estão devidamente identificados com os nomes dos autores pelo que até mereciam "publicação" pois são de facto trabalhos interessantes, foram de alunos ainda só no 3º ciclo, e o mérito foi deles. (À professora só cabia estímulo, orientação e algumas recomendações)

"Recomendações" - a propósito destas ocorrem-me algumas questões e comentários, mas não vou alongar-me mais, guardo isso para próximo post.

segunda-feira, março 12, 2007

Não é novidade, só me apeteceu lembrar

(Não é novidade, mas também não é assim tão simples. Ele obedece, mas os outros também. Quem governa não tem rosto, chamam-lhe Sua Excelência O Mercado. E a sociedade humana vota e fica a ver. Esperando que pensem nela?)

Como sócia do SPGL e, neste caso, como aposentada, acabei de receber não só uma convocatória para um plenário de professores aposentados, mas também uma proposta de moção cujos considerandos não se confinam estritamente às questões da aposentação. O texto* dela é longo, deixo apenas uns excertos - não trazem novidades, só me apeteceu lembrar).

«(...)
Uma primeira constatação a fazer é que as medidas tornadas neste âmbito [aposentação] em Portugal têm que ser integradas, em particular, no contexto da política que a União Europeia (UE) preconiza para todos os países que a compõem (...)
Por exemplo, de onde deriva a norma para o aumento da idade para atingir a aposentação, que em Portugal tão zelosamente está a ser posta em prática?
Ela constituiu urna decisão da Cimeira da União Europeia, realizada em Barcelona a 15 e 16 de Março de 2002.
(...)
Todo o sistema de Segurança Social tem sido reorganizado no sentido de libertar o Estado dos seus encargos sociais e, ao mesmo tempo, obrigar os trabalhadores a terem que recorrer às Seguradoras privadas para engrossar os respectivos "Fundos de pensões" - que constituem o principal sustentáculo de toda a economia especulativa, que tem como peça central a Bolsa de Wall Street, nos EUA.
(...)
O governo liderado por Sócrates - no seguimento do que fizeram os anteriores - não tem feito mais do que aplicar à risca as "reformas" ditadas pela União Europeia (note-se que cerca de 80% da legislação produzida pela Assembleia da República constitui, desde há vários anos, uma mera transcrição de directivas emanadas da Comissão Europeia).
Daí a "medalha de bom comportamento" que foi de novo atribuída ao Governo português pela Comissão Europeia, na sua Informação IP/0611730 de 12 de Dezembro de 2006: "A Comissão identifica os seguintes pontos fortes do processo de reformas de Portugal: o lançamento de reformas abrangentes da Administração pública, as medidas destinadas a facilitar a criação de empresas na hora, o ajustamento em curso dos sistemas de pensões de velhice e as vastas medidas de consolidação no sector da saúde. "
(...) »
___________
* O texto pode ser encontrado na íntrega no site do SPGL. Não posso deixar link porque não tem endereço independente, figura entre outros de uma mesma página, além de que não pretendo fazer publicidade de textos ainda não aprovados nem discutidos.

sexta-feira, março 09, 2007

Deixando um poema (e votos de bom fim de semana)

Hoje, não só o poema, também a voz do poeta.
(Memórias soltas, poemas soltos, enfim... as coisas soltas deste cantinho...)

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Memória (voz do autor)

quinta-feira, março 08, 2007

Uma memória remota a propósito dos festivais da canção

Já na noite do sábado passado me dera conta da emissão, pela RTP1, de um espectáculo em que teriam sido recordadas vozes do Festival da Canção. Vendo-o já mesmo no final, nem sei que vozes foram recordadas, nem isso importa, pois foi apenas o tema que me trouxe subitamente uma memória já quase esquecida - a do Festival Eurovisão de 1973. E agora, que também os festivais da canção foram lembrados na comemoração dos 50 anos da RTP, incluindo a canção de que me lembrara no sábado, não resisti a uma breve busca para a deixar aqui.

Naquela época, o concurso ao festival era acarinhado pelo regime, pelo que os nossos cantores de intervenção tendiam a não concorrer para não alinharem com essa conotação. Mas nem sempre assim decidiam e em 1973 Fernando Tordo concorreu com a Tourada (letra de Ary dos Santos), lembrança que agora me fez sorrir, divertida, porque a censura por vezes distraía-se, talvez por compreensão lenta, e quando se deu conta de que a canção não era nada "inocente" era tarde demais, pelo que esta foi mesmo representar a canção portuguesa ao festival da Eurovisão em Abril de 1973 (já só faltava um ano...)


Foi mais por a lembrança me ter feito sorrir que a vim deixar aqui. Se foi só por isso... bem, não o consigo garantir, mas também escusam de vislumbrar na minha cabeça outras associações de ideias quando trago tão "inocentemente" uma memória surgida por mero acaso ;)
Assim, eis a...


Tourada

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficcionada e a caduca
mais o snobismo...
e cismo!

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro aos milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.


__________
(Fotos: Podem encontrar-se facilmente por pesquisa em sites portugueses)

_________
Adenda
E... com a Tourada me estreio no vídeo aqui no meu cantinho...

sábado, março 03, 2007

O homem que caminha...

Suspeitando que este meu cantinho vai fazer mais um fim de semana prolongado, hoje deixo nele esta escultura...


Alberto Giacometti (1947), L´homme qui marche.

quinta-feira, março 01, 2007

Quimeras (Leituras soltas que de repente me apetece vir registar)

(Trechos soltos, versos soltos, pensamentos soltos, metáforas soltas, memórias soltas... Começo a descobrir que ganhei tendência para coisas soltas ao acaso - mas o meu pensamento lá sabe que não é por acaso que se detém nelas...)

Sous un grand ciel gris, dans une grande plaine poudreuse, sans chemins, sans gazon, sans un chardon, sans une ortie, je rencontrai plusieurs hommes qui marchaient courbés.

Chacun d'eux portait sur son dos une énorme Chimère, aussi lourde qu'un sac de farine ou de charbon, ou le fourniment d'un fantassin romain.

(...)

Je questionnai l'un de ces hommes, et je lui demandai où ils allaient ainsi. Il me répondit qu'il n'en savait rien, ni lui, ni les autres; mais qu'évidemment ils allaient quelque part, puisqu'ils étaient poussés par un invincible besoin de marcher.

(...)

Et le cortège passa à côté de moi et s'enfonça dans l'atmosphère de l'horizon, à l'endroit où la surface arrondie de la planète se dérobe à la curiosité du regard humain.

Et pendant quelques instants je m'obstinai à vouloir comprendre ce mystère; mais bientôt l'irrésistible Indifférence s'abbatit sur moi, et j'en fus plus lourdement accablé qu'ils ne l'étaient eux-mêmes par leurs écrasantes Chimères.

Charles Baudelaire, Chacun sa chimére.
('Poema em prosa' que pode ler-se na íntegra aqui, por ex.)

Pour Lio



Tu es loin et tu me manques. Tu sais pas encore que dans le portugais ça s'appelle saudade, mais tu sais déjà que je fais de la magie... que je suis ici et je suis là...
Bientôt tu sauras lire et je te laisserai ici um poème.

* * *

terça-feira, fevereiro 27, 2007

"Circunstâncias" não são irreversíveis nem imutáveis

Estava pensando com os meus botões que a consciência do aprisionamento de políticas nacionais (refiro-me a várias nações) a uma "globalização" infectada por poderoso "vírus" e a frequente centração do meu pensamento nisso (o que pouco se nota aqui porque este é um blog voltado para a educação e o ensino no nosso país) anda a desviar-me da procura de um entendimento sereno de atitudes e comportamentos que se vão propagando entre muitos dos cidadãos comuns, isto é, os cidadãos que não são detentores de poder político ou económico (incluindo professores, que são pessoas e cidadãos como todos os outros) . E o entendimento é necessário - não significa consentimento ou concordância com determinadas atitudes ou comportamentos - para que ideias ou mensagens que procurem fazer contraponto a um tempo empobrecido de valores e de pensamento crítico, no sentido de uma consciencialização (ou de uma educação preparatória dela, se se trata de crianças e adolescentes), sejam emitidas de modo a que não sejam recebidas de pé atrás devido a alguma intolerância destituída de compreensão humana. (Há os objectivos e os comportamentos para os quais sou intolerante, mas não é nesses que estou agora a pensar)
E, nesse meu cogitar, bateu-me na mente que "o homem é ele e suas circunstâncias" e muito difícil se lhe torna reagir às circunstâncias quando elas não são individuais nem especificamente situadas, mas sim instiladas na sociedade pela força que têm as políticas e ideologias dos que dominam - não já, nos dias de hoje, os governos diferentes de cada país, mas os que dominam o mundo.

Em suma, pensando nessa frasse de Ortega y Gasset, penso nas "circunstâncias" com um sentido terrivelmente amplo e avassalador, a parecerem irreversíveis, irremovíveis, imutáveis. Será de estranhar que muitos optem por não resistir, até por sentimento de impotência?
Por isso, são indispensáveis não só as vozes que apelem a resistir e não desistir, mas também uma divulgação por todos os meios possíveis do "acordar" e dos movimentos que, pelo mundo, se vão criando e ampliando contestando a inevitabilidade ou irreversibilidade que se pretende incutir nas mentes, movimentos esses que poderiam restituir a esperança, mas cujas notícias se vão mantendo abafadas a fim de se impedirem expectativas encorajadoras. A concentração e controle dos grandes meios de comunicação/informação nas mãos do poder financeiro permite bombardear as mentes e estabelecer a confusão entre "globalização" e "ideologia da globalização" (como alguém dizia, não recordo quem), mas a mundialização da resistência e da luta por uma sociedade efectivamente democrática não é uma utopia.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Adenda (?)

Ao ler este post do Henrique Santos, bem como o artigo que nele também é referido (sugiro vivamente ambas as leituras), deixei um comentário pedindo desculpa ao Henrique pela ocupação do seu espaço dado que, neste meu, continuo a precisar de um considerável intervalo, indo apenas "postando" intermitentemente para não o fechar por um tempo. Mas, depois, fui eu mesma que não aceitei as minhas desculpas, por isso venho acrescentar uma parte do comentário que deixei, de certo modo como adenda ao meu post anterior. Assim, "transcrevo -me", a mim mesma:

Não sei se vou dizer uma barbaridade, mas começo a pensar na necessidade de os professores se descentrarem do ECD para se voltarem para a denúncia do real significado das actuais políticas educativas (relativas ao ensino, aos alunos), voltadas exclusivamente para os interesses económicos e, portanto, para os interesses relativamente ao mercado de trabalho. Não são os professores sozinhos que vão conseguir lutar contra isso, claro, mas as lutas laborais sectoriais actualmente pouco ou nada demovem governos (...).
Penso que só numa ampla consciencialização de povos e em amplos movimentos se virá a conseguir fazer recuar a subserviência ao neo - liberalismo desenfreado, e que só um recuo nisso poderá ter efeitos quer na questão de fundo que é a escola pública e o direito à educação e ao ensino em igualdade de oportunidades, quer também nas próprias questões laborais. Já não acredito que, neste momento, sirva de grande coisa lutar contra cada medida isolada, são as visões e objectivos globais que estão por detrás delas que têm que ser combatidos ( e de nada serve o partido do nosso governo chamar-se socialista, quem está no governo está lá para cumprir os ditames "globais").

sábado, fevereiro 24, 2007

"Animar a malta", "acordar a malta"...

É totalmente compreensível o desânimo que o novo ECD trouxe aos professores. Mas eu não acredito que o tempo (e não muito) não venha a impor a evidência dos seus erros e a sua correcção (desde que os professores não deixem de lutar por isso). Maria de Lurdes Rodrigues destruiu o anterior ECD em poucos meses, o actual também poderá ser alterado - esta ministra mais a sua equipa têm os seus dias contados.
Mas há decretos bem mais difíceis de virem a ser emendados, além de as suas consequências demorarem muito mais tempo a tornar-se evidentes e a acordar, inclusivamente, os pais deste país cujos filhos vão ser cobaias em experiências gravemente insensatas. Estou a pensar especialmente no novo regime jurídico da formação de professores.

Não me apetece escrever, não vou alongar-me, mas este post impôs-se-me ao recordar como era a "carreira" de professor quando nela ingressei, inclusivamente no aspecto remuneratório - isso não foi eterno, e as lutas não foram inúteis! Ao recordar também que mesmo no tempo do "Estado Novo" (no qual ainda vivi já como professora) "
sempre existiu um respeito pelo saber próprio, disciplinar, dos docentes. Poderia existir um esforço de inculcação ideológica, mas não era negado o valor do saber académico e científico, a que se juntava uma formação pedagógica" - uso as palavras do Paulo Guinote não só porque, como disse, não me apetecia escrever, mas também porque o Paulo tem feito um extenso trabalho de análise e desmontagem cuja leitura recomendo a quem eventualmente não esteja a acompanhá-lo.

A degradação do ensino público no nosso país não começou, como todos sabemos, com Maria de Lurdes Rodrigues e, se a qualidade desse ensino não desceu ainda mais, tal deve-se aos professores, à sua dedicação, ao seu empenhamento (àqueles que não se podem honrar disso, avalie-se, forme-se, e excluam-se até da profissão os que eventualmente se fechem a qualquer avaliação formativa).
Penso, pois, que é preciso "animar a malta". Mas penso também que é preciso que esse ânimo se volte para o "acordar a malta" - "malta" aqui muito mais ampla, estendendo-se à tomada de consciência de uma opinião pública que a actual equipa do Ministério da Educação tacticamente começou por manipular a ponto de a senhora Maria de Lurdes Rodrigues poder atrever-se a essa frase insana "Perdi os professores mas ganhei a população".

E mais não escrevo - deixo o "animar" e o "acordar" para os mais novos (e também para os que ainda estão nas escolas por serem menos 'velhos') do que eu.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Deixou-nos há 20 anos...

No dia 23 de Fevereiro de 1987 dissemos adeus a José Afonso, dissemos:
Até sempre, Zeca!



Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

José Afonso


quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Coisas de avó e neto

Tenho que deixar registada no meu cantinho a 4ª feira das férias de Carnaval do meu neto - então não é que pela primeira vez ele conseguiu ganhar-me no bowling?! Até seria natural, aos 13 anos já se pode jogar bem mesmo com pouco treino, mas o caso é que ele de vez em quando ainda se precipita e lá cai a bola antes de chegar a um terço do percurso, enquanto eu tenho cá na ideia que as minhas bolas quando caem é mesmo só quase quase lá no fim... (hummm... será mesmo?)

Desconfio que não estou só a registar a vitória do neto, estou é também a dar-me oportunidade para um próximo registo da desforra! [Pois claro, eu faço muita questão de me manter em forma por mais todo o tempinho possível, por várias razões, e mais uma que é a de prolongar o prazer de serem os netos a convidar-me para desafios - de bowling e outros! ;)]


(Pois... podia ser um clip de vídeo, mas não me apetece pôr vídeos no meu cantinho, pode ser que qualquer dia vá bater à porta do You Tube ou de outro seu concorrente, mas por enquanto não estou nada virada para aí)

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

...

Como sei que a expressão 'férias' de carnaval só é apropriada para os alunos (de mim pensarão muitos que agora estou sempre em férias), não digo que este cantinho vai fazer umas feriazinhas, prefiro dizer que vai fazer um intervalo (como, aliás, vem sendo frequente).
Mas deixo um quadro pendurado na parede e, na mesinha por baixo, mais um
desses poemas em que Bashô exprimia um momento, uma percepção, um estado interior, com a fascinante criação de beleza conseguida em apenas três versos.

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F. Vallotton (1893). La Manifestation.

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P.S. - Destaque para um artigo

Já tinha publicado este post (a iniciar o meu "intervalo") quando li o artigo para que o Henrique Santos chama a atenção aqui. Não resisti a vir reforçar a sugestão do Henrique, para a eventualidade de algum visitante a este cantinho não ter ainda visto essa sugestão de leitura, pois consideraria bem oportuno se o artigo fosse divulgado tanto quanto possível. E não resisti porque o referido artigo não é escrito por um português, o autor não estaria a pensar especificamente na actual política educativa no nosso país, mas (a meu ver) até poderia perfeitamente estar a pensar nela também.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O que eu esperaria agora se fosse ingénua

Esclarecimento prévio:
Este post não tem a ver com o referendo de ontem, em si, e é independente do resultado pois já estava em draft aguardando apenas pelo dia seguinte. Também (e isto sublinho) não toca os que, contrariamente ao meu voto, optaram pelo não de acordo com a sua reflexão autónoma e séria, baseada em convicções ou na interpretação que pessoalmente fizeram do seu significado - não me pronunciei em lado nenhum público e respeito todas as opções honestas de todas as pessoas que procuram pensar honestamente consigo próprias. Dado este esclarecimento, passo ao que motiva o título do post.
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Vi pouco a TV, mas o suficiente para me aperceber da grande mobilização conseguida por promotores de campanhas ou movimentos. Sei que a mobilização foi de ambos os "lados", mas foi do lado do não que se viram os cartazes "Pelo direito à vida" - o que não estou a criticar, já esclareci que respeito as convicções, além de que não viria agora falar de interpretações da pergunta referendada.

O que eu esperaria agora (se fosse ingénua) é que essa tão grande mobilização conseguida, levando a grandes manifestações "pelo direito à vida", fosse aproveitada para continuarem manifestações por esse direito nas situações verdadeiramente inequívocas. E gostaria também que a política até agora levada a cabo por quem governa me permitisse confiar que medidas sociais, medidas no domínio da assistência na saúde e também medidas que levem a todos, incluindo adolescentes, informação e apoio atempado sobre como evitar gravidez indesejada caminharão no sentido da prevenção, pois julgo que não há mulher nenhuma que tenha praticado aborto (ou que venha a praticá-lo) que não preferisse não ter tido (ou não ter) que enfrentar tal decisão - mas confiar depois de se andar a observar as prioridades do actual governo, concorde-se que não é simples.

O que eu esperaria, se fosse ingénua, era que a TV não perdesse o balanço, lembrando-se agora dos milhões de crianças que nasceram mas eu não sei se se pode chamar vida às suas vidas, morrendo milhares por dia de fome, vivendo muitos e muitos mais milhares sob o terror quotidiano no meio das guerras, inclusive aquelas (a maioria) que são desencadeadas directa ou indirectamente pelos grandes senhores do mundo sob argumentos hipócritas e interesses escondidos, enquanto outros que não são senhores do mundo mas governam em seus países fecham os olhos, subservientes às políticas "globais".
Mas esses milhões de crianças a cujas vidas é difícil chamar vida estão lá longe, noutros sítios do mundo. Pois... Certas bocas só se enchem publicamente em nome da "globalização" quando lhes convém. Denúncias e imagens na TV , por exemplo, não convêm aos que a controlam, incomodam e o que é preciso é acomodar-se - não incomodar-se. E que as pessoas comuns se distraiam, não vão elas lembrar-se, aqui e por outros países, de começarem a incomodar-se demasiado e acabarem por encher as ruas. (Países afastados e protegidos dos dramas da outra metade do mundo pois neles vidas que também não são vida são em proporção ínfima face a esses dramas - são agora, quiçá até um dia...)

(Eu disse no meu post anterior que explicaria a "estranha" associação de ideias que me levara à colocação de uma foto. Eu acredito na sinceridade de muitos que ergueram cartazes "Pelo direito à vida", como na de muitos que ergueram outros contra uma lei punitiva, agora cá, noutros países noutras alturas, mas estou farta dos hipócritas de cá e de lá (e obviamente que agora já não estou a referir-me ao referendo), esses até não precisam de descer à rua para defenderem o que querem defender, esses ou têm na mão os cordelinhos poderosos das políticas, ou penduram-se neles pois isso de não se deixarem ir a reboque exigiria coragem demais...)

sábado, fevereiro 10, 2007

Cá estou eu com as minhas estranhas associações de pensamentos...

Esta foto, logo hoje que é sábado? - sábado e domingo são repouso de fim de semana... Além disso, até vão deixar de morrer de fome em cada dia cerca de 11 mil crianças neste mundo - ou é mentira que ele está a caminho da prosperidade agora que vai ser tudo global?
Mas eu não tenho culpa que o meu pensamento faça sozinho umas associações de ideias, e eu hoje não consigo detê-lo se não lhe fizer a vontade deixando aqui escondidinha no meu cantinho essa foto... (só uma entre tantas acessíveis)
(O meu pensamento não me é assim tão insondável, acho que depois do fim de semana já poderei explicá-lo)

(Foto recolhida há um tempo na net, peço desculpa por não ter guardado o endereço)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A grande ironia das minhas leituras

Encomendara um livro (que só comecei a ler ontem) quando ainda pensava adiar por dois ou três anos o pedido de aposentação a que já tinha direito. Trata-se de uma obra de autores de incontestada autoridade no domínio da investigação científica aplicável ao ensino-aprendizagem. (Citarei a obra mais abaixo*)
Tendo ficado ainda na Introdução, na noite passada, deparei-me hoje com um texto referenciado pelo
Henrique Santos neste seu post, e também pelo Paulo Guinote, que o transcreve no seu post aqui.
Infelizmente, esse texto não descreve uma fantasia, mas um futuro possível (e possivelmente muito próximo, pois as "evoluções" agora dão-se a velocidade vertiginosa). Por isso, ao pensar na leitura que ontem iniciei - eu, que já nem preciso de me inteirar de recentes investigações para nortear prática profissional (aliás, a 1ª edição do livro já é de 1999) -, não senti vontade de rir, também não propriamente de chorar, mas sim uma enorme ironia, como que parecendo rídicula a investigação realmente científica no terreno do ensino-aprendizagem face aos interesses, objectivos, perspectivas que imperam no mundo actual, nesta chamada sociedade do conhecimento - designação também a parecer irónica a quem vê o mundo como de e para todos e não de e para alguns apenas.

A quem eventualmente me leia e prossiga até final, peço que, se ainda o não fez, comece por ir ler o texto para o qual pus link acima, a fim de entender a que propósito aparece este meu post.
Da Introdução à obra que comecei a ler (e vou continuar) copio apenas alguns excertos - que limitam a apresentação e alcance da mesma, mas que reduzo até por serem em inglês - somente para dar uma ideia da ironia de que falei. (Ironia, mas não fatal, a meu ver, pois não desisto de uma coisa que se chama Esperança)
___
«From Speculation to Science
(...)
The revolution in the study of the mind that has occurred in the last three or four decades has important implications for education.
(...)
• Research from cognitive psychology has increased understanding of the nature of competent performance and the principIes of knowledge orga­nization that underlie people's abilities to solve problems in a wide variety of areas, including mathematics, science, literature, social studies, and his­tory.
(...)
• Research on learning and transfer has uncovered important principles for structuring learning experiences that enable people to use what they have learned in new settings.
(...)
• Emerging technologies are leading to the development of many new opportunities to guide and enhance learning that were unimagined even a few years ago .
(...)
FOCUS: PEOPLE, SCHOOLS, AND THE POTENTIAL TO LEARN
(...)
• First, we focus primarily on research on human learning (...)
• Second, we focus especially on learning research that has implica­tions for the design of formal instructional environrnents (...)
• Third, and related to the second point, we focus on research that helps explore the possibility of helping all individuals achieve their fullest potential.
(...)
Learning research suggests that there are new ways to introduce stu­dents to traditional subjects, such as mathematics, science, history and ljtera­ture, and that these new approaches make it possible for the majority of individuals to develop a deep understanding of important subject matter. (destaques meus)
(...)
»
* [Bransford, John D., Brown, Ann L. & Cocking, Rodney R. (Ed.) (2000). How People Learn: Brain, Mind, Experience, and School. Washington: National Academy Press].

sábado, fevereiro 03, 2007

Bom fim de semana!

[O meu vai ser um bocadinho prolongado ;)]



Para minha fadiga
um albergue... Mas, oh,
estas glicínias!

Matsuo Bashô
(Trad. Olga Savary)


terça-feira, janeiro 30, 2007

"As minhas" TIC com os netos

A parte do meu desktop que é só dos netos
(do resto, cada um de nós usa o que precisa)

O Nuno só tem uma pasta no ambiente de trabalho do pc da avó pois a sua fase nas TIC já é outra e está no 8º ano - dessa fase não vou falar (hoje) porque lá iria eu desviar-me para questões das escolas, do uso das novas tecnologias com os alunos (ou do ainda bastante generalizado não uso). Apenas quero guardar neste cantinho as pastinhas da Inês aos oito anos, que 'eles' crescem muito depressa, daqui a nada já serão só recordações.


Lembrei-me de pôr a imagem para reter especialmente duas das pastas da Inês. Uma, é a das artes plásicas, designação que veio dela quando me disse que queria "fazer artes plásticas no computador" - donde lhe veio a pomposa designação, não cheguei a averiguar bem.
Mas, o que importa é que largou definitivamente os programinhas já demasiado infantis, em que as composições "artísticas" são quase só feitas com clics. Iniciei-a então no Paint, incluindo busca de imagens para inserir a fim de complementar/enfeitar o trabalho pessoal com as limitadas ferramentas.
Confesso o meu desleixo na procura de recursos menos limitados, acessíveis à idade, mas também é muito pouco o tempo que lhe sobra das suas "pesquisas" na net, nos bocadinhos que está na minha casa (regularmente, só duas vezes por semana), dado que o computador dos dois manos em casa deles ainda não tem internet, e o outro tem muitas vezes prioridades profissionais.
"Pesquisas" na net... é que me aparece frequentemente com endereços de sites (são sempre infantis ou juvenis) que traz de cor, suspeito que alguns de anúncios da TV, outros devem vir dos amiguinhos da escola. E lá vai explorá-los (depois de eu ver onde entrou - sempre convém), se lhe agradam guarda na sua pasta dos Favoritos. Também recebe de vez em quando e-mails de um ou outro site que promove concursos, e lá vai ela, de respectivos username e password nos dedos. (Ainda "ontem" mal sabia ler e escrever! Mas, este pouco agradável passar dos anos para quem já tem os que eu tenho tem suas compensações, e uma é reviver o crescimento das minhas crianças)

Mas... que coisa, lá estou eu a desviar-me (coisas de avó), pois a pasta que queria referir mais é a designada por concursos. Adora quando eu faço um exercício com o Hot Potatoes, seja para o português, seja para a matemática, seja... de "cultura geral". São esses os concursos da respectiva pasta pois são desafios, dado que indicam no final a pontuação (que vai sendo registada no post-it, como se vê na imagem). Não crio estes exercícios-concurso para suprir nenhuma insuficiência da escola - a professora é excelente -, nem para motivar a Inês que, felizmente, gosta de aprender. Apenas os faço de acordo com perguntas/dúvidas que ela me coloca. Por exemplo, para reforço da correcção da ortografia em casos em que mantém hesitações ou em tipo de erros que ainda comete repetidamente, para apreender melhor um raciocínio na matemática em que noto que persistem dificuldades ou erros por precipitações automáticas e também para "puxar" pelo seu vocabulário, inclusive o "matemático", neste caso num exercício de palavras cruzadas que o Hot Potatoes permite criar com extrema facilidade.



(Mas agora ando a descurar o concurso, pois há novo entusiasmo na pasta dos jogos)



E, já agora, uma referência a essa pasta dos jogos. Embora a Inês aproveite as vindas cá a casa para os joguinhos online dos seus sites favoritos, também gosta muito do chamado software educativo. Usa-o em casa dela, mas também com frequência aqui, o que mostra que vale a pena adquiri-lo. Ainda há umas três semanas andou a pedir-me a Aventura do Corpo Humano, que chegou a encontrar cá em casa mas foi para o lixo quando verifiquei que era um daqueles que o XP fez passar à categoria de antiguidade. Comprei a versão actualizada a pensar que se não iria interessar muito, mas a verdade é que está agora no "top" dos preferidos. Além de actividades mais lúdicas, o cd tem outras que eu supunha que não a entusiasmariam, mas afinal... jogo é sempre jogo, e para as crianças ouvirem os elogios numa vozinha engraçada, acompanhados de palmas, pelos vistos até seguem atentamente as lições prévias do cd sobre nomes de ossos e outros componentes do corpo, enfim, essas "coisas chatas".
[Ei! Atenção! Estou a falar de uma criança de 8 anos, nada de confusões com 8º ano, que eu não defendo mesmo nadinha joguinhos 'toda a vida' para motivar a aprendizagem. Desafios a crescerem, isso sim - aliás, até tenho um marcador de posts designado por "infantilizar ou puxar?", embora nenhum dos posts marcados tenha a ver (explicitamente) com aprendizagem curricular, e suponho que (ainda) não escrevi nenhuma memória que se relacione com a ideia a que procurava sempre que os alunos do 2º ciclo aderissem (e julgo poder dizer que não era mal sucedida nisso) - a de a matemática e os respectivos problemas serem como um jogo, um desafio ao raciocínio, e que eram capazes do mesmo modo que revelavam ser capazes de descobrir estratégias, às vezes difíceis, para ganharem em certos dos seus jogos].



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Adenda



Ainda pelos 4-5 anos do Nuno, a mãe (minha filha) declarou que não teria que se preocupar com a "formação informática" dele pois delegava-a em mim. Pois, pois... até há um tempo atrás ainda pensávamos que isso poderia passar por nós, mas do que eles gostam é das modas lá entre eles... Por exemplo, cedo deixam de precisar que lhes ensinem a usar o msn, e lá os temos a prolongarem em casa as conversas da escola com os amiguinhos (e amiguinhas), o horário de estudo esquecido (até serem apertados com uma proibição de msn até levantarem aquelas notas negativas que começaram a aparecer nos testes por causa de tanta conversa - mas isso só fazem alguns pais, eu sei de uns que tiveram que o fazer uma vez há pouco tempo mas não vou dizer aqui em público quem era o filhote, digo só que as notas levantaram logo nos testes seguintes e ele não andou traumatizado com a proibição), e a dedicação intensiva a uma nova escrita que qualquer dia os põe a escrever português com mais erros do que quando tinham nove anos, isto se falarmos só dos que até fizeram um bom 1º ciclo.
O Nuno até criou um blog, e não fui eu que ensinei, só dei depois umas dicas que até o levaram a um primeiro contacto com html, mas depressa o abandonou por "falta de assunto" e, quanto a descobrir assunto... bem, "santos de casa não fazem milagres" (até porque são vistos como intrusos, os reconhecidos como "autoridades" são os professores nas disciplinas escolares - no mais geral ainda com nada ou pouco de TIC -, alguns amigos um pouco mais velhos noutras áreas e os publicitários das últimas modas/aliciamentos - que não são o msn, este até é um desviante menor do estudo).



Como competir com isto? Que papel cabe à escola?



Mas já saí do assunto do meu post... que mania das adendas!



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_xiiiiiii... Isabel, que post tão longo!!
_Ora, não faz mal, este foi para guardar como recordação, eu volto qualquer dia a questões implícitas na adenda...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pois... mais virada para leitura do que para escrita.

Fechei a última página de A Varanda do Frangipani, de Mia Couto, que li quase de uma assentada.

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"Foi então que uma explosão se tremendeou pelo forte, parecia o mundo se fogueirava. Nuvens espessas escureceram o céu. Aos poucos, os fumos se dispersaram. Quando já tudo clareava sucedeu que, daquele depósito sem fundo, se soltaram andorinhas, aos milhares, enchendo o firmamento de súbitas cintilações. As aves relampejavam sobre as nossas cabeças e se dispersaram, voando sobre as colinas azuis do mar. Num instante, o céu ganhava asas e escoava para longe do mundo."

"Era a árvore do frangipani. Dela restava um tosco esqueleto, dedos de carvão abraçando o nada. Tronco, folhas, flores: tudo se vertera em cinzas. (............)
Recordei ensinamentos do pangolim. A árvore era o lugar de milagre. Então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu, como sémen da terra. A cada gesto meu o frangipani renascia."

"_Espere, eu vou consigo, meu irmão.
Era Navaia Caetano, o velho-menino. (...)
Segurei a sua mão. Mas então reparei que ele trazia, a tiracostas, o arco de brincar. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. Lá os metais eram interditos. Mas a voz do pangolim me chegou, corrigente:
_Deixe o brinquedo entrar. Este não é um caso de última vez..."

____________
Me perdoe Mia Couto (que, na minha humilde opinião, é um grande, acho que me atrevo a dizer um enorme escritor) por usar excertos* retirados subjectivamente do contexto do último capítulo (e mais ainda do contexto de todo o livro), mas não os uso como marcas desta obra, retiro-os pelo último pensamento que ficou em mim, sempre tão pessoal da parte de cada leitor.
E antes de o pensamento regressar ao quotidiano, despeço-me da árvore perfumada que renasce de monte de cinzas e também das andorinhas que saiem voando de abismo que engoliu armas - quanto ao arco de brincar, há muitos sótãos que guardam brinquedos de infâncias longínquas...
(Mas não me despeço de A Varanda do Frangipani, esse fica comigo ao lado de outros, belos também)
_____
* Excertos: pp 149; 150, 151; 151, 152 (Ed. Caminho, 8ª edição)

___________________________
Outras leituras:
Porque nem se trata de obra literária, nem é temática dentro dos assuntos deste blogue, não deixo aqui o link para uma entrevista com Arno J. Mayer - é já de 2002, encontrei agora -, interessantíssima (a meu ver), que li de um fôlego. Mas deixei o link ali.

Mais virada para a leitura do que para a escrita...

...assim meu cantinho vai andando abandonado. Mas, às vezes eu penso nele como se não fosse um espaço virtual, mas um recanto mesmo onde me viesse sentar debaixo de uma trepadeira para soltar e depois guardar entre as pedras de um murinho uma impressão que me deixou o livro que acabei de fechar, ou a alusão a algum momento particular do dia, ou um pensamento que ou me grita ou me murmura através de alguma forma mais ou menos metafórica que me suscita a pena de um poeta ou o pincel de um artista. Ora... porque não? Um blogue não tem que ficar preso ao título, e os posts não têm que ser todos para eventuais visitantes entenderem sem ficarem a perguntar-se: A que propósito vem esta prosa ou esta imagem?

Memórias da vida de professora...? Vêm-me muitas , sobretudo das aulas, de empreendimentos como directora de turma, de casos, enfim... sobretudo memórias 'deles' - os alunos. Vêm-me ao pensamento muito mais do que vinham enquanto ainda estava no activo (nessa altura era o presente, o dia a dia, as turmas desse ano que ocupavam o pensamento). Mas... vêm e também vem logo uma recusa: "Não me apetece escrevê-las" (as memórias), "não, não quero escrever, é passado". E eu sei que isto não faz muito sentido, porque escrever memórias não tem, não tem mesmo que significar saudosismo, não foi com nenhum sentimento desses que iniciei o blogue e lhe dei o título que tem, e continua a não ser ao mantê-lo.
Mas, não vou perder tempo a deslindar o porquê desse não apetecer ou não querer. Se uma memória de prof me puxar para o teclado, escreverei, e se a seguir as memórias não continuarem a puxar para as teclas, não escreverei, e pronto - é simples.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Hoje deixo outro poeta...

... completaria hoje 84 anos - Eugénio de Andrade.

[Onde me levas...]

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


Eugénio de Andrade
_____________________
ADENDA
Eugénio de Andrade é um dos poetas de que gosto tanto que, sabendo que seria hoje o seu aniversário, tinha que deixar um poema seu. Além disso, quando penso que vou deixar o meu cantinho um tanto em pausa, gosto de deixar um poema (ou uma pintura - as obras de arte são poemas). Contudo, desta vez em que também me parece que vou fazer (ou retomar) alguma pausa, deixo o desejo de que o tema do meu post anterior (resumido: o professor generalista para o 2º ciclo) se torne tema de combate a tal visão, inclusivamente na blogosfera)

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Habilitações para a docência - para mim, basta desse assunto!

Perdi a paciência, afinal já estou fora, e para que hei-de preocupar-me e até ficar efervescente com as notícias, aliás ainda muito escassas, que há sobre o assunto? Hoje despeço-me dele, pois de nada serve a preocupação de um simples professor, nem de vários, nem de muitos que o conhecem bem por terem acompanhado no terreno as evoluções do sistema de formação de professores após a Lei de Bases do Sistema Educativo, especialmente no que respeita às formações para a leccionação no 2º Ciclo. Mas também não pensem os colegas do 3º Ciclo e do Secundário que o assunto não lhes diz respeito, ou então não se venham a queixar quando os futuros alunos lhes chegarem às mãos.

Bati na tecla de algumas formações vigentes para o 2º ciclo e, recentemente, alertei para a visão da actual equipa do Ministério da Educação, relativamente à qual, no respeitante ao 2º ciclo, até um grupo de trabalho constituído por responsáveis de várias ESEs esteve contra, apesar de as ESEs serem as instituições que maioritariamente têm a cargo essa formação. (Esse meu alerta, incluindo informação de pareceres, está aqui).

O novo regime de formação para a docência na Educação Pré-Escolar e nos ensinos Básico e Secundário foi aprovado em conselho de ministros em 28 de Dezembro sem que dele fosse dado conhecimento público ou aos sindicatos de professores. Foram ontem divulgados alguns aspectos desse Decreto-Lei, e as posições da FENPROF (que acabo de ler) sobre o que já é conhecido não me indiciam que tenha sido corrigida a visão que mais me preocupava, embora ainda não tenha acesso ao diploma para ler com os meus próprios olhos. Entretanto, não preciso de ler para conhecer, desde a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, quer o facto de nunca terem sido postas em prática algumas disposições dela, quer o modo como foram sendo contornados e mesmo desvirtuados princípios nela inscritos depois de processo árduo para se conseguir uma lei que, pela sua importância, requeria a obtenção de consenso.

A pôr ponto final num assunto com que me preocupei longamente (e disso, já tive quanto baste), deixo apenas e sucintamente uma memória que até devo ter escrito com mais pormenores algures neste cantinho. É a memória de quatro estagiárias que tive numa turma minha de 6º ano, a partir só de finais de Fevereiro desse ano, e tive apenas na qualidade de cooperante, não de orientadora. (Para não cometer injustiças, esclareço que não frequentavam uma ESE, mas um desses institutos privados, igualmente credenciados para a referida formação).
Eram jovens trabalhadoras, empenhadas, entusiastas e que queriam mesmo ser professoras (e boas professoras). Apesar de assoberbadas por outros trabalhos além daquele (pseudo) estágio, arranjavam disponibilidade para todas as horas (muitas) que elas próprias eram as primeiras a pedir, dado que eram críticas quanto à insuficiência da duração da formação em tantas vertentes como as científica, didáctica, pedagógica e não só. Dei-lhes muitas horas para além do que se inseria nas minhas obrigações como cooperante apenas, e dei com gosto porque elas iam tendo consciência das lacunas a nível científico e de dificuldades até elementares que queriam ultrapassar.
Desejo que estejam colocadas e não duvido de que sejam professoras competentes, mas também não tenho dúvidas que terão tido que fazer, para isso, um considerável esforço pessoal adicional à formação recebida. Porque só cabeças tais como as da actual equipa ministerial podem não perceber que não chega uma formação (agora, pelos vistos, ainda mais "generalista") que não dê a preparação científica especializada indispensável para que o professor saiba mais do que ensina, mesmo a nível ainda elementar/inicial, sob pena de não ficar capacitado para, por exemplo, iniciar os alunos no processo progressivo de aquisição/elaboração de conceitos, devido a não ter ele alguns bem elaborados ou sequer minimamente, mas correctamente, adquiridos.

E pronto. Prossigam os ministros da educação com uma política de formação de professores que fique o mais barata possível, com a justificação de que os meninos ficam traumatizados com a passagem do professor único do 1º ciclo para vários professores - justificação de que até se ririam os próprios alunos, pelo menos após a primeira ou segunda semana dessa transição -, prossigam, que eu fico-me com a minha opinião mas não vou insistir mais no assunto.

domingo, janeiro 14, 2007

Para o domingo (e não só), deixo um poeta

[Prévio: "Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase! (...) Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu." (Luís Fernando Veríssimo - de um pps que corre pela net)]
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Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro, Quase (13 de Maio de 1913)
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P.S.: Bom domingo e boa semana!
_________________________________________
ADENDA ("extra")
O meu destaque (extra-educação/ensino): Artigo no Público de hoje, aqui.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Percepções e crenças de pré-adolescentes e adolescentes sobre o Bem e o Mal* - III

Nota prévia
Um depoimento de um participante num conjunto de entrevistas (em que não são feitas perguntas direccionadas para qualquer questão específica que induza algum discorrer não espontâneo), não permite qualquer tipo de generalização. Aliás, os extractos que se seguirão nada acrescentam a causas ou motivos que percebemos para alguns (sublinho "alguns") comportamentos, agressivos e outros, sem precisarmos de depoimentos. Se trago para aqui esses extractos é porque eles têm a particularidade de revelar, da parte de uma menina ainda criança, não só a consciência do efeito da pressão do meio em que vive, mas também indícios de pensamentos de difícil resposta na sua idade, semelhantes a dilemas morais, tratando-se de um caso em que não pode contar com ajuda da família para encontrar as melhores respostas.

Sobre o efeito da pressão social na produção de conformidade a normas ou padrões de grupo**
ou
Dilemas numa menina ainda criança

Cátia tinha 12 anos e vivia num meio, quer social, quer familiar, problemático. Mas, embora não fosse minha aluna, sabia que era uma menina que se revelava habitualmente pacífica, não dando quaisquer problemas de comportamento.

"(...)
Foi cá na escola... Foi com a Vânia. Mas eu tava mesmo a pensar que era mal, porque sim, e isso... Prontos, que eu não devia, porque depois ela ficava pior, e eu também ficava, mas se eu não fosse dar-lhe, ela só andava a provocar, também me chamavam medricas, ou assim.
(...)
Sempre a tratarem-se mal (as pessoas)... Nem todas são assim, não é? A maioria delas são... Não é só no meu bairro.
(...)
Quando vejo crianças ou adultos assim à porrada penso porque é que hão-de fazer isso, não vale a pena, mas muitas das vezes acho que não é assim. As pessoas dizem anda embora, mas como é que é, se eu vou-me embora, as pessoas começam a chamar-me cobarde. Mas ele ou eu pode ficar ferido. Por isso, não sei... Quando eu já for assim um bocadinho adulta... uma pessoa lembrar-se do que se passou, porque uma pessoa não se pode ficar, manter a ouvir, ouvir sem fazer nada. A pessoa também tem que ter as suas responsabilidades, não vai ficar uma parvinha no meio das outras.
(...) Eu tou rodeada de pessoas que mentem, e então eu também já minto. Uma pessoa para se esquivar de levar tareia... de ser maltratada, depois uma pessoa também mente. Mas se uma pessoa sabe que é verdade, não é tar para aí a mentir, a dizer não sei, não sei.
(...)"
_________
* De estudo já referenciado no post I
** Existem, de há muito, estudos sobre o efeito referido, distinguindo, nomeadamente, a conformidade pública e a privada.
_______________
P.S.:
A Cátia tinha um aproveitamento escolar satisfatório, mas, para o final do ano lectivo (no seu 6º ano), começou a faltar bastante. Apesar das diligências da directora de turma, a mãe obrigava-a a faltar à escola porque "precisava dela".
_____________________
Adenda
Agora que já és "assim um bocadinho adulta", como estarás com os teus dilemas, Cátia? Uma flor para ti...


Voltei, mas...

Voltei do fim de semana prolongado de repouso, mas... Em repouso, organizações de tempo que continua desorganizado só acontecem em pensamento (ou em imaginação). Não há mal nisso, planeamento antes de acção, e planeamento faz-se na cabeça, é compatível com repouso. O mal é que, algumas vezes, entre tomar decisões e pô-las em prática vai considerável distância. Por acaso, eu até nunca sofri desse mal a não ser desde há muito pouco tempo, e como não quero dizer-me que a perda de qualidades se deve à idade, arranjo outras justificações (desculpas!) para o facto de já tardar demasiado a organização do meu tempo de acordo com algumas das prioridades que decidi e que, dado não serem propriamente obrigações, vão sendo retardadas por aliciantes ou interesses, sim, mas nada prioritários.

De qualquer modo, voltei, mas... quase certa de que este cantinho vai andar ao contrário: repousará durante a semana e acordará (talvez) ao fim de semana. Até vou colocar uma memória que acabei de escrever mas pus em draft para deixar primeiro estas linhas, mas eu sei que estou a desligar-me deste meu cantinho, um tanto por falta de tempo, outro tanto porque cada vez mais sinto que as minhas memórias... são do século passado (melhor dizendo, por vezes parecem-me de um século remoto de alguma minha encarnação anterior). Mas não é por, em grande parte, serem de há um, dois, ou mais decénios atrás que sinto isso.
A verdadeira, verdadeirinha razão da intenção de memórias ter ficado por meia dúzia de casos é que memórias de professor(a) não se reduzem nem são essencialmente casos pontuais, da Rita, da Cláudia, da Cátia ou de outros. Elas são sobretudo situações mais globais. São ambientes e climas de escola(s); são evoluções e involuções em escolas ou na escola em geral; são métodos de ensino; são fases de trabalho colaborativo, partilha de experiências e dinâmicas de reuniões, e fases de esvaziamento disso pela burocratização e gasto de tempo com escassa utilidade pedagógica, com a consequência de o trabalho se tornar compartimentado ou mesmo individualmente isolado; são dinâmicas despoletadas por alguns e contangiando os outros, e perda das mesmas por cansaço ou mudança de escola desses alguns; são, em suma, o bom, o menos bom e o mau.
Claro que uma pessoa pode ficar-se pelas memórias que são boas recordações. Mas, para isso, eu preciso de apagar a marca de algumas vivências de escola nos anos mais recentes, que também a mim fizeram cansar-me e ir fechando-me na sala de aula. Essa marca, que, ao contrário de ser do século passado, precisamente foi marca por ser da parte final da minha vida profissional, não foi causada pela muito grande maioria dos professores da minha (ex)escola - se fosse, não a referiria, não iria particularizar publicamente uma escola. Mas também não se deveu exclusivamente ao tempo da actual ministra e às suas medidas, pois ela pouco ou nada se ocupou de educação e ensino, as suas principais preocupações/prioridades não são essas nem foi para isso que foi posta no cargo.
Eu acredito que os professores empenhados e dedicados são uma maioria. Quanto à indispensável competência científica, sem a qual não bastam outras competências, que até crescem pela intuição e a experiência mas ficam comprometidas sem a primeira, isso já depende da formação que é institucionalmente dada e das oportunidades de colmatar lacunas e insuficiências existentes em (pelo menos) algumas das formações vigentes, começando pelas oportunidades de serem apercebidas pelos próprios.
Mas também sei que há minorias, às vezes até ínfimas, com uma grande habilidade para conseguirem minar uma escola, pelo menos durante algum tempo. E preciso de me esquecer disso, de me distanciar, até não de tempos antigos, mas sim dos anos mais recentes que, por serem muito próximos do final de todo um percurso profissional, me desmotivam de escrita de memórias. Desmotivam porque algumas realidades que não quererei referir me tornam, pelo menos por enquanto, difícil proceder a tal escrita deixando fora dela essas realidades que não ignoro (nem ninguém ignora) que coexistem com o bom e muito bom, que coexistem com todo aquele corpo docente deste país que foi "segurando" quanto possível o nosso sistema de ensino público e tem vindo, mais recentemente, a conseguir (ou a tentar) impedir que ele bata no fundo, fazendo-o sem suficientes recursos e apoios e, agora, sem sequer estímulo ou reconhecimento.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Fim de semana...



Os aposentados passam a estar sempre em férias. Pois... mas eu ainda não consegui sentir-me em férias, que hei-de fazer contra isso?


Vou fazer um fim de semana de repouso (tenho a vantagem de poder começar à 6ª feira!).


Mas faz frio, é inverno, acho que vou fazer um fim de semana assim...




Bill Stephens. Winter Rest

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Em jeito de balanço

Talvez faça um balanço em Fevereiro, quando este cantinho completar dois anos. Hoje, trata-se mais de uma breve observação ocasionada não por passagem de 2006 para 2007, mas pela tentação de umas experiências "técnicas" que fiz nos últimos dois dias. A tentação veio de dois posts da 3za, este e este.
Para experimentar uma das novidades do novo blogger (os marcadores para busca de posts por temas), lá me decidi a mudar, mas sem me sujeitar a perder o meu template. E isto de usarmos templates disponibilizados por outros sites e, para mais, fazendo-lhes alterações para os adaptar e personalizar, traz alguns problemas devidos a codificações diferentes, não ficando imediato/fácil o uso das novas funcionalidades do blogger. Bem, mas isso podem ler nos posts da 3za que referi.

Ora, eu não estava interessada nos marcadores para catalogar os meus posts, mas sim para confirmar uma coisa que já sabia: Posts de acordo com a minha ideia inicial, ou seja, memórias mesmo do "terreno", mas do terreno em que entram os alunos, memórias mesmo deles e da prática com eles, ficaram quase só na intenção dos poucos meses que antecederam o início das medidas da actual ministra da educação. Assim, só quis procurar esses e pôr marcadores apenas nesses.

Como não me está a apetecer escrever, comento apenas que, dos 438 posts deste cantinho, apenas vi 19 títulos (4%!) que me disseram terem a ver mesmo com as referidas memórias! Talvez haja mais três ou quatro (não ia ter paciência para abrir tantos posts) e decerto que em muitos outros falei de alunos, o desvio da escrita para a política deste ministério não aconteceria se não fosse por causa deles, mas eu refiro-me a memórias directas e concretas, de acordo com a minha principal motivação inicial.
E pronto, fica só esta observação. Como disse, não me apetece comentá-la agora, mas hei-de escrever sobre isto (fica agendado para Fevereiro).

P.S.:
Esse menu à direita com as designações que fui dando aos temas dos tais apenas 19 posts está, por agora, numa caixa de cor preta porque assim me ficou, posto e adaptado o respectivo código, mas clicando e passando o rato lá aparecem os temas a branco. Qualquer dia volto ao template a ver se consigo tornar a caixa mais "estética", mas a culpa não foi das dicas da
3za, que tem a sua bonitinha, mas do Miguel Pinto, que descobre sites de templates com códigos muito diferentes do layout do blogger, e eu deixei-me logo tentar pelas descobertas dele [ó Miguel, se me leres, não fiques com sentimentos de culpa, que eu só estou a agradecer-te ;)]

terça-feira, janeiro 02, 2007

Nota sobre isto do "sonho" e da "esperança"

O meu 1º post do ano fala de sonhos. Outros também já falaram, por palavras minhas ou de poetas que sabem exprimir-se como eu não sei, de sonhos, utopias e esperança. Talvez quem me tenha lido fique admirado por eu esclarecer agora que nunca fui, e continuo a não ser, uma pessoa sonhadora no sentido mais usual do termo. E também não tenho nenhumas ilusões sobre a natureza humana, em que convivem boas e más (ou racionais e irracionais?) tendências, facilmente vencendo as más, sobretudo pela atracção do poder de qualquer tipo.

O post anterior fala em portadores de sonhos, não em sonhos que sonham pessoas em repouso, embora acordadas, pensando em coisas felizes na imaginação para enganarem ou esquecerem a realidade que muito pouco provavelmente lhes permitirá realizá-los. Sonho, para mim, é motor, é o que moveu e move homens e mulheres para a acção, e para a luta (quantos sabendo que não iam ou não vão chegar a usufruir da vitória, quantos arriscando vida ou liberdade, quantos fazendo do seu tempo um grão de contributo pela realização de sonhos da humanidade).

Também esperança não é, para mim, mera crença. Esperança é não desistir enquanto a razão perceber que ainda há argumentos para a não desistência. E a minha razão, felizmente, funciona constantemente com uma perspectiva dialéctica sem a qual eu há muito nada entenderia de evoluções e mudanças, sem a qual me restaria alienar-me para não pensar ou, quem sabe, desistir de ter esperança, e como não sou dada ao conformismo, não encontrar sentido para nada.


Eu gosto muito dos versos de António Gedeão que dizem "Sempre que o homem sonha o mundo pula e avança........", mas porque eles me lembram os homens (homens e mulheres) para quem o sonho é como disse acima: motor, motor, motor!

No conformismo pode haver "sonhadores", mas passivos, sonhando em repouso; no conformismo não há portadores de sonhos (os portadores movem-se) e então o caminho fica todo aberto aos pregoeiros de fatalismos, de irreversibilidades ou do "tarde demais para serem possíveis alternativas".

segunda-feira, janeiro 01, 2007

No 1º dia de novo ano...

...para as minhas filhas e os meus netos, também para os amigos, deixo:

Los portadores de sueños
de Gioconda Belli*

Los portadores de sueños


En todas las profecías
está escrita la destrucción del mundo.

Todas las profecías cuentan
que el hombre creará su propia destrucción.

Pero los siglos y la vida
que siempre se renueva
engendraron también una generación
de amadores y soñadores,
hombres y mujeres que no soñaron
con la destrucción del mundo,
sino con la construcción del mundo
de las mariposas y los ruiseñores.

Desde pequeños venían marcados por el amor.
Detrás de su apariencia cotidiana
Guardaban la ternura y el sol de medianoche.
Las madres los encontraban llorando
por un pájaro muerto
y más tarde también los encontraron a muchos
muertos como pájaros.
Estos seres cohabitaron con mujeres traslúcidas
y las dejaron preñadas de miel y de hijos verdecidos
por un invierno de caricias.
Así fue como proliferaron en el mundo los portadores sueños,
atacados ferozmente por los portadores de profecías
habladoras
de catástrofes.
los llamaron ilusos, románticos, pensadores de
utopías
dijeron que sus palabras eran viejas
y, en efecto, lo eran porque la memoria del paraíso
es antigua
el corazón del hombre.
Los acumuladores de riquezas les temían
lanzaban sus ejércitos contra ellos,
pero los portadores de sueños todas las noches
hacían el amor
y seguía brotando su semilla del vientre de ellas
que no sólo portaban sueños sino que los
multiplicaban
y los hacían correr y hablar.
De esta forma el mundo engendró de nuevo su vida
como también habia engendrado
a los que inventaron la manera
de apagar el sol.

Los portadores de sueños sobrevivieron a los
climas gélidos
pero en los climas cálidos casi parecían brotar por
generación espontánea.
Quizá las palmeras, los cielos azules, las lluvias
torrenciales
Tuvieron algo que ver con esto,
La verdad es que como laboriosas hormiguitas
estos especímenes no dejaban de soñar y de construir
hermosos mundos,
mundos de hermanos, de hombres y mujeres que se
llamaban compañeros,
que se enseñaban unos a otros a leer, se consolaban
en las muertes,
se curaban y cuidaban entre ellos, se querían, se
ayudaban en el
arte de querer y en la defensa de la felicidad.

Eran felices en su mundo de azúcar y de viento
de todas partes venían a impregnarse de su aliento
de sus claras miradas
hacia todas partes salían los que habían conocido
portando sueños
soñando con profecías nuevas
que hablaban de tiempos de mariposas y ruiseñores
y de que el mundo no tendría que terminar en la
hecatombe.
Por el contrario, los científicos diseñarían
puentes, jardines, juguetes sorprendentes
para hacer más gozosa la felicidad del hombre.

Son peligrosos - imprimían las grandes
rotativas
Son peligrosos - decían los presidentes
en sus discursos
Son peligrosos - murmuraban los artífices de la guerra.

Hay que destruirlos - imprimían las grandes
rotativas
Hay que destruirlos - decían los presidentes en sus
discursos
Hay que destruirlos - murmuraban los artífices de la guerra.

Los portadores de sueños conocían su poder
por eso no se extrañaban
también sabían que la vida los había engendrado
para protegerse de la muerte que anuncian las
profecías
y por eso defendían su vida aun con la muerte.
Por eso cultivaban jardines de sueños
y los exportaban con grandes lazos de colores.
Los profetas de la oscuridad se pasaban noches
y días enteros
vigilando los pasajes y los caminos
buscando estos peligrosos cargamentos
que nunca lograban atrapar
porque el que no tiene ojos para soñar
no ve los sueños ni de día, ni de noche.

Y en el mundo se ha desatado un gran tráfico de
sueños
que no pueden detener los traficantes de la muerte;
por doquier hay paquetes con grandes lazos
que sólo esta nueva raza de hombres puede ver
la semilla de estos sueños no se puede detectar
porque va envuelta en rojos corazones
en amplios vestidos de maternidad
donde piesecitos soñadores alborotan los vientres
que los albergan.

Dicen que la tierra después de parirlos
desencadenó un cielo de arcoiris
y sopló de fecundidad las raíces de los árboles.
Nosotros sólo sabemos que los hemos visto
sabemos que la vida los engendró
para protegerse de la muerte que anuncian las
profecías.
_____
*Autora nascida em 1948 na Nicarágua (em Manágua)
_________________

Imagem de algures, na net

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Só um Alerta

Já não se pode estar distraído com as festividades! Como queria manter o meu post anterior como post de topo até à passagem para 2007, deixo só o alerta aqui. (Se alguém quiser ler o alerta mais desenvolvido que já tinha deixado em Novembro, encontra-o aqui)

terça-feira, dezembro 26, 2006

Do velho para o novo ano...

Receita de ano novo
(Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


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Nota:
Andarei ausente. Até... 2007! Entrem todos no novo ano... ia escrever com o pé direito, como se costuma dizer, mas não... Que entrem bem! E com os dois pés ;)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Adenda

[Neste ano, quebrei a tradição. A árvore cá em casa é da cor preferida de uma minha princezinha. Mas, para a quebra da tradição não dar nas vistas, tirei a foto às escuras ;) ]


Contrastes...

Poderia comentar esta quadra do Natal - o verso e o reverso, tradições e fachadas, olhos de criança que brilham e outros que olham apenas, enfim... contrastes. Mas não me apetece escrever. Escrevinhar, só lá para... depois.