sábado, fevereiro 10, 2007

Cá estou eu com as minhas estranhas associações de pensamentos...

Esta foto, logo hoje que é sábado? - sábado e domingo são repouso de fim de semana... Além disso, até vão deixar de morrer de fome em cada dia cerca de 11 mil crianças neste mundo - ou é mentira que ele está a caminho da prosperidade agora que vai ser tudo global?
Mas eu não tenho culpa que o meu pensamento faça sozinho umas associações de ideias, e eu hoje não consigo detê-lo se não lhe fizer a vontade deixando aqui escondidinha no meu cantinho essa foto... (só uma entre tantas acessíveis)
(O meu pensamento não me é assim tão insondável, acho que depois do fim de semana já poderei explicá-lo)

(Foto recolhida há um tempo na net, peço desculpa por não ter guardado o endereço)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A grande ironia das minhas leituras

Encomendara um livro (que só comecei a ler ontem) quando ainda pensava adiar por dois ou três anos o pedido de aposentação a que já tinha direito. Trata-se de uma obra de autores de incontestada autoridade no domínio da investigação científica aplicável ao ensino-aprendizagem. (Citarei a obra mais abaixo*)
Tendo ficado ainda na Introdução, na noite passada, deparei-me hoje com um texto referenciado pelo
Henrique Santos neste seu post, e também pelo Paulo Guinote, que o transcreve no seu post aqui.
Infelizmente, esse texto não descreve uma fantasia, mas um futuro possível (e possivelmente muito próximo, pois as "evoluções" agora dão-se a velocidade vertiginosa). Por isso, ao pensar na leitura que ontem iniciei - eu, que já nem preciso de me inteirar de recentes investigações para nortear prática profissional (aliás, a 1ª edição do livro já é de 1999) -, não senti vontade de rir, também não propriamente de chorar, mas sim uma enorme ironia, como que parecendo rídicula a investigação realmente científica no terreno do ensino-aprendizagem face aos interesses, objectivos, perspectivas que imperam no mundo actual, nesta chamada sociedade do conhecimento - designação também a parecer irónica a quem vê o mundo como de e para todos e não de e para alguns apenas.

A quem eventualmente me leia e prossiga até final, peço que, se ainda o não fez, comece por ir ler o texto para o qual pus link acima, a fim de entender a que propósito aparece este meu post.
Da Introdução à obra que comecei a ler (e vou continuar) copio apenas alguns excertos - que limitam a apresentação e alcance da mesma, mas que reduzo até por serem em inglês - somente para dar uma ideia da ironia de que falei. (Ironia, mas não fatal, a meu ver, pois não desisto de uma coisa que se chama Esperança)
___
«From Speculation to Science
(...)
The revolution in the study of the mind that has occurred in the last three or four decades has important implications for education.
(...)
• Research from cognitive psychology has increased understanding of the nature of competent performance and the principIes of knowledge orga­nization that underlie people's abilities to solve problems in a wide variety of areas, including mathematics, science, literature, social studies, and his­tory.
(...)
• Research on learning and transfer has uncovered important principles for structuring learning experiences that enable people to use what they have learned in new settings.
(...)
• Emerging technologies are leading to the development of many new opportunities to guide and enhance learning that were unimagined even a few years ago .
(...)
FOCUS: PEOPLE, SCHOOLS, AND THE POTENTIAL TO LEARN
(...)
• First, we focus primarily on research on human learning (...)
• Second, we focus especially on learning research that has implica­tions for the design of formal instructional environrnents (...)
• Third, and related to the second point, we focus on research that helps explore the possibility of helping all individuals achieve their fullest potential.
(...)
Learning research suggests that there are new ways to introduce stu­dents to traditional subjects, such as mathematics, science, history and ljtera­ture, and that these new approaches make it possible for the majority of individuals to develop a deep understanding of important subject matter. (destaques meus)
(...)
»
* [Bransford, John D., Brown, Ann L. & Cocking, Rodney R. (Ed.) (2000). How People Learn: Brain, Mind, Experience, and School. Washington: National Academy Press].

sábado, fevereiro 03, 2007

Bom fim de semana!

[O meu vai ser um bocadinho prolongado ;)]



Para minha fadiga
um albergue... Mas, oh,
estas glicínias!

Matsuo Bashô
(Trad. Olga Savary)


terça-feira, janeiro 30, 2007

"As minhas" TIC com os netos

A parte do meu desktop que é só dos netos
(do resto, cada um de nós usa o que precisa)

O Nuno só tem uma pasta no ambiente de trabalho do pc da avó pois a sua fase nas TIC já é outra e está no 8º ano - dessa fase não vou falar (hoje) porque lá iria eu desviar-me para questões das escolas, do uso das novas tecnologias com os alunos (ou do ainda bastante generalizado não uso). Apenas quero guardar neste cantinho as pastinhas da Inês aos oito anos, que 'eles' crescem muito depressa, daqui a nada já serão só recordações.


Lembrei-me de pôr a imagem para reter especialmente duas das pastas da Inês. Uma, é a das artes plásicas, designação que veio dela quando me disse que queria "fazer artes plásticas no computador" - donde lhe veio a pomposa designação, não cheguei a averiguar bem.
Mas, o que importa é que largou definitivamente os programinhas já demasiado infantis, em que as composições "artísticas" são quase só feitas com clics. Iniciei-a então no Paint, incluindo busca de imagens para inserir a fim de complementar/enfeitar o trabalho pessoal com as limitadas ferramentas.
Confesso o meu desleixo na procura de recursos menos limitados, acessíveis à idade, mas também é muito pouco o tempo que lhe sobra das suas "pesquisas" na net, nos bocadinhos que está na minha casa (regularmente, só duas vezes por semana), dado que o computador dos dois manos em casa deles ainda não tem internet, e o outro tem muitas vezes prioridades profissionais.
"Pesquisas" na net... é que me aparece frequentemente com endereços de sites (são sempre infantis ou juvenis) que traz de cor, suspeito que alguns de anúncios da TV, outros devem vir dos amiguinhos da escola. E lá vai explorá-los (depois de eu ver onde entrou - sempre convém), se lhe agradam guarda na sua pasta dos Favoritos. Também recebe de vez em quando e-mails de um ou outro site que promove concursos, e lá vai ela, de respectivos username e password nos dedos. (Ainda "ontem" mal sabia ler e escrever! Mas, este pouco agradável passar dos anos para quem já tem os que eu tenho tem suas compensações, e uma é reviver o crescimento das minhas crianças)

Mas... que coisa, lá estou eu a desviar-me (coisas de avó), pois a pasta que queria referir mais é a designada por concursos. Adora quando eu faço um exercício com o Hot Potatoes, seja para o português, seja para a matemática, seja... de "cultura geral". São esses os concursos da respectiva pasta pois são desafios, dado que indicam no final a pontuação (que vai sendo registada no post-it, como se vê na imagem). Não crio estes exercícios-concurso para suprir nenhuma insuficiência da escola - a professora é excelente -, nem para motivar a Inês que, felizmente, gosta de aprender. Apenas os faço de acordo com perguntas/dúvidas que ela me coloca. Por exemplo, para reforço da correcção da ortografia em casos em que mantém hesitações ou em tipo de erros que ainda comete repetidamente, para apreender melhor um raciocínio na matemática em que noto que persistem dificuldades ou erros por precipitações automáticas e também para "puxar" pelo seu vocabulário, inclusive o "matemático", neste caso num exercício de palavras cruzadas que o Hot Potatoes permite criar com extrema facilidade.



(Mas agora ando a descurar o concurso, pois há novo entusiasmo na pasta dos jogos)



E, já agora, uma referência a essa pasta dos jogos. Embora a Inês aproveite as vindas cá a casa para os joguinhos online dos seus sites favoritos, também gosta muito do chamado software educativo. Usa-o em casa dela, mas também com frequência aqui, o que mostra que vale a pena adquiri-lo. Ainda há umas três semanas andou a pedir-me a Aventura do Corpo Humano, que chegou a encontrar cá em casa mas foi para o lixo quando verifiquei que era um daqueles que o XP fez passar à categoria de antiguidade. Comprei a versão actualizada a pensar que se não iria interessar muito, mas a verdade é que está agora no "top" dos preferidos. Além de actividades mais lúdicas, o cd tem outras que eu supunha que não a entusiasmariam, mas afinal... jogo é sempre jogo, e para as crianças ouvirem os elogios numa vozinha engraçada, acompanhados de palmas, pelos vistos até seguem atentamente as lições prévias do cd sobre nomes de ossos e outros componentes do corpo, enfim, essas "coisas chatas".
[Ei! Atenção! Estou a falar de uma criança de 8 anos, nada de confusões com 8º ano, que eu não defendo mesmo nadinha joguinhos 'toda a vida' para motivar a aprendizagem. Desafios a crescerem, isso sim - aliás, até tenho um marcador de posts designado por "infantilizar ou puxar?", embora nenhum dos posts marcados tenha a ver (explicitamente) com aprendizagem curricular, e suponho que (ainda) não escrevi nenhuma memória que se relacione com a ideia a que procurava sempre que os alunos do 2º ciclo aderissem (e julgo poder dizer que não era mal sucedida nisso) - a de a matemática e os respectivos problemas serem como um jogo, um desafio ao raciocínio, e que eram capazes do mesmo modo que revelavam ser capazes de descobrir estratégias, às vezes difíceis, para ganharem em certos dos seus jogos].



_____



Adenda



Ainda pelos 4-5 anos do Nuno, a mãe (minha filha) declarou que não teria que se preocupar com a "formação informática" dele pois delegava-a em mim. Pois, pois... até há um tempo atrás ainda pensávamos que isso poderia passar por nós, mas do que eles gostam é das modas lá entre eles... Por exemplo, cedo deixam de precisar que lhes ensinem a usar o msn, e lá os temos a prolongarem em casa as conversas da escola com os amiguinhos (e amiguinhas), o horário de estudo esquecido (até serem apertados com uma proibição de msn até levantarem aquelas notas negativas que começaram a aparecer nos testes por causa de tanta conversa - mas isso só fazem alguns pais, eu sei de uns que tiveram que o fazer uma vez há pouco tempo mas não vou dizer aqui em público quem era o filhote, digo só que as notas levantaram logo nos testes seguintes e ele não andou traumatizado com a proibição), e a dedicação intensiva a uma nova escrita que qualquer dia os põe a escrever português com mais erros do que quando tinham nove anos, isto se falarmos só dos que até fizeram um bom 1º ciclo.
O Nuno até criou um blog, e não fui eu que ensinei, só dei depois umas dicas que até o levaram a um primeiro contacto com html, mas depressa o abandonou por "falta de assunto" e, quanto a descobrir assunto... bem, "santos de casa não fazem milagres" (até porque são vistos como intrusos, os reconhecidos como "autoridades" são os professores nas disciplinas escolares - no mais geral ainda com nada ou pouco de TIC -, alguns amigos um pouco mais velhos noutras áreas e os publicitários das últimas modas/aliciamentos - que não são o msn, este até é um desviante menor do estudo).



Como competir com isto? Que papel cabe à escola?



Mas já saí do assunto do meu post... que mania das adendas!



_________________________
_xiiiiiii... Isabel, que post tão longo!!
_Ora, não faz mal, este foi para guardar como recordação, eu volto qualquer dia a questões implícitas na adenda...

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Pois... mais virada para leitura do que para escrita.

Fechei a última página de A Varanda do Frangipani, de Mia Couto, que li quase de uma assentada.

___________
"Foi então que uma explosão se tremendeou pelo forte, parecia o mundo se fogueirava. Nuvens espessas escureceram o céu. Aos poucos, os fumos se dispersaram. Quando já tudo clareava sucedeu que, daquele depósito sem fundo, se soltaram andorinhas, aos milhares, enchendo o firmamento de súbitas cintilações. As aves relampejavam sobre as nossas cabeças e se dispersaram, voando sobre as colinas azuis do mar. Num instante, o céu ganhava asas e escoava para longe do mundo."

"Era a árvore do frangipani. Dela restava um tosco esqueleto, dedos de carvão abraçando o nada. Tronco, folhas, flores: tudo se vertera em cinzas. (............)
Recordei ensinamentos do pangolim. A árvore era o lugar de milagre. Então, desci do meu corpo, toquei a cinza e ela se converteu em pétala. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu, como sémen da terra. A cada gesto meu o frangipani renascia."

"_Espere, eu vou consigo, meu irmão.
Era Navaia Caetano, o velho-menino. (...)
Segurei a sua mão. Mas então reparei que ele trazia, a tiracostas, o arco de brincar. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. Lá os metais eram interditos. Mas a voz do pangolim me chegou, corrigente:
_Deixe o brinquedo entrar. Este não é um caso de última vez..."

____________
Me perdoe Mia Couto (que, na minha humilde opinião, é um grande, acho que me atrevo a dizer um enorme escritor) por usar excertos* retirados subjectivamente do contexto do último capítulo (e mais ainda do contexto de todo o livro), mas não os uso como marcas desta obra, retiro-os pelo último pensamento que ficou em mim, sempre tão pessoal da parte de cada leitor.
E antes de o pensamento regressar ao quotidiano, despeço-me da árvore perfumada que renasce de monte de cinzas e também das andorinhas que saiem voando de abismo que engoliu armas - quanto ao arco de brincar, há muitos sótãos que guardam brinquedos de infâncias longínquas...
(Mas não me despeço de A Varanda do Frangipani, esse fica comigo ao lado de outros, belos também)
_____
* Excertos: pp 149; 150, 151; 151, 152 (Ed. Caminho, 8ª edição)

___________________________
Outras leituras:
Porque nem se trata de obra literária, nem é temática dentro dos assuntos deste blogue, não deixo aqui o link para uma entrevista com Arno J. Mayer - é já de 2002, encontrei agora -, interessantíssima (a meu ver), que li de um fôlego. Mas deixei o link ali.

Mais virada para a leitura do que para a escrita...

...assim meu cantinho vai andando abandonado. Mas, às vezes eu penso nele como se não fosse um espaço virtual, mas um recanto mesmo onde me viesse sentar debaixo de uma trepadeira para soltar e depois guardar entre as pedras de um murinho uma impressão que me deixou o livro que acabei de fechar, ou a alusão a algum momento particular do dia, ou um pensamento que ou me grita ou me murmura através de alguma forma mais ou menos metafórica que me suscita a pena de um poeta ou o pincel de um artista. Ora... porque não? Um blogue não tem que ficar preso ao título, e os posts não têm que ser todos para eventuais visitantes entenderem sem ficarem a perguntar-se: A que propósito vem esta prosa ou esta imagem?

Memórias da vida de professora...? Vêm-me muitas , sobretudo das aulas, de empreendimentos como directora de turma, de casos, enfim... sobretudo memórias 'deles' - os alunos. Vêm-me ao pensamento muito mais do que vinham enquanto ainda estava no activo (nessa altura era o presente, o dia a dia, as turmas desse ano que ocupavam o pensamento). Mas... vêm e também vem logo uma recusa: "Não me apetece escrevê-las" (as memórias), "não, não quero escrever, é passado". E eu sei que isto não faz muito sentido, porque escrever memórias não tem, não tem mesmo que significar saudosismo, não foi com nenhum sentimento desses que iniciei o blogue e lhe dei o título que tem, e continua a não ser ao mantê-lo.
Mas, não vou perder tempo a deslindar o porquê desse não apetecer ou não querer. Se uma memória de prof me puxar para o teclado, escreverei, e se a seguir as memórias não continuarem a puxar para as teclas, não escreverei, e pronto - é simples.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Hoje deixo outro poeta...

... completaria hoje 84 anos - Eugénio de Andrade.

[Onde me levas...]

Onde me levas rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos e com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante;
que seja nessa face que me perca.


Eugénio de Andrade
_____________________
ADENDA
Eugénio de Andrade é um dos poetas de que gosto tanto que, sabendo que seria hoje o seu aniversário, tinha que deixar um poema seu. Além disso, quando penso que vou deixar o meu cantinho um tanto em pausa, gosto de deixar um poema (ou uma pintura - as obras de arte são poemas). Contudo, desta vez em que também me parece que vou fazer (ou retomar) alguma pausa, deixo o desejo de que o tema do meu post anterior (resumido: o professor generalista para o 2º ciclo) se torne tema de combate a tal visão, inclusivamente na blogosfera)

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Habilitações para a docência - para mim, basta desse assunto!

Perdi a paciência, afinal já estou fora, e para que hei-de preocupar-me e até ficar efervescente com as notícias, aliás ainda muito escassas, que há sobre o assunto? Hoje despeço-me dele, pois de nada serve a preocupação de um simples professor, nem de vários, nem de muitos que o conhecem bem por terem acompanhado no terreno as evoluções do sistema de formação de professores após a Lei de Bases do Sistema Educativo, especialmente no que respeita às formações para a leccionação no 2º Ciclo. Mas também não pensem os colegas do 3º Ciclo e do Secundário que o assunto não lhes diz respeito, ou então não se venham a queixar quando os futuros alunos lhes chegarem às mãos.

Bati na tecla de algumas formações vigentes para o 2º ciclo e, recentemente, alertei para a visão da actual equipa do Ministério da Educação, relativamente à qual, no respeitante ao 2º ciclo, até um grupo de trabalho constituído por responsáveis de várias ESEs esteve contra, apesar de as ESEs serem as instituições que maioritariamente têm a cargo essa formação. (Esse meu alerta, incluindo informação de pareceres, está aqui).

O novo regime de formação para a docência na Educação Pré-Escolar e nos ensinos Básico e Secundário foi aprovado em conselho de ministros em 28 de Dezembro sem que dele fosse dado conhecimento público ou aos sindicatos de professores. Foram ontem divulgados alguns aspectos desse Decreto-Lei, e as posições da FENPROF (que acabo de ler) sobre o que já é conhecido não me indiciam que tenha sido corrigida a visão que mais me preocupava, embora ainda não tenha acesso ao diploma para ler com os meus próprios olhos. Entretanto, não preciso de ler para conhecer, desde a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, quer o facto de nunca terem sido postas em prática algumas disposições dela, quer o modo como foram sendo contornados e mesmo desvirtuados princípios nela inscritos depois de processo árduo para se conseguir uma lei que, pela sua importância, requeria a obtenção de consenso.

A pôr ponto final num assunto com que me preocupei longamente (e disso, já tive quanto baste), deixo apenas e sucintamente uma memória que até devo ter escrito com mais pormenores algures neste cantinho. É a memória de quatro estagiárias que tive numa turma minha de 6º ano, a partir só de finais de Fevereiro desse ano, e tive apenas na qualidade de cooperante, não de orientadora. (Para não cometer injustiças, esclareço que não frequentavam uma ESE, mas um desses institutos privados, igualmente credenciados para a referida formação).
Eram jovens trabalhadoras, empenhadas, entusiastas e que queriam mesmo ser professoras (e boas professoras). Apesar de assoberbadas por outros trabalhos além daquele (pseudo) estágio, arranjavam disponibilidade para todas as horas (muitas) que elas próprias eram as primeiras a pedir, dado que eram críticas quanto à insuficiência da duração da formação em tantas vertentes como as científica, didáctica, pedagógica e não só. Dei-lhes muitas horas para além do que se inseria nas minhas obrigações como cooperante apenas, e dei com gosto porque elas iam tendo consciência das lacunas a nível científico e de dificuldades até elementares que queriam ultrapassar.
Desejo que estejam colocadas e não duvido de que sejam professoras competentes, mas também não tenho dúvidas que terão tido que fazer, para isso, um considerável esforço pessoal adicional à formação recebida. Porque só cabeças tais como as da actual equipa ministerial podem não perceber que não chega uma formação (agora, pelos vistos, ainda mais "generalista") que não dê a preparação científica especializada indispensável para que o professor saiba mais do que ensina, mesmo a nível ainda elementar/inicial, sob pena de não ficar capacitado para, por exemplo, iniciar os alunos no processo progressivo de aquisição/elaboração de conceitos, devido a não ter ele alguns bem elaborados ou sequer minimamente, mas correctamente, adquiridos.

E pronto. Prossigam os ministros da educação com uma política de formação de professores que fique o mais barata possível, com a justificação de que os meninos ficam traumatizados com a passagem do professor único do 1º ciclo para vários professores - justificação de que até se ririam os próprios alunos, pelo menos após a primeira ou segunda semana dessa transição -, prossigam, que eu fico-me com a minha opinião mas não vou insistir mais no assunto.

domingo, janeiro 14, 2007

Para o domingo (e não só), deixo um poeta

[Prévio: "Ainda pior que a convicção do não, é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase! (...) Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu." (Luís Fernando Veríssimo - de um pps que corre pela net)]
________

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro, Quase (13 de Maio de 1913)
________
P.S.: Bom domingo e boa semana!
_________________________________________
ADENDA ("extra")
O meu destaque (extra-educação/ensino): Artigo no Público de hoje, aqui.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Percepções e crenças de pré-adolescentes e adolescentes sobre o Bem e o Mal* - III

Nota prévia
Um depoimento de um participante num conjunto de entrevistas (em que não são feitas perguntas direccionadas para qualquer questão específica que induza algum discorrer não espontâneo), não permite qualquer tipo de generalização. Aliás, os extractos que se seguirão nada acrescentam a causas ou motivos que percebemos para alguns (sublinho "alguns") comportamentos, agressivos e outros, sem precisarmos de depoimentos. Se trago para aqui esses extractos é porque eles têm a particularidade de revelar, da parte de uma menina ainda criança, não só a consciência do efeito da pressão do meio em que vive, mas também indícios de pensamentos de difícil resposta na sua idade, semelhantes a dilemas morais, tratando-se de um caso em que não pode contar com ajuda da família para encontrar as melhores respostas.

Sobre o efeito da pressão social na produção de conformidade a normas ou padrões de grupo**
ou
Dilemas numa menina ainda criança

Cátia tinha 12 anos e vivia num meio, quer social, quer familiar, problemático. Mas, embora não fosse minha aluna, sabia que era uma menina que se revelava habitualmente pacífica, não dando quaisquer problemas de comportamento.

"(...)
Foi cá na escola... Foi com a Vânia. Mas eu tava mesmo a pensar que era mal, porque sim, e isso... Prontos, que eu não devia, porque depois ela ficava pior, e eu também ficava, mas se eu não fosse dar-lhe, ela só andava a provocar, também me chamavam medricas, ou assim.
(...)
Sempre a tratarem-se mal (as pessoas)... Nem todas são assim, não é? A maioria delas são... Não é só no meu bairro.
(...)
Quando vejo crianças ou adultos assim à porrada penso porque é que hão-de fazer isso, não vale a pena, mas muitas das vezes acho que não é assim. As pessoas dizem anda embora, mas como é que é, se eu vou-me embora, as pessoas começam a chamar-me cobarde. Mas ele ou eu pode ficar ferido. Por isso, não sei... Quando eu já for assim um bocadinho adulta... uma pessoa lembrar-se do que se passou, porque uma pessoa não se pode ficar, manter a ouvir, ouvir sem fazer nada. A pessoa também tem que ter as suas responsabilidades, não vai ficar uma parvinha no meio das outras.
(...) Eu tou rodeada de pessoas que mentem, e então eu também já minto. Uma pessoa para se esquivar de levar tareia... de ser maltratada, depois uma pessoa também mente. Mas se uma pessoa sabe que é verdade, não é tar para aí a mentir, a dizer não sei, não sei.
(...)"
_________
* De estudo já referenciado no post I
** Existem, de há muito, estudos sobre o efeito referido, distinguindo, nomeadamente, a conformidade pública e a privada.
_______________
P.S.:
A Cátia tinha um aproveitamento escolar satisfatório, mas, para o final do ano lectivo (no seu 6º ano), começou a faltar bastante. Apesar das diligências da directora de turma, a mãe obrigava-a a faltar à escola porque "precisava dela".
_____________________
Adenda
Agora que já és "assim um bocadinho adulta", como estarás com os teus dilemas, Cátia? Uma flor para ti...


Voltei, mas...

Voltei do fim de semana prolongado de repouso, mas... Em repouso, organizações de tempo que continua desorganizado só acontecem em pensamento (ou em imaginação). Não há mal nisso, planeamento antes de acção, e planeamento faz-se na cabeça, é compatível com repouso. O mal é que, algumas vezes, entre tomar decisões e pô-las em prática vai considerável distância. Por acaso, eu até nunca sofri desse mal a não ser desde há muito pouco tempo, e como não quero dizer-me que a perda de qualidades se deve à idade, arranjo outras justificações (desculpas!) para o facto de já tardar demasiado a organização do meu tempo de acordo com algumas das prioridades que decidi e que, dado não serem propriamente obrigações, vão sendo retardadas por aliciantes ou interesses, sim, mas nada prioritários.

De qualquer modo, voltei, mas... quase certa de que este cantinho vai andar ao contrário: repousará durante a semana e acordará (talvez) ao fim de semana. Até vou colocar uma memória que acabei de escrever mas pus em draft para deixar primeiro estas linhas, mas eu sei que estou a desligar-me deste meu cantinho, um tanto por falta de tempo, outro tanto porque cada vez mais sinto que as minhas memórias... são do século passado (melhor dizendo, por vezes parecem-me de um século remoto de alguma minha encarnação anterior). Mas não é por, em grande parte, serem de há um, dois, ou mais decénios atrás que sinto isso.
A verdadeira, verdadeirinha razão da intenção de memórias ter ficado por meia dúzia de casos é que memórias de professor(a) não se reduzem nem são essencialmente casos pontuais, da Rita, da Cláudia, da Cátia ou de outros. Elas são sobretudo situações mais globais. São ambientes e climas de escola(s); são evoluções e involuções em escolas ou na escola em geral; são métodos de ensino; são fases de trabalho colaborativo, partilha de experiências e dinâmicas de reuniões, e fases de esvaziamento disso pela burocratização e gasto de tempo com escassa utilidade pedagógica, com a consequência de o trabalho se tornar compartimentado ou mesmo individualmente isolado; são dinâmicas despoletadas por alguns e contangiando os outros, e perda das mesmas por cansaço ou mudança de escola desses alguns; são, em suma, o bom, o menos bom e o mau.
Claro que uma pessoa pode ficar-se pelas memórias que são boas recordações. Mas, para isso, eu preciso de apagar a marca de algumas vivências de escola nos anos mais recentes, que também a mim fizeram cansar-me e ir fechando-me na sala de aula. Essa marca, que, ao contrário de ser do século passado, precisamente foi marca por ser da parte final da minha vida profissional, não foi causada pela muito grande maioria dos professores da minha (ex)escola - se fosse, não a referiria, não iria particularizar publicamente uma escola. Mas também não se deveu exclusivamente ao tempo da actual ministra e às suas medidas, pois ela pouco ou nada se ocupou de educação e ensino, as suas principais preocupações/prioridades não são essas nem foi para isso que foi posta no cargo.
Eu acredito que os professores empenhados e dedicados são uma maioria. Quanto à indispensável competência científica, sem a qual não bastam outras competências, que até crescem pela intuição e a experiência mas ficam comprometidas sem a primeira, isso já depende da formação que é institucionalmente dada e das oportunidades de colmatar lacunas e insuficiências existentes em (pelo menos) algumas das formações vigentes, começando pelas oportunidades de serem apercebidas pelos próprios.
Mas também sei que há minorias, às vezes até ínfimas, com uma grande habilidade para conseguirem minar uma escola, pelo menos durante algum tempo. E preciso de me esquecer disso, de me distanciar, até não de tempos antigos, mas sim dos anos mais recentes que, por serem muito próximos do final de todo um percurso profissional, me desmotivam de escrita de memórias. Desmotivam porque algumas realidades que não quererei referir me tornam, pelo menos por enquanto, difícil proceder a tal escrita deixando fora dela essas realidades que não ignoro (nem ninguém ignora) que coexistem com o bom e muito bom, que coexistem com todo aquele corpo docente deste país que foi "segurando" quanto possível o nosso sistema de ensino público e tem vindo, mais recentemente, a conseguir (ou a tentar) impedir que ele bata no fundo, fazendo-o sem suficientes recursos e apoios e, agora, sem sequer estímulo ou reconhecimento.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Fim de semana...



Os aposentados passam a estar sempre em férias. Pois... mas eu ainda não consegui sentir-me em férias, que hei-de fazer contra isso?


Vou fazer um fim de semana de repouso (tenho a vantagem de poder começar à 6ª feira!).


Mas faz frio, é inverno, acho que vou fazer um fim de semana assim...




Bill Stephens. Winter Rest

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Em jeito de balanço

Talvez faça um balanço em Fevereiro, quando este cantinho completar dois anos. Hoje, trata-se mais de uma breve observação ocasionada não por passagem de 2006 para 2007, mas pela tentação de umas experiências "técnicas" que fiz nos últimos dois dias. A tentação veio de dois posts da 3za, este e este.
Para experimentar uma das novidades do novo blogger (os marcadores para busca de posts por temas), lá me decidi a mudar, mas sem me sujeitar a perder o meu template. E isto de usarmos templates disponibilizados por outros sites e, para mais, fazendo-lhes alterações para os adaptar e personalizar, traz alguns problemas devidos a codificações diferentes, não ficando imediato/fácil o uso das novas funcionalidades do blogger. Bem, mas isso podem ler nos posts da 3za que referi.

Ora, eu não estava interessada nos marcadores para catalogar os meus posts, mas sim para confirmar uma coisa que já sabia: Posts de acordo com a minha ideia inicial, ou seja, memórias mesmo do "terreno", mas do terreno em que entram os alunos, memórias mesmo deles e da prática com eles, ficaram quase só na intenção dos poucos meses que antecederam o início das medidas da actual ministra da educação. Assim, só quis procurar esses e pôr marcadores apenas nesses.

Como não me está a apetecer escrever, comento apenas que, dos 438 posts deste cantinho, apenas vi 19 títulos (4%!) que me disseram terem a ver mesmo com as referidas memórias! Talvez haja mais três ou quatro (não ia ter paciência para abrir tantos posts) e decerto que em muitos outros falei de alunos, o desvio da escrita para a política deste ministério não aconteceria se não fosse por causa deles, mas eu refiro-me a memórias directas e concretas, de acordo com a minha principal motivação inicial.
E pronto, fica só esta observação. Como disse, não me apetece comentá-la agora, mas hei-de escrever sobre isto (fica agendado para Fevereiro).

P.S.:
Esse menu à direita com as designações que fui dando aos temas dos tais apenas 19 posts está, por agora, numa caixa de cor preta porque assim me ficou, posto e adaptado o respectivo código, mas clicando e passando o rato lá aparecem os temas a branco. Qualquer dia volto ao template a ver se consigo tornar a caixa mais "estética", mas a culpa não foi das dicas da
3za, que tem a sua bonitinha, mas do Miguel Pinto, que descobre sites de templates com códigos muito diferentes do layout do blogger, e eu deixei-me logo tentar pelas descobertas dele [ó Miguel, se me leres, não fiques com sentimentos de culpa, que eu só estou a agradecer-te ;)]

terça-feira, janeiro 02, 2007

Nota sobre isto do "sonho" e da "esperança"

O meu 1º post do ano fala de sonhos. Outros também já falaram, por palavras minhas ou de poetas que sabem exprimir-se como eu não sei, de sonhos, utopias e esperança. Talvez quem me tenha lido fique admirado por eu esclarecer agora que nunca fui, e continuo a não ser, uma pessoa sonhadora no sentido mais usual do termo. E também não tenho nenhumas ilusões sobre a natureza humana, em que convivem boas e más (ou racionais e irracionais?) tendências, facilmente vencendo as más, sobretudo pela atracção do poder de qualquer tipo.

O post anterior fala em portadores de sonhos, não em sonhos que sonham pessoas em repouso, embora acordadas, pensando em coisas felizes na imaginação para enganarem ou esquecerem a realidade que muito pouco provavelmente lhes permitirá realizá-los. Sonho, para mim, é motor, é o que moveu e move homens e mulheres para a acção, e para a luta (quantos sabendo que não iam ou não vão chegar a usufruir da vitória, quantos arriscando vida ou liberdade, quantos fazendo do seu tempo um grão de contributo pela realização de sonhos da humanidade).

Também esperança não é, para mim, mera crença. Esperança é não desistir enquanto a razão perceber que ainda há argumentos para a não desistência. E a minha razão, felizmente, funciona constantemente com uma perspectiva dialéctica sem a qual eu há muito nada entenderia de evoluções e mudanças, sem a qual me restaria alienar-me para não pensar ou, quem sabe, desistir de ter esperança, e como não sou dada ao conformismo, não encontrar sentido para nada.


Eu gosto muito dos versos de António Gedeão que dizem "Sempre que o homem sonha o mundo pula e avança........", mas porque eles me lembram os homens (homens e mulheres) para quem o sonho é como disse acima: motor, motor, motor!

No conformismo pode haver "sonhadores", mas passivos, sonhando em repouso; no conformismo não há portadores de sonhos (os portadores movem-se) e então o caminho fica todo aberto aos pregoeiros de fatalismos, de irreversibilidades ou do "tarde demais para serem possíveis alternativas".

segunda-feira, janeiro 01, 2007

No 1º dia de novo ano...

...para as minhas filhas e os meus netos, também para os amigos, deixo:

Los portadores de sueños
de Gioconda Belli*

Los portadores de sueños


En todas las profecías
está escrita la destrucción del mundo.

Todas las profecías cuentan
que el hombre creará su propia destrucción.

Pero los siglos y la vida
que siempre se renueva
engendraron también una generación
de amadores y soñadores,
hombres y mujeres que no soñaron
con la destrucción del mundo,
sino con la construcción del mundo
de las mariposas y los ruiseñores.

Desde pequeños venían marcados por el amor.
Detrás de su apariencia cotidiana
Guardaban la ternura y el sol de medianoche.
Las madres los encontraban llorando
por un pájaro muerto
y más tarde también los encontraron a muchos
muertos como pájaros.
Estos seres cohabitaron con mujeres traslúcidas
y las dejaron preñadas de miel y de hijos verdecidos
por un invierno de caricias.
Así fue como proliferaron en el mundo los portadores sueños,
atacados ferozmente por los portadores de profecías
habladoras
de catástrofes.
los llamaron ilusos, románticos, pensadores de
utopías
dijeron que sus palabras eran viejas
y, en efecto, lo eran porque la memoria del paraíso
es antigua
el corazón del hombre.
Los acumuladores de riquezas les temían
lanzaban sus ejércitos contra ellos,
pero los portadores de sueños todas las noches
hacían el amor
y seguía brotando su semilla del vientre de ellas
que no sólo portaban sueños sino que los
multiplicaban
y los hacían correr y hablar.
De esta forma el mundo engendró de nuevo su vida
como también habia engendrado
a los que inventaron la manera
de apagar el sol.

Los portadores de sueños sobrevivieron a los
climas gélidos
pero en los climas cálidos casi parecían brotar por
generación espontánea.
Quizá las palmeras, los cielos azules, las lluvias
torrenciales
Tuvieron algo que ver con esto,
La verdad es que como laboriosas hormiguitas
estos especímenes no dejaban de soñar y de construir
hermosos mundos,
mundos de hermanos, de hombres y mujeres que se
llamaban compañeros,
que se enseñaban unos a otros a leer, se consolaban
en las muertes,
se curaban y cuidaban entre ellos, se querían, se
ayudaban en el
arte de querer y en la defensa de la felicidad.

Eran felices en su mundo de azúcar y de viento
de todas partes venían a impregnarse de su aliento
de sus claras miradas
hacia todas partes salían los que habían conocido
portando sueños
soñando con profecías nuevas
que hablaban de tiempos de mariposas y ruiseñores
y de que el mundo no tendría que terminar en la
hecatombe.
Por el contrario, los científicos diseñarían
puentes, jardines, juguetes sorprendentes
para hacer más gozosa la felicidad del hombre.

Son peligrosos - imprimían las grandes
rotativas
Son peligrosos - decían los presidentes
en sus discursos
Son peligrosos - murmuraban los artífices de la guerra.

Hay que destruirlos - imprimían las grandes
rotativas
Hay que destruirlos - decían los presidentes en sus
discursos
Hay que destruirlos - murmuraban los artífices de la guerra.

Los portadores de sueños conocían su poder
por eso no se extrañaban
también sabían que la vida los había engendrado
para protegerse de la muerte que anuncian las
profecías
y por eso defendían su vida aun con la muerte.
Por eso cultivaban jardines de sueños
y los exportaban con grandes lazos de colores.
Los profetas de la oscuridad se pasaban noches
y días enteros
vigilando los pasajes y los caminos
buscando estos peligrosos cargamentos
que nunca lograban atrapar
porque el que no tiene ojos para soñar
no ve los sueños ni de día, ni de noche.

Y en el mundo se ha desatado un gran tráfico de
sueños
que no pueden detener los traficantes de la muerte;
por doquier hay paquetes con grandes lazos
que sólo esta nueva raza de hombres puede ver
la semilla de estos sueños no se puede detectar
porque va envuelta en rojos corazones
en amplios vestidos de maternidad
donde piesecitos soñadores alborotan los vientres
que los albergan.

Dicen que la tierra después de parirlos
desencadenó un cielo de arcoiris
y sopló de fecundidad las raíces de los árboles.
Nosotros sólo sabemos que los hemos visto
sabemos que la vida los engendró
para protegerse de la muerte que anuncian las
profecías.
_____
*Autora nascida em 1948 na Nicarágua (em Manágua)
_________________

Imagem de algures, na net

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Só um Alerta

Já não se pode estar distraído com as festividades! Como queria manter o meu post anterior como post de topo até à passagem para 2007, deixo só o alerta aqui. (Se alguém quiser ler o alerta mais desenvolvido que já tinha deixado em Novembro, encontra-o aqui)

terça-feira, dezembro 26, 2006

Do velho para o novo ano...

Receita de ano novo
(Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


_______________________________




______________________________
Nota:
Andarei ausente. Até... 2007! Entrem todos no novo ano... ia escrever com o pé direito, como se costuma dizer, mas não... Que entrem bem! E com os dois pés ;)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Adenda

[Neste ano, quebrei a tradição. A árvore cá em casa é da cor preferida de uma minha princezinha. Mas, para a quebra da tradição não dar nas vistas, tirei a foto às escuras ;) ]


Contrastes...

Poderia comentar esta quadra do Natal - o verso e o reverso, tradições e fachadas, olhos de criança que brilham e outros que olham apenas, enfim... contrastes. Mas não me apetece escrever. Escrevinhar, só lá para... depois.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Percepções e crenças de pré-adolescentes e adolescentes sobre o Bem e o Mal. II

II - Como proporciona (ou pode proporcionar) a escola referências pró-sociais aos alunos que não as têm no meio problemático em que vivem?

De memória (o que tenho bem) e sem preocupações com terminologias ou com ir buscar as precisões de resultados percentuais, destacarei, de forma sucinta, apenas constatações feitas na análise horizontal dos depoimentos obtidos nas duas investigações referidas no post anterior (e decorrentes só dos fornecidos por pré-adolescentes e adolescentes de meios sociomoralmente problemáticos), circunscritas a dois dos eixos de análise considerados: a) Tipo de situações/comportamentos evocados (sempre espontaneamente, claro) quanto à associação quer ao mal, quer ao bem, a que, por comodidade de escrita, designarei respectivamente por situações negativas e situações positivas; b) Factores que, no entender dos inquiridos, contribuiram para a formação do seu pensamento sobre o bem e o mal.

1. Foi muito predominante a evocação de situações negativas, descritas concretamente pelos informantes do meio referido.
2. Sendo o tema proposto "O bem e o mal", era necessário lembrar aos participantes do referido meio que o tema não era só "o mal", pedindo-lhes que falassem também do que consideravam "o bem". A facilidade de discurso e de exemplificações tida até aí passava então a nítida dificuldade, em vários casos, sendo sobretudo referida a ajuda e a inter-ajuda, mas já de forma quase sempre abstracta. (Lembremos que os inquiridos aqui mencionados são apenas os de meio problemático e que tendiam a referir, e mesmo a descrever, o que observavam directamente no seu quotidiano)
3. Previsto para um segundo momento das entrevistas, depois de terem falado livremente sobre o tema proposto, o pedido de referirem o que achavam que contribuia para o seu pensar sobre o bem e o mal, destaco:
a) O factor indicado com maior e grande frequência foi a observação directa e o que viam na televisão ("às vezes as notícias são só crimes e desgraças" foi um dito de um dos meninos).
b) Também foi referida com elevada frequência a educação familiar (mas com reduzida frequência no subgrupo em que se aliava ao meio problemático a família não acompanhante, o que só poude evidenciar-se no primeiro estudo, dado que no segundo que agora li não puderam ser identificadas previamente características do ambiente familiar, devido ao maior tamanho da amostra).
c) A escola ou professores foram raramente referidos (no âmbito do que disseram concorrer para o seu pensamento sobre o bem e o mal, embora, antes, ao evocarem situações negativas, a escola tivesse sido mencionada por alguns relativamente à agressividade nos recreios)

Pretendi salientar, neste post, apenas o referido acima nos pontos 1 a 3, e, deste último, notar a raridade de referência ao papel da escola ou de professores (ao que acrescento que, no meu estudo, que abrangeu também um grupo de pré-adolescentes de meio claramente oposto ao que se está a considerar, o papel da escola também foi, nesse grupo, raramente referido ).
Entretanto, ao que, de facto, quero chegar, é à pergunta que coloquei em subtítulo.

No final da semana passada decerto que muitas escolas tiveram actividades comemorativas do Natal. Também, ao longo do ano e, inclusive, com vista a actividades de final de período, serão promovidas diversas iniciativas para os alunos. Várias serão concebidas e preparadas durante algum tempo com a participação deles, sendo esses envolvimentos de alunos oportunidades formativas, quer pela responsabilização e sentido de contributo para a comunidade escolar, quer pelo desenvolvimento da capacidade de iniciativa e da criatividade, etc. Mas... serão todos os alunos, ou todos os alunos de determinada turma, igualmente envolvidos?
É natural que haja, eventualmente, receio de envolver na preparação de iniciativas aqueles alunos considerados problemáticos e de confiar na sua responsabilização. É natural que, para se confiar em que corresponderão, seja necessário ao(s) professor(es) terem já feito a experiência com sucesso. Mas, é minha grande convicção (baseada na experiência) de que esse receio é um erro em, pelo menos, bastantes desses casos. Estarão desmotivados para o estudo e o próprio insucesso contraria esforços para os motivar. Mas eles têm aptidões não reveladas, e muitos correspondem a propostas de participação em acções que envolvam, por exemplo, ajuda, ou contributo para actividades festivas ou outras que promovem a socialização, ultrapassando até as expectativas dos professores. No entanto, com uma condição: que sintam que se confia nos seus contributos e na sua responsabilização por eles (ao que, diga-se, estarão pouco habituados, além de, mesmo quando é autêntica a confiança que o professor lhes manifesta, tenderem eles a desconfiar disso).
Deixo, a finalizar, os links para uma memória escrita neste cantinho, pois é o que tenho à mão para exemplificar/testemunhar o que acabo de dizer.

Aos "Engenhocas" - Uma memória (I)
«(...)Tratava-se de uma iniciativa com um grupo de alunos que seleccionáramos como os mais "cadastrados" da escola (...)»
Aos "Engenhocas" - Uma memória (II)
«O investimento (e desafio) na preparação das actividades do final do 1º Período foi na colocação nas mãos dos Engenhocas todas as tarefas de organização das mesmas. (...)»

Percepções e crenças de pré-adolescentes e adolescentes sobre o Bem e o Mal. I - Introdução

Li, há poucos dias, um trabalho realizado no âmbito de uma tese de mestrado(1). Esse trabalho chegou-me às mãos devido a que a respectiva investigação foi assumida como replicação parcelar daquela que eu própria fizera, publicada pelo (extinto) IIE em 2001(2). Ao trazer-me à memória os depoimentos dos "meus" informantes, que durante tanto tempo andaram no meu pensamento, e ao constatar que o estudo agora feito revela as mesmas tendências, em depoimentos igualmente obtidos por entrevistas abertas, realizadas mediante técnicas de entrevista "em profundidade", não dirigida, decidi-me a ultrapassar a grande relutância em citar um modesto trabalho meu.
Numa época em que as escolas se debatem com a integração de crianças e adolescentes cujos comportamentos são quase inevitáveis consequências dos que observam (e sentem na pele) no dia a dia do meio em que vivem, e não cabendo num blog explanar investigações existentes mais autorizadas mas de difícil acesso para quem não seja professor do ensino superior nem tenha cartão de estudante do mesmo a facultar bases de dados para pesquisa dessas investigações, acabei por pensar que não devo deixar de, ao menos, divulgar alguns dados que eu mesma tenho à mão porque os recolhi directamente e agora os vejo também recolhidos e a apontarem para as mesmas tendências no âmbito do pensamento moral. Para mais, a amostra, na investigação que acabei de ler, circunscrita a crianças e pré-adolescentes vivendo num meio caracterizado como sociomoralmente problemático, é maior do que a minha - embora não permitindo análise comparativa com a de depoimentos de alunos vivendo em meio de características opostas, o que, no meu caso, foi incluído.
Assim, decidi-me a abordar o tema, talvez não só no próximo post, mas também em mais um ou dois a colocar qualquer dia, esses não meus, mas escritos com palavras "deles" - desses meninos e meninas na pré-adolescência ou no início da adolescência que, perante o tema inesperado O Bem e o Mal, começavam, alguns, a falar com dificuldade para, a pouco e pouco, irem falando... falando...
_____
(1) Helena C. C. Costa Gonçalves (2006). Subúrbios da Utopia. Percepções e crenças sobre o bem e o mal de crianças e adolescentes de um bairro sociomoralmente degradado. Tese de mestrado, Universidade Nova de Lisboa.
(2) Campeão, I. (2001). Cognição Sociomoral: percepções e crenças sobre o Bem e o Mal de pré-adolescentes com diferentes espaços de vida. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional
________
Adenda:
Não é publicidade, pois, extinto o IIE, deve ser como procurar agulha em palheiro encontrar o livrinho para venda, além de que não recebi um tostão das vendas, o direito foi de receber um monte de exemplares para a família e alguns amigos guardarem na prateleira sem abrir, que este tipo de trabalho é de leitura superchata excepto para quem ande a estudar o respectivo assunto. Mas, já que venci o constrangimento de o referir, alguém eventualmente interessado em conhecer o resumo pode encontrá-lo aqui.

Para o meu neto


(...)
Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem

(...)
Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte

(...)

(Excertos de Carta aos meus netos, de José Mário Branco)

Parabéns, Nuno, pelos teus 13 anos. Parabéns meu querido e único rapazinho.

domingo, dezembro 17, 2006

Fernando Lopes Graça completaria hoje 100 anos




Sobre a Música, disse:

« Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião (...) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia»

Da sua vasta e valiosa obra musical (a que se acrescenta também a obra literária), ficaram popularizadas as Canções Heróicas, musicadas sobre poemas de autores portugueses e cantadas não só pelo Coro da Academia de Amadores de Música, mas também pelo povo (primeiro em surdina – apesar da censura, a voz dos resistentes não deixou de as ir ‘passando’).

Creio que, há uns tempos atrás, a minha escolha em homenagem a Lopes Graça seria outra, entre as suas menos divulgadas obras musicais. Mas, o tempo de hoje impele-me, afinal, a deixar duas dessas Heróicas.

(Desligar música de fundo à direita)


Acordai
(Letra de José Gomes Ferreira)

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

___

Livre
(Letra de Carlos de Oliveira)

Solo

Não há machado que corte
a raiz ao pensamento

Coro
não há morte para o vento
não há morte.

Solo
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida,

Coro
sem razão seria a vida,
sem razão.

Solo
Nada apaga a luz que vive
num amor, num pensamento,

Coro
porque é livre como o vento,
porque é livre.


______
Adenda:

E, lembrando ainda Lopes Graça...
Àqueles que se deram e continuam a dar-se por uma escola pública democrática e estão vivendo momentos de desalento (também a todos, em geral, que pugnam por uma democracia que não se torne mero luxo dos ricos ou poderosos)...

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada
...
(ao som desta canção)

sexta-feira, dezembro 15, 2006

...

Título? Sei lá... talvez Uma imagem para antes de adormecer. Bons sonhos! ;)

Estella Canziani. The piper of dreams

terça-feira, dezembro 12, 2006

Retendo o restinho de outono...

(Apesar de já ter saído com um cachecol à volta do pescoço)

Apesar do outono
os ouriços das castanhas permanecem verdes
muito tempo ainda

Matsuo Bashô



Paul Cézanne (1871).
L'Avenue des Châtaigniers au Jas de Bouffan






Paul Cézanne (1878-1880).
Bassin et Passage entre les Châtaigniers au Jas de Bouffan


______________
Quietude —
O barulho do pássaro
Pisando folhas secas.
Ryûshi
_______________________

________________________________________________________________________________________
Adenda à margem:
Artigo no Público de hoje: Educação: uma oportunidade perdida (de Ana Gonçalves, em Cartas ao Director).
Aqui para assinantes online, ou aqui para não assinantes.

"Crescer..."

(Passei pelo blogue da 3za a esta hora tardia e este post dela ficou-me... não sei se diga na mente, se no coração. Apesar do atraso, aqui deixo a sugestão de leitura )

"Crescer, problemas, avaliação, lágrimas, crescer..."


domingo, dezembro 10, 2006

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Eu e a blogosfera

Tudo tem as suas fases e eu também tenho as minhas. Dependendo ou não de fases de vida, os interesses a que chamo interesses de tempos livres vão-se aliando a estímulos e motivações que me proporcionem.
Este cantinho é para mim, primordialmente, como um baú onde vou pondo e guardando reflexões pessoais, e também pensamentos decorrentes de estados de espírito de momento, estes geralmente expressos para mim mesma algo metaforicamente em poemas ou imagens. E agora até já não me virá a interrogação que uma ou outra vez me aconteceu - Vou clicar no delete blog? -, pois vi que foi ultrapassada uma limitação que via nos blogs e que era a de só haver duas alternativas: manterem-se públicos ou apagamento irreversível (ao contrário das páginas em que basta retirar do servidor o ficheiro inicial para "desaparecerem" e voltar a transferi-lo, igual ou renovado, para de novo ficarem acessíveis). (Não vou fazer a actualização em que uma das novidades é poder tornar o blog invisível, mas gosto de saber que já há essa possibilidade)

Voltando ao que este cantinho é para mim e, por arrastamento, a blogosfera em si, devo dizer que a blogosfera "docente" me proporcionou uma fase em que debates (confluindo mais para as caixas de comentários de um ou outro blog) foram estimulantes e até me fizeram pôr aqui imagens de novelos e fios emaranhados, pois as questões são complexas, embora as partilhas de ideias e as controvérsias façam sempre o pensamento avançar).

(Da Net - origem perdida)


Entretanto, as disponibilidades vão mudando, seja por diminuirem, seja por novas motivações, seja por outro motivo qualquer, e sinto que esses debates (debates mesmo) foram-se tornando pouco participados nos próprios blogs que mais os dinamizavam - dos que conheço, dos que me são familiares, claro (e desses, mantenho à cabeça dos meus links o meu destaque pessoal).



Mas, as percepções são subjectivas, e talvez seja simplesmente eu própria que ando a sentir uma certa atracção por uma concha em que, às vezes, sabe bem estar. Ou, mais simplesmente ainda, talvez eu ande sem tempo, pois acontece o insólito de, ao deixar de trabalhar, os dias andarem a parecer mais curtos no meio do que me ocupa (incluindo o que me ocupa o pensamento), acrescendo o que ainda aguarda lugar nas horas de nova organização dos meus tempos quotidianos.

À margem do conteúdo deste blog - Notícias (da justiça) do mundo

Já sabíamos, não é nenhuma surpresa, mas este estudo acaba de ser publicado - em 5 do corrente mês. Li a referência a ele no Público e como resumos de estudos e respectivos dados estatísticos apresentados nos nossos jornais me fazem preferir procurar o original, aqui fica o link.
_______________
Adenda

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Intervalo para um poema

O RELÓGIO
(adereço conceptual para usar no pulso)

Pára-me um tempo por dentro
Passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contratempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.
Ary dos Santos. Adereços, Endereços (1965)

terça-feira, dezembro 05, 2006

Sobre as acções para a Matemática

A convite do grupo de trabalho da APM para o 3º Ciclo, participei ontem numa reunião. Os objectivos desta foram não só discutir os planos implementados nas escolas (questões gerais, dado que cada escola terá o seu plano particular entre a diversidade de situações, condições, perspectivas e diagnósticos feitos), mas também escolher os temas a incidir no plano de trabalho do referido grupo daquela associação.
Não venho (nem me compete) relatar a reunião. Menciono-a porque, a propósito da acção sobre a disciplina de Matemática, a ocupar neste momento um lugar central no combate ao défice de competências dos alunos portugueses, mais uma vez me vêm à mente dois tipos de questões.

Desses dois tipos de questões, o primeiro relaciona-se com dificuldades que de facto os nossos alunos revelam na resolução de problemas. Salientam-se-me quer a dificuldade de mobilização de conhecimentos, que até adquiriram, quando necessitam de os seleccionar para resolverem problemas fora do contexto/momento em que foram trabalhados (o que não deixa de ter a ver com o conhecido "problema da transferência"), quer o facto, por vezes aflitivo, de não apreenderem ou de não reterem toda a informação contida num enunciado que não seja bastante curto. São dificuldades que relembrei ontem na reunião, mas que são sobejamente conhecidas pelos professores.
No entanto, as questões da apreensão e retenção de informação escrita não devem, a meu ver, ser encaradas de forma simplista (dizendo-se, por exemplo, que os alunos "são uns cabeças no ar" - pelo menos em situação de testes estão preocupados em concentrar-se o mais possível).
Não cabe numas poucas linhas de um post tentar analisar as causas da dificuldade na leitura, embora testemunhos/considerações que ouvi de alunos meus pudessem ajudar um pouquinho a perceber o que contribui para uma aparente falta de atenção. No entanto, refiro mais uma vez (já o fiz algures neste cantinho) que me parece necessário estudar o que eventualmente se pode estar a passar, a nível cognitivo, com a atenção perante informação escrita. Não só é bastante geral a falta de hábitos de leitura, como a informação é hoje predominantemente captada pelas crianças e adolescentes através do audio-visual (fora do contexto curricular), o que me tem feito perguntar que efeitos isso terá.
Entretanto, trata-se de dificuldades que, como já disse, são bem conhecidas pelos professores, pelo que, neste esforço que se está fazendo sobre a disciplina de Matemática, estarão decerto a ser pensadas estratégias mais sistemáticas para ultrapassar ou atenuar essas dificuldades. Também parece ser, finalmente, consensual que parte das dificuldades na resolução de problemas em matemática tem a ver com dificuldades na leitura e interpretação de enunciados - tem a ver, portanto, com competências no âmbito da disciplina de Português -, havendo mesmo a directriz de ser contemplado nos planos para a matemática o trabalho conjunto com os professores daquela disciplina.

Assim, estas considerações nem viriam hoje para aqui se eu não estivesse sob o efeito de ter estado ontem a discutir acções para a Matemática. O que me parece que importa, neste momento, é aguardar pela avaliação das medidas que estão a ser implementadas nas escolas pelos professores de Matemática - mas, (nota importante) que para essa avaliação seja dada voz principalmente aos respectivos professores, e não a comentadores de números estatísticos fornecidos por apenas um exame, no final do ano lectivo.

Entretanto, outro tipo de considerações me ocorrem. Matemática e Português, português e matemática, matemática e português... é o que se ouve. E as outras disciplinas? Porque não se fala também no reforço do concurso delas para o desenvolvimento de competências de interpretação, relacionação, raciocínio indutivo e raciocínio dedutivo? Porque não se fala, até, no seu papel sobre o chamado problema da transferência que acima referi, sobretudo quando algumas disciplinas lidam com frequência com conhecimentos de matemática?
E, a finalizar, já que este post surge a propósito de uma reunião no âmbito da Associação de professores de Matemática, pergunto também (sem nenhuma insinuação implícita de resposta, pois não conheço a actividade das outras associações profissionais de professores), pergunto também, dizia, se as outras associações estão a assumir o seu papel ou contributo na perspectiva de que colmatar os défices de competências dos nossos alunos diz respeito a todas as disciplinas, apesar de o ME se mostrar predominantemente preocupado com as lacunas em matemática e com as responsabilidades dos professores desta disciplina nessas lacunas que nem sequer dizem sempre respeito só a ela, ou sequer, nalguns aspectos, essencialmente a ela.
_____

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Adenda à adenda: Eles...

Com saudade, destes e dos outros - tantos! - a que não calharam as minhas raras lembranças de andar com a máquina fotográfica.

Adenda: Um complemento que se sobrepõe a qualquer política imposta em nome da educação

O testemunho da Tit, AQUI (e também deixado em comentário ao meu post anterior) é, decerto, semelhante aos que dariam muitos e muitos professores e é, portanto, um complemento fundamental (e não, a meu ver, "um tom dissonante") da visão que, no meu escrito anterior focando algumas consequências (também) reais da actual política educativa, nestas incidiu.
Porque nenhuma medida ministerial vence o que sentem os professores que sempre amaram a sua profissão por nela trabalharem com crianças e adolescentes - o que sentem quando os têm diante de si, na sala de aula e nas actividades em que se envolvem com eles. Os alunos são a razão da profissão de professor, e isso tem uma força que não se abate - ainda que, por vezes, fique debilitada, o olhar daquelas crianças e daqueles adolescentes (mesmo o(s) daqueles que são difíceis - mas são crianças, menos ou mais crescidas) permanece um tónico de grande poder fortificador.

Obrigada, Tit, pelo importante complemento/contributo.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Discutindo comigo mesma

Cá estou eu outra vez a olhar, indecisa, para o título deste cantinho!
Quanto menos virada ando para escrever memórias, mais memórias me vêm à cabeça. Memórias desactualizadas?...

Dias que se alongam —
Cada vez mais distantes
Os tempos de outrora!
Buson

_____
Mas os tempos não estão distantes. E eu até tenho dois netos na escola. E os versos de Drummond têm-me batido na cabeça...

stop
a vida parou
ou foi o automóvel?

Carlos Drummond de Andrade

_____
Na verdade, eu suspeito que algo parou nas escolas 2,3 (ou em parte delas). As vozes não foram, há manifestações, há greves, até os alunos já se manifestam, e creio que essas vozes não se deixarão amordaçar. Mas algo que não será visível a olho nu (a actividade quotidiana continua), algo que deixou de vibrar. Como se fossem silêncios emanados de vazios - vazios gerados por trabalho manietado pelas burocracias, por horas desperdiçadas em sentimentos de inutilidade, por dedicações desvalorizadas e espezinhadas, por orientações cumpridas sem convicção, por objectivos distorcidos a perseguir por imposição.
Vir-me-à, afinal, essa intuição de que algo se esvaziou e há silêncios, imperceptíveis pela sobreposição das vozes, da agitação e do trabalho que continua, simplesmente do vácuo dos bons resultados ao fim de ano e meio de reformas ou medidas na educação-ensino decididas sem a participação dos educadores-ensinantes? Ao fim de ano e meio... parece que começaram ontem e, ao mesmo tempo, há decénio e meio!

o jornaleiro espantado
que eu queira comprar
o jornal de ontem

André Duhaime

______

Marla Friedman, Children waiting

(Eu sei que não é nova esta imagem neste cantinho)

segunda-feira, novembro 27, 2006

Talvez esteja na altura de mudar de agulha

1. Em jeito de introdução - Um encontro que me deixou a pensar

Encontrei uma colega da minha ex-escola. Eu estava atrasada, por isso com pressa, só deu para breve troca de palavras. Nesta, contou a minha colega: "Muito trabalho, muito trabalho". E acrescentou: "Estamos a fazer o melhor que podemos".
É uma professora de reconhecida competência na escola, e lembro-me de iniciativas, na disciplina de Português, que levava a cabo com os alunos com uma boa adesão destes e revelando-se motivadoras. O tempo não deu para prolongar o diálogo de modo a eu poder descodificar a expressão e tom de voz com que disse as palavras que citei, mas fiquei a perguntar-me como avaliaria esse "muito trabalho" (ou parte dele) em termos de reflexos positivos nas aprendizagens dos seus alunos e na diminuição do insucesso escolar, e também à luz da autonomia e criatividade própria que tive oportunidade de observar enquanto fomos colegas de escola.
Mas, obviamente que não é um caso individual que pretendo trazer para aqui, nem o caso particular da minha ex-escola. Penso, sim, que estarão a ser comuns a pelo menos boa parte das escolas do ensino básico percepções dos professores quanto à eficácia de algumas das medidas do ME, por este justificadas como as necessárias à diminuição do insucesso escolar (por exemplo - mas não só -, os planos de acção para a Matemática, submetidos à aprovação desse ministério - aprovação definitiva ainda pendente neste momento, em grande número de casos, de reformulações pedidas pelo mesmo). Assim...

2. Passando da introdução à entrada no título deste post

O novo ECD acaba de ser aprovado - é um facto consumado. Não necessariamente irremediável ou irreversível, a luta dos professores pela revogação/alteração dos artigos que suscitam legítimas e lúcidas contestações de fundo continuará, mas a correcção dos princípios que o ME manteve intransigentemente não será feita no imediato e talvez haja que esperar por consequências visíveis. Por isso eu digo, em título, que talvez esteja na altura de mudar de agulhas.
É verdade que ainda é cedo para avaliar resultados e consequências de outras medidas do ME que referi na minha introdução, mas os professores já têm percepções sobre tal. E esses resultados ou consequências, positivos e/ou negativos, também concorrerão para a avaliação da política da actual equipa do ME.
Respeito, obviamente, a identidade de cada blog dedicado à educação-ensino e os interesses temáticos dos respectivos autores, pelo que creio que pelo menos os que melhor me conhecem não tomarão como mais do que simples opinião pessoal (e um pouco de desafio - porque não?) que eu diga que talvez seja agora o tempo de mudar de agulhas na blogosfera 'docente', retomando debates que já foram centrados directamente na educação-ensino, centrados, em suma, nos alunos e no trabalho com eles e para eles.
E não me alongo mais. Termino fazendo uma referência a uma iniciativa recente do blog O Cartel, a qual me parece ser um exemplo de criação de um espaço de debate que poderia contemplar o que, de algum modo, sugeri. Trata-se de um espaço-escola - O Cartel nas Escolas -, proposto como espaço não só de intercâmbio de projectos entre escolas, mas também de troca de ideias sobre o que nelas se está fazendo (se está fazendo, e também avaliando o papel de certas medidas determinadas do exterior, bem como de burocracias aliadas a algumas, se os colegas de O Cartel me permitem que sugira este acrescento). Mas leiam-se aqui os objectivos propostos para esse espaço.

domingo, novembro 26, 2006

Evocação

De Mário Cesariny, um poema*...

Ai dele que tanto lutou e afinal
está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.

Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)

Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.

Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batengo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.

Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.

É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.

Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.

Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.

Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?

Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos

Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.

Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sócio? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!
Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.

Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.

O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard


________
* Rua do Ouro