segunda-feira, março 27, 2006

"Blogue em intermitência" ??


Está a parecer-me que a situação fica melhor definida assim...
;)

Mais um "A fazer" para a lista dos "A adiar"

Várias questões e alguns casos individuais me ocorrem colocar ou contar quando corrijo testes de Matemática, especialmente do 9º ano - já se trata dos 14-15 anos e, também, do momento de uma primeira decisão, mesmo que ainda não precisa, sobre o futuro profissional. Não questões ou casos sobre o já sobejamente comentado (e, quiçá, de forma algo parcial, que aponta causas, mas não todas) à volta de facilitismos, de falta de trabalho ou esforço, de indisciplina e desatenção que tornam as aulas pouco ou nada produtivas para os respectivos alunos. São outras as questões que também ficam a pairar na minha mente, relativas a dificuldades, erros e respostas em branco.
Dificuldades, erros e respostas em branco sempre houve, insucesso também. Mas, se é verdade que algo parece diferente nas recentes gerações de alunos, há outra coisa que não tem nenhum "parece" porque é verdade mesmo: algumas características comuns a muitos alunos não tornam nenhum realmente representativo de outros. Cada criança, pré-adolescente ou adolescente não é igual a mais nenhum, cada um é único.
Espero que a minha memória guarde essas questões e esses casos que, mais uma vez, ao corrigir testes de Matemática, ou me suscitam reflexões sobre défice nas competências, ou me mostram exemplos de uma relação com esta disciplina que faz negativas em testes (decorrentes de reais difuculdades) irem progressivamente subindo, ao longo de um ciclo, até ao primeiro Bom a ultrapassar os habituais de outros que, no mesmo teste, até escorregaram pela escada mal se segurando no degrau abaixo.

P.S. A minha lista das "coisas adiadas" não é bem a mesma das "coisas a adiar". As adiadas... vão sendo adiadas devido a falta de tempo ou a outras prioridades; as a adiar... bem, essas precisam de análise, ponderação e organização, precisam, pois, de tempo de férias das tarefas e reflexões quotidianas, precisam, afinal, de esperar por momento mais calmo, menos confuso e menos propício a escritos impulsivos do que o corrente ano lectivo, para que este cantinho possa retomar o seu rumo inicial de memórias de prof.
(Entretanto, o cantinho vai continuando a dar sinais de vida... "intermitentes")

sábado, março 25, 2006

"Desintermitência" 1

Nota: O título é da autoria da Tit, no comentário que me deixou na entrada abaixo ;)

Quando me levantar, o sábado vai ser para ver testes e reflectir nas avaliações. Mas os efeitos de um jantar íntimo, só a três (nada de casa, num restaurante, pois então!) hão-de perdurar enquanto alguns testes (alguns só??) me derem a tentação daqueles maus pensamentos vociferantes... Pois se o jantar não deixou de ser azul e cor de rosa, apesar de um dos meus convidados me ter contado que teve um desastre em Francês (um teste calamitoso)!




Adenda:

Bem, aquele meu nono que ora me anima um bocadinho, ora me faz quase entrar em desespero, pediu-me tanto que só fizesse o teste 2ª feira... ainda tenho o domingo para me almofadar a fim de dar uma voltinha pelas mesas a ver o andamento dos testes sem ficar à beira de um ataque de nervos.

Quanto às pautas provisórias, a preencher ainda com cinco dias de aulas à frente... comigo não contem. Quando os putos estão cheios de testes, e ainda precisam de umas (tentativas de) recuperações, e os meus ficam para o fim, sou indisciplinada, pois, por princípio, não escrevo níveis em lado nenhum antes de os discutir com eles - pelo menos, quero que os sintam justos primeiro, além de que não é um teste que define a avaliação (nem até os três que fiz no Período - escandalize-se quem quiser, inclusive a Milu, que classifica os alunos por um exame).

P.S.: A propósito... por acaso, voltei a encontrar o H. há dias, no ano passado dera-lhe nível quatro (tinha cincos a quase tudo, era muito trabalhador, mas ainda precisava de "rodar", eu sabia-o e ele também), ficou envergonhadíssimo porque não se saíu bem no exame (_Setôra, a nota já não contava, fui nessa onda, concentrei-me pouco, afinal a prova era fácil, que vergonha, todos a falarem de nós! - foi o que me disse na altura), mas no 10º teve 16 no 1º Período, embora não estivesse contente: "Vou baixar, ainda não sei se para 15 se para 14 (...) mas volto a levantar!".

xiiiiiiii... a "desintermitência" tinha que sair comprida, por isto é que quero evitar escrever por agora, ia só deixar o jantar azul e rosa como pensamento antes de dormir e... os dedos ficam logo com corda!

quarta-feira, março 22, 2006

Blogue em intermitência

Eu andava a querer repensar os conteúdos deste cantinho e a própria razão dele, mas não há dúvida de que não estou no momento adequado para isso - nem sei se vou ter tempo para escrever "mais do mesmo", quanto mais para pensar em novos rumos de escrita!!
Os afazeres profissionais são os do costume, mas os outros é que vão estar acrescidos durante um tempinho. Alguns até são domésticos (costumo reduzi-los ao mínimo, excepto em circunstâncias especiais, temporárias, como a que se avizinha), mas outros têm a ver quer com coisas pendentes, quer com as que têm que começar a sair da lista das adiadas.
Nas pendentes, estão as que ando a precisar de procurar ou programar (ou inventar), pois uma avó tem um papel importante, e eu quero tê-lo, e a minha casa não tem um sótão, nem arcas misteriosas, como tinham, respectivamente, as casas das minhas avós. Nas adiadas, está, por exemplo, a transposição para a net, de uma forma mais cuidada, do Lógica para todos da minha sala de aula.
E isto de uma página na net traz-me logo a perspectiva de outra tarefa que não vou recomeçar agora, mas que já retirei das que tinha colocado na categoria "acabou, é tempo de me reformar disto".
A tal página, que iniciei há um ano e nunca mais peguei, talvez possa prosseguir sem mais (para as duas antigas, de Mat para alunos, que ainda andam lá pela web, nem quero olhar - quem aguenta páginas que, no ritmo acelerado de novas técnicas, ao fim de três ou quatro anos já parecem de outra era?). O que não dá para prosseguir sem mais é outra coisa que destaco a seguir.

O recuo na decisão de me reformar de aprendizagens "técnicas" feitas todas quase sózinha desde que tive o primeiro computador, só com umas dicas de vez em quando de amigos, ou seja, de me reformar de tentativas, experiências, pesquisas durante horas e horas quando umas curtas sessões rapidamente dariam o "pontapé de saída" poupando grande parte dessas horas todas, esse recuo, dizia, deve-se a que as ditas sessões não estão à mão e... não me importo nada que o neto já me ensine umas coisas, o que não quero é trair a incumbência que recebi ainda ele não teria quatro anos de me encarregar da sua "formação informática" - não quero perder oportunidades de o interessar por outras que o façam descobrir no pc bem mais do que entretenimento e pesquisa de alguma informação. [Será que os computadores nas escolas já foram percebidos como instrumentos estimulantes da criatividade e propícios a que se "solte" a que alguns alunos, ou muitos, até têm escondida em si sem dela se aperceberem? Sem dela se aperceberem eles e professores, porque há alunos que já entram nas aulas com uma prévia recusa delas] Perder essas oportunidades que, com jeitinho, até fazemos surgir, perdê-las porque, mesmo com 13 ou 14 anos, eles já sabem dizer que "agora já se fazem coisas mais giras"... ná, a avó não quer passar à categoria de retrógada!!! (mesmo que também tenha que alinhar de vez em quando em maluquices horríveis dos entretenimentos deles, para se mostrar "actualizada")

Estar este cantinho em intermitência não quer dizer que eu prescinda das voltinhas por outros cantinhos. Neste, é que não sei se é de dizer até já, ou até para a semana, ou até conseguir pôr organização no meu tempo (e na minha cabeça?).
O melhor é não dizer. Aliás, também preciso deste cantinho para quando me apetece falar comigo por intermédio de um poema que me responda, ou calar-me no silêncio em que, com seus pincéis, uma mão me deixou sons.

terça-feira, março 21, 2006

segunda-feira, março 20, 2006

Não me apetece escrever

Tantas memórias... mas para quê? Já não sei bem se pareceriam inventadas, turmas inventadas, alunos inventados! Mas ainda tenho alunos como os das melhores memórias (antigas e recentes, e não estou só a falar de alunos dos níveis 5 ou 4), não me esqueço de os ajudar a voar - de qualquer modo, voarão sozinhos, ou caminharão sozinhos com pés firmes. No entanto, tenho demasiados a ter primeiro que convencer a experimentarem pôr umas asas, e depois, a arranjar para uns cola mais resistente para que elas não caiam, e a tentar que outros as reponham quando as perdem no caminho para casa, ou quando elas caiem nos encontrões, em casa, à TV e à Playstation, ou quando, outros ainda, em casa ou na barraca ou na rua do bairro levaram eles, cedo, encontrões - estes, raros a chegarem-me à sala de aula de um 3º Ciclo porque os encontrões os deixaram pelo caminho, os deixaram lá onde anda tudo aos encontrões.

Uns levarão mais tempo, alguns muito tempo, mas confio que, mesmo que não aprendam a voar, mesmo que só aprendam a caminhar com os pés, todos acabem por aprender a Ser.
______
Adenda:
"Confio"... confiar quererá dizer desejar?
Mas acordem os que dormem, pensem neles e ajudem-nos! Voltem a dar-lhes valores e mostrem-lhes que vale a pena!

sábado, março 18, 2006

Adenda

Depois de as minhas memórias terem desaparecido durante umas horas (ou de o blogue ter enlouquecido temporariamente, mas ele, não eu!!!), só agora posso acrescentar: Bom fim de semana!

sexta-feira, março 17, 2006

"Venham os Bárbaros!"

Quando, na quarta feira, propus "um tempo sem temas sérios, só humor", excedi o possível - a menos que fôssemos passar esse tempo em Marte. Mas rectifico: um tempo entremeando com humor os temas sérios (creio que foi isso que o Miguel Pinto aceitou ao proporcionar-nos de imediato o riso, ou seja, a desintoxicação). O riso, sobretudo partilhado, liberta cargas indevidamente a mais nas nossas costas.

Tratando-se, então, de um entremear e já que não tenho jeito para entradas humorísticas (mas, para isso, também o
Miguel Sousa aceitou a proposta - um exemplo aqui), deixo hoje uma "coisa séria" para quem, eventualmente, tenha deixado escapar o pontosnosii deste mês (Revista Mensal de Política Educativa, suplemento do jornal O Público, dia 14) - excertos do Editorial Venham os Bárbaros, de Santana Castilho:

"O que está errado? O que se pode fazer?
Errada está a quebra do consenso secular entra a família e a escola e esta e a sociedade em geral, quanto à orientação das gerações mais novas. A escola não se realiza sem sacrifício, disciplina e trabalho. Mas, fora da escola, a indústria da comunicação e do espectáculo faz a apologia do prazer imediato, do consumo supérfluo, da extravagância e do efémero. O absolutismo moral e vários dogmas éticos tradicionais e universais foram substituídos por «morais» aberrantes, que derivaram da preponderância dos «direitos individuais» sobre os pilares seculares da vivência colectiva. Os pais deixaram de ser os aliados primeiros do professor na modelação dos filhos. Hoje, delegam neles todas as responsabilidades, mesmo as indelegáveis. E depois acusam e exigem. (...)
O que se pode fazer? Sem negar a complexidade das razões económicas, sociais, morais e outras que estão na origem de um modelo de convivência violenta e indisciplinada na comunidade escolar, exigir dos responsáveis pela definição da política educativa duas coisas, a saber: que contribuam para pôr cobro ao histerismo colectivo que aponta os professores como os responsáveis pelo descalabro do sistema, em vez de o fomentar maliciosamente; e que assumam, de forma consequente, que os problemas nucleares do seu ministério são hoje o facilitismo e a indisciplina. *
A continuarmos assim, estamos quase prontos. Venham os bárbaros!"
* (destaque meu)

quarta-feira, março 15, 2006

Saiamos da cilada!

Deixei há bocado uma proposta ao Miguel Sousa (esperando que o Miguel Pinto, nosso grande dinamizador de debates, lá fosse lê-la): "andam mesmo a desgastar-nos, a stressar-nos (...). Por isso, temos que brincar mais aqui pela blogosfera, quase que propunha um tempo sem temas sérios, só humor, mas... não tenho jeito para isso, faço a proposta ..."

E, a seguir, foi uma memória que me trouxe a escrever a presente entrada. Tive um professor (em segunda fase escolar, eu já muito e muito crescidinha) que tinha duas atitudes aparentemente contraditórias (sublinhe-se o aparentemente). Uma, era a de ser muito exigente - e eu, como alguns colegas, não o tivemos de passagem, tivemo-lo o tempo quase todo numa fase em que voltávamos a ser alunos; outra, descreve-se na persistente recomendação que nos fazia, lembrando-nos que, além de termos família, não tínhamos só aquele trabalho (trabalhão, diga-se): "não se deixem avassalar demais, não deixem de ir ao cinema, não se esqueçam que só temos uma vida e que a vida são dois dias!".
E, neste momento, pergunto-me como consegui seguir aquele conselho, mas consegui porque o que ele dizia era o que eu pensava. E, a verdade é que devo ter visto mais filmes nesse tempo do que vi nos últimos dois ou três anos, porque às vezes passam-se meses "sem ter tempo" para ir ao cinema. E, a verdade também, é que li livros pesadões e por acréscimo às temáticas obrigatórias (por interesse e gosto, aliados à oportunidade), enquanto que agora tenho fases em que "não tenho tempo" para o simples prazer de ler um bom romance. (As aspas querem dizer que não estou nada convencida do que está escrito entre elas).
Porquê???
Porque o tempo de um dia não é o mesmo quando gostamos do que fazemos, ou quando, mesmo estando a fazer quase nada, há fadiga psicológica, desencanto ou stress.

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Mas... afinal, estes estados psicológicos porquê???
Paixão pela educação é uma coisa - estar-se apaixonado é sempre maravilha. Aceitar carregar uma cruz que não é nossa, porque acham que as nossas costas é que são largas e que nós até somos réus, isso é outra coisa. E, o que os outros acham ou querem é uma coisa, e o que nós achamos ou queremos é outra!

Acho que andamos a esquecer-nos disso!

Quando paramos para dizer: Espalham o descrédito e o desrespeito? Alimentam o facilitismo nos putos e encolhem os ombros por eles andarem a não se deixar ensinar e a não deixarem que os colegas que querem aprender, aprendam? E os pais dos que querem aprender e são prejudicados por todo este clima que se vive, passivos, a deixarem que confaps e cª falem e actuem em seu nome? O silêncio não se chama conivência? Então, porque continuamos a afligir-nos porque os nossos alunos têm um real insucesso? Os nossos alunos não são os culpados, mas há limites para carregarmos as culpas dos outros - quando paramos para dizer?

Quando paramos para dizermos isso a nós mesmos
, para destressarmos, para irmos ao cinema, para brincar, para falarmos de poesia e termos tempo para o que até conseguimos quando nos tratam bem ou nos sentimos bem, para continuarmos a dar aulas, mas recusando a fadiga psicológica que estamos a consentir que nos invada apenas porque queremos salvar pequenos mundos chamados turmas, habitados por meninos que não são nossos e que, em boa parte, têm quem cuide deles e tenha o dever de cuidar, a começar pelos mais altos responsáveis que hipocritamente usam essa expressão cuidar estando-se nas tintas (desculpem a expressão, mas não tenho outra) para o real sucesso desde que sobrem os suficientes, protegidos nas escolas privadas, para garantir ao país a continuidade da existência de "gente de sucesso" - quando paramos para dizermos isto a nós mesmos?.

Em suma, o que quero dizer (a mim e aos que trabalham empenhadamente - se outros houver, esses não stressam) é que não vimos da escola para casa sem nesta nos sobrar tempo porque temos que continuar a trabalhar para os alunos. Não. O que não nos sobra não é o tempo contado em horas ou minutos. O que não nos sobra é o tempo psicológico, porque nos deixámos cair numa cilada. Saiamos dela, trabalhemos tranquilamente, o tempo necessário para que aprendam os alunos que queiram aprender ou sejam POR TODOS estimulados a isso (e não o tempo a mais, e cada vez mais, em esforços que se provam inúteis quando outros se demitem de que o não sejam ou até contribuem para que o sejam), trabalhemos até muito, ou muito a mais, quando isso pode ser paixão e nos deixam que seja, mas...
... mas saiamos da cilada!

Adenda:
E tu, Isabel, arranja tempo para escreveres mais curtinho! (Isabel responde: foi a cilada que me tirou a capacidade de síntese!) Ora, ora, Isabel, esse texto todo ainda é sintoma de que não saíste da cilada! (Isabel opta por não responder a provocações)

terça-feira, março 14, 2006

Educação Matemática...

A Tit pergunta: O que se passa afinal com a Educação Matemática?.... E relata uma pequena conversa que ouviu, entre duas estudantes do Ensino Superior. Lembrei-me de um episódio que um amigo me contou num comentário logo no início deste blogue, fui buscá-lo e deixei-o em comentário à entrada da Tit. Mas fiquei a pensar nele porque...

... Pressupõe-se que a Educação Matemática, que se deseja para todos, esteja nos alicerces de posteriores saberes avançados na área da Matemática. Mas, pelos vistos, nem sempre é tanto assim...
Aqui fica o episódio, tal como me foi contado pelo meu amigo Jorge:

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Adenda:

E, a propósito de Matemática...

... celebremos o dia do Pi!

(Mês 3, dia 14...)







(Autor não identificado)

segunda-feira, março 13, 2006

A Srª Ministra faz alguma ideia disto?

Na semana passada tive reunião de Departamento (que abrange o 2º e o 3º Ciclos). Saí dela a olhar mais uma vez para a evolução da nossa população escolar do 2º Ciclo nos muito poucos últimos anos.
A Srª Ministra ocupa os seus informadores sobre a realidade das escolas na procura de escolas modelo, de experiências modelo, de aplicações modelo de algumas das suas medidas, para mostrar que os não modelos gerais se devem tão somente a que os respectivos professores e gestores são maus. Não que haja algum mal em mostrar modelos, o mal existirá se a Srª Ministra (como parece) não se preocupar em indagar se esses modelos têm os mesmos obstáculos que os mais gerais não modelos. E, pior que não pedir informações sobre a realidade que decorre dos problemas sociais que invadem as escolas e turmas do Básico, é não fazer mesmo ideia nenhuma dessa realidade. Será que tem alguma ideia dela?

A minha escola já beneficiou daquela heterogeneidade, relativa à população escolar, propícia ao "puxar para cima" os alunos de estratos sociais desfavorecidos, mas a construção de escolas numa zona em acelerado crescimento, que abrangia, habitada por classe média e mesmo média-alta, alterou significativamente as características da nossa população escolar. No entanto...

No entanto, sempre tivemos grande número de alunos habitando quer em bairros degradados (daqueles que uma pessoa não deve atrever-se a visitar sozinha), quer em zonas cujas famílias residentes tinham condições económicas difíceis e muito pouca instrução. Dos primeiros sempre nos vieram aqueles casos chamados problemáticos, em que lemos facilmente o que está por trás dos problemas e que sempre nos fizeram juntar ao papel de professor os papeis de mãe ou pai, de psicólogo e de assistente social - o que não somos, mas eles não têm e então fazemos o melhor que sabemos. Mas, dos segundos, vinham-nos os filhos dos tantos pais ou mães que, apesar de não instruídos, apesar das suas condições difíceis, quando vinham à escola a primeira preocupação que tinham era perguntar ao director de turma O meu filho (a minha filha) porta-se bem? E, eram bastantes aqueles cuja vinda à escola não era inútil se convocados por algum motivo de comportamento.
De há poucos anos para cá, os quintos anos que a minha escola recebe (principalmente os quintos, mas não só) estão a tornar o trabalho dos professores muitíssimo desgastante nas aulas, e nem tempo têm decerto para avaliar as consequências desse desgaste pois, em casa, cada vez é mais o trabalho para produzir materiais diversificados e inventar estratégias. Ou é uma turma inteira que calhou assim se formar por falta de informação atempada, ou são, às vezes, apenas dois ou três alunos espalhados por todas as turmas que inviabilizam um normal funcionamento das aulas. Mas...

Mas, a isto junta-se um fenómeno que eu chamo da actualidade: a propagação da (apenas, mas enorme) indisciplina (no estar na aula e no trabalho/estudo) como que por imitação ou contágio - note-se que grande parte desse tipo de indisciplina não se pode atribuir a condições familiares/sociais degradadas que deixam os meninos a crescer sós aprendendo as regras de rua dos seus bairros. E, mais uma vez, ao ouvir os relatos da situação na reunião de Departamento, eu penso: Ou bem que políticos e sociedade acordam, ou há que perguntar quanto tempo terão de resistência muitos (e bons, e dedicados) professores dos primeiros dois ciclos de ensino?

A Srª Ministra faz ideia disto?

P.S.: O assunto é "mais do mesmo" e eu até estou em tempo de semipausa neste cantinho e na blogosfera "docente" em geral. Mas, a leccionar só 3º Ciclo, senti que ao menos devo este post aos meus colegas do 2º Ciclo da minha escola - a todos também que, no 2º e no 1º ciclos, vivem quotidianamente excessivos desgastes em esforços por vezes impossíveis de resultarem, o que a Srª Ministra da Educação despreza, acrescentando mais tarefas, em vez de cuidar.

domingo, março 12, 2006

Bom domingo!



Domingo é o melhor dia para...
olhar para cima?
(ná... fica-se na lua
ou com dor no pescoço!)
... olhar mais além?
(ora, é isso mesmo)









Wassily Kandinsky (1929), Upward

sexta-feira, março 10, 2006

(Sem título)

Why Are You Angry?
Paul Gauguin (1896), No te aha oe riri? (Why Are You Angry?)

Not angry... however...

Numa encruzilhada, Isabel?

(Vão aí dois filmes que quero ver, tenho à cabeceira um grosso volume que quero ler - em inglês, para meu susto, mas estou farta de pensar só em educação, preciso de pensar para onde caminha o mundo -, e tenho uma prioridade, a de perceber, na encruzilhada, que rumo dar ao meu património de memórias - sim, as memórias são um património de cada um, podem não ser escritas, mas há momentos em que temos que as rescrever na mente para que a agulha da bússola se mantenha visível. E, para tanta coisa, não chega o fim de semana, por isso prevejo que este cantinho vai continuar numa semipausa, como cantinho sem mobília, só paredes para pendurar um ou outro quadro, colar algum papelito rabiscado a tinta desbotada ou com esse meu lápis metafórico que por vezes tenho a mania de usar, mais para missiva a mim própria)

quinta-feira, março 09, 2006

Nem tudo são flores (Adenda à orquídea do dia 8)

Sempre me fez confusão como por vezes, numa escola, um só "valter" infiltrado (de calças ou de saias) consegue "destilar" dióxido de carbono. Não só (nem tanto) no ambiente humano, sobretudo no ambiente pedagógico, poluindo desejos de desburocratização e a própria autonomia pedagógica. A sua acção não traz assinatura porque nem poder tem para tal, mas , autista e prepotente, paira, com origem nebulosa em pelouros habilidosamente construídos para serem unipessoais. Ninguém reconhece a omnisciência a quem de tal está autoconvencido, mas a pressão sub-reptícia para a impor empata, consegue criar tensões, obstáculos, dificuldades e, a alguns, perda de paciência.

...

imagemdodia.com.sapo.pt/destilado.jpg
(faça clic na imagem para ler)

quarta-feira, março 08, 2006

No Dia Internacional da Mulher...



Esta foi a flor que recebi na minha escola.











Todas as mulheres que trabalham na minha escola receberam hoje uma orquídea.
(Estando o nosso Conselho Executivo no seu segundo mandato, esse gesto é já uma tradição, como outros com que contribui para, ao ambiente humano, "a cor dar".)

terça-feira, março 07, 2006

segunda-feira, março 06, 2006

Adenda

Marina M. Montanaro, Do Not Write When You Are Angry
[risos]

Continuando a (des)enrolar o novelo

Há umas duas semanas peguei noutra ponta dos meus novelos, perguntando-me: "Que efeitos teve a actual política educativa na minha pessoa?"
Hoje volto à auto-observação (nem é preciso acrescentar "análise", pois basta olhar-me, reparar). E dou-me conta de que ando frequentemente irritada, quando, afinal, sempre foi minha prática simplesmente distanciar-me, sair mesmo fora de contextos que mexem com os meus... "nervos".
Distanciar-me ou sair fora da política educativa estrita (estrita, porque há os prolongamentos, os ajudantes extra) não é possível - é coisa de demasiadas consequências para poder alhear-me. Mas, andar a ler certos escritos que, por muito que peguem nos leitores desprevenidos ou pouco dados a exigências, só merecem o meu desdém... ora, Isabel, até parece mesmo vontade de te irritares!

Artigos e... até publicações com capinha e tudo, pois, à vontade de autopromoção, há sempre promotores a ajudar.
Não escrevem só desinformação (ou opinião sem informação). Há quem seja mais habilidoso e use métodos, para vender o seu peixe, com aparência de fundamentos ou de comprovativos. A habilidade está no uso de métodos não só redutores, mas também deturpadores e até falsificadores, que facilmente escapam a leitores que estão fora do contexto. E assim se induz esses leitores à tal generalização de realidades que até existem aqui e ali, ou de ridículos que também até existem ali e acolá. E até acontece haver quem pretenda desmontar ou ridicularizar (pseudo)conceitos que, por acaso, não deixam de andar aqui, ali ou acolá em confusão, sem primeiro se ter o próprio desconfundido bem a si mesmo.

E, com esta prosa (vaga, porque decidi não me dar mais ao trabalho de explanar sobre o que deito para o lixo, e lixo toda a gente sabe que abunda), termino hoje as minhas auto-exposições a irritações face a certos escritos que andam tentando fazer a cabeça da opinião pública.

Uff! Parece que desta fase tendente à irritação já me libertei! Sempre é um avançozito a direito pelo fio do meu novelo...
(Era só questão de reparar como me deixei andar irritada durante uns dias por umas leiturinhas na cama antes de adormecer - até perder a paciência para as linhas finais face à tomada de consciência dos estados de irritação em que me tenho deixado cair)

domingo, março 05, 2006

Bom domingo!

Ainda estou a meio de uma "coisa" que estou a fazer para ver se consigo que os meus nonos anos percebam porque é que um teste nada difícil foi um desastre. Houve um 100% e houve positivas de alunos que até têm algumas dificuldades mas são muito concentrados, e houve negativas que nem quis contar. E os erros e respostas em branco nem têm muito a ver com a questão de terem estudado ou não. Vão debruçar-se sobre alguns itens do teste, eles têm que perceber o que lhes acontece com a atenção e o que lhes bloqueia o raciocínio (eles e eu).

E assim a noite já vai pelas 2h e eu nem vejo se há lua, quanto mais olhá-la!
E a minha neta hoje atendeu o telefone e a primeira coisa que disse foi que amanhã queria vir para a avó.
E eu queria ir para a cama dormir 12 horas... 10... bem, ao menos 8... para estar em forma para a nossa tarde de domingo.
Só vim aqui para descansar uns minutos do que estou a tentar fazer e para pôr essa imagem, que o que me apetecia era estar no lugar do pássaro (esqueçamos que é um corvo).

Aaron Horowitz, Full Moon over Raven in Tree

sábado, março 04, 2006

Ando muito distraída!

Não tinha dado conta desta notícia, já de 24 de Fevereiro.
Depois de a ler, até fui ao Portal do Governo procurar as datas de nascimento do primeiro ministro e da ministra da educação. Descobri que em 25 de Abril de 1974 tinham respectivamente 16 e 17 anos, idade para perceberem o porquê da festa e não esquecerem.

"Há duas maneiras
de governar:
pela força
ou pela farsa."
(Glauco Mattoso)

Eu acho que não há só essas duas maneiras, mas está a parecer-me cada vez mais que os meus dois objectos da pesquisa biográfica que acabei de fazer não conhecem terceira maneira. Talvez Sócrates prefira a primeira enquanto Maria de Lurdes Rodrigues saltita entre uma e outra.

(Eu dou as minhas aulas e faço greve a uma tarefa da componente não lectiva, logo... faço um dia inteiro de greve! Aliás, até dei todas as aulas durante quatro dias e, nestes, fiz greve às tarefas da componente não lectiva, donde se conclui que... estive quatro dias inteirinhos em greve! Cá para mim a notícia é uma comédia em cujo título se poderá ler tentativa de força para uma pessoa comprar bilhete e assistir a uma representação burlesca, só não sai a rir porque é uma farsa com reminiscências sombrias)

Adenda: Eventuais distraídos como eu poderão elucidar-se melhor aqui. (Comunicado de Imprensa da FENPROF de 25/02/2006)

sexta-feira, março 03, 2006

Regressando à blogosfera?

Quis fazer das férias do carnaval umas férias mesmo, sobretudo meter numa gaveta com cadeado a política para a educação-ensino. Não estive ausente da blogosfera a cem por cento, mas estive pelo menos a noventa e cinco.
Hoje regressei para percorrer aqueles blogs "docentes" que visito assiduamente. Encontrei mais duas transcrições de artigos de jornal - nem vale a pena pô-los aqui, pois há oito meses que, na imprensa, se destila veneno sobre os professores, tudo se pode dizer ou insinuar sobre eles (nós) para os retirar da categoria de trabalhadores.
Liberdade de imprensa? Sim, mas eu associo responsabilidade à liberdade e, neste caso, associo ao menos a responsabilidade de procurar informação antes de se ser assertivo (já nem falo da responsabilidade pelas consequências que esta campanha venha a ter).

Memórias de professora?? Em tempo de ofensa, ou de cólera, ou, talvez mais apropriadamente, de... saturação (evito a palavra que está na ponta dos meus dedos) de certa gente do meu país (que não é a gente do meu país, eu disse "certa" gente, mas é gente que influi no seu destino próximo), em tempo assim não me apetece escrever memórias.

Mas ganhei a noite neste regresso (devagarinho, tão devagarinho... será regresso?).
Ganhei a noite ao encontrar o novo espaço da Teresa - um outro, além dos que já conhecíamos. Tem o rosto que não resisti a mostrar já aqui, especialmente aos colegas de Matemática (mas não só), é só clicar para verem tudo...

Teresa Martinho Marques


Adenda (10 de Março): O Sabor e Saber mudou de endereço, se o clic na imagem não vos guiar, façam o clic aqui.

quarta-feira, março 01, 2006

Pensamento para Lio

Sondra Wampler, Rose Bud

Au jour de ton sixième anniversaire, je pense à toi, Lionore, et... me voilà... je suis avec toi!

Preciso de mais uns dias...

Nos cinco dias de férias que programei, coisas prosaicas - como o frio com a chuva lá fora que só ontem se foi e alguns afazeres não escolares (nos escolares cumpri a "greve") - foram pouco propícias ao encontro daquele silêncio onde ouço em sussurro os segredos da vida. Hoje descobri que estava aí, em reposição, o fabuloso Leopardo, de Visconti, e acabo de chegar a casa ainda possuída por tudo o que o filme me traz à mente. Mas, neste dia que começa antes de ir para as horas de sono, não é só por ter ainda comigo apenas um filme que percebo que preciso de mais uns dias (apesar de, ao acordar, me ir pôr a ver testes) com espaço para esse silêncio que me permite pensar, sem palavras, o universo, que me ajuda a olhar, sem linha de horizonte a confinar a visão ao presente e ao quotidiano, o mundo humano e a História, que me faz sentir, sentindo apenas, o sentido das memórias de ontem e das que são de hoje, de cada momento em que se param as azáfamas para dar lugar ao que na vida e no próprio quotidiano emociona ou encanta sem medidas de tempo ou de distância.

sábado, fevereiro 25, 2006

Se, ao crescer, guardássemos a criança dentro de nós...

Para as crianças as quadras festivas não são carnavais, farsas, hipocrisias ou outras coisas que tais. Nesta que decorre, para a minha Inês foram personagens dos contos a brincarem "ao vivo" na escola, na festinha de carnaval.
No Natal, a Inês encantava-se com as novas luzinhas e bolas coloridas que iam dia a dia enfeitando mais o pequeno centro comercial ao lado de sua casa. Pediu que eu não desmontasse a grande árvore de Natal enquanto, já em Janeiro, com a perna engessada, esteve sem vir cá; e a pequenina, que se ilumina com todas as cores do arco iris aqui na minha sala de trabalho, onde gosta de brincar (e usa o meu pc) quando está cá, vai ficar o ano todo a seu pedido.

A minha princesa queria ir ontem vestida de princesa para a festa no seu Casulo (a sua escolinha do pré-escolar e, agora, do 1º Ciclo). No monte de máscaras eu não descobrira nenhuma princesa, mas no dia seguinte foi a mãe procurá-la com ela, e achou-a. (Eu ainda pensei que não era de muito bom gosto o vestido da princesa, mas esta achou-o lindo - que mania dos adultos de terem gostos diferentes das crianças!!)
E a Inês estava tão feliz quando foi para a escola!...
(Até dei à foto um toque difuso, em jeito de transição do real para esse imaginário das crianças - algo importante que o real nos tira quando temos que ficar adultos).

(Foto privada)

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Adenda: "Quando eu for grande..."





























Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P'ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino

Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P'ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito

Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto

Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem

Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto

Quando eu for grande...
Quando eu for grande...

Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P'ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho

(José Mário Branco, letra de Manuela de Freitas)

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Adenda 2: Descobri mais um cantinho, graças à Teresa - A(zul)Mar

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

5 x 24...

Não vou dizer-me Cinco dias senão ainda chego às noites e arranjo o pretexto de já não ser de dia! Vão ser mesmo cinco vezes vinte e quatro horas... sem falar de (nem pensar em) escola, milus, valters, sócratess & cª ("cª" inclui qualquer político e também os jornalistas). Pronto, está decidido, espreito os títulos dos posts para ver se posso entrar [riso].
(4ª feira já não conta, tenho testes para ver - e, pelo que constatei enquanto decorreram, já pensei que vou ter tema para pensar e escrever, aliás complicado pois a questão não vai ser sobre hábitos de trabalho/estudo)

Road to Relaxation

Barbara Aliaga

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

A estratégia do medo

(Em dois capítulos)

II
No dia seguinte, voltando a lembrar-me do livro que ando a ler e da estratégia do medo, o meu pensamento deslocou-se de novo, agora do globo para a nossa "terrinha" habitual - as escolas...

Conselhos de turma de Fevereiro: Objectivo nº 1 - Acautelar... (E mais planos de recuperação); Objectivo nº 2: Acautelar... (E mais disciplinas nos planos de recuperação anteriores); Objectivo nº 3: Acautelar: (E nomes, para a acta, de alunos que não estão a cumprir).

Depois de na semana passada ter exigido em tom "excessivo" que me mostrassem onde estava escrito no Despacho Normativo nº 50/2005 que Fevereiro era a última oportunidade de se poder vir a reprovar algum aluno, h
oje voltei a fazer a mesma pergunta sobre o despacho. (E que mania das percentagens, pena não haver a mesma mania das recuperações trabalhando os erros dos testes, alguns miúdos até andam estafados com tanta aula de apoio e salas de estudo nos horários).

No
despacho lê-se:
" (...) 4- No final do ano lectivo, e após a avaliação sumativa final, a direcção executiva envia à direcção regional de educação respectiva um relatório de avaliação, no qual devem constar: (...) d) Resultados alcançados, incluindo: (...) iii) Alunos que não foram sujeitos a um plano de recuperação e ficaram retidos; (...)"
(Estratégia do medo, ou medo simplesmente, ou ambas as coisas?)
(Agora só falta os alunos resolverem, alguns dos que não tiveram plano de recuperação até Fevereiro, que podem entrar em férias, conjecturando: _ Disseram-me que há um decreto que diz que já não posso reprovar!)

No despacho lê-se também:
"(...) 2 - O plano de recuperação é aplicável aos alunos que revelem dificuldades de aprendizagem em qualquer disciplina, área curricular disciplinar ou não disciplinar. (...)"
(Estarem desatentos, precisarem que os professores interrompam constantemente as aulas para que não as levem a brincar e deixem os colegas ouvir, trabalhar e aprender, não fazerem nem os pequenos trabalhos de casa, é isso que são dificuldades de aprendizagem? São também para esses aulas de apoio?)

(Estratégia do medo, ou medo simplesmente, ou ambas as coisas?)

A estratégia do medo

(Em dois capítulos)
I
Há umas duas noites atrás, depois de ter visitado o Educar para a Saúde, do Miguel Sousa, desliguei o computador e fui para a cama ler. O tema do livro não tem a ver com educação para a saúde, no entanto, a páginas tantas de um capítulo, eu lia: "As probabilidades de uma determinada pessoa ser morta num ataque terrorista são infinitamente menores que as probabilidades de essa mesma pessoa vir a entupir as suas artérias com comida de elevado teor de gordura e morrer de doença cardíaca. Mas um ataque terrorista acontece agora; a morte por doença cardíaca é uma catástrofe distante e tranquila". (Lembrei-me logo dos hamburgers e batata frita que o Miguel referira no post) O autor do livro* (que fala do "estranho mundo da economia"), exemplificando também o caso das vacas loucas (e eu lembrei-me das tantas pessoas que deixaram de comprar carne de vaca enquanto o alarme esteve presente na comunicação social, e estou a lembrar-me agora do noticiário de hoje, falando da gripe das aves e de possível baixa na venda destas), apontara estes exemplos neste contexto: "Mas o medo prospera no tempo presente. É por isso que os peritos confiam nele; num mundo cada vez mais impaciente com os processos de longo prazo, o medo é um jogo poderoso de curto prazo".
O meu pensamento saltou então dos cuidados com a saúde e dos riscos cujo alarme a publicidade afasta das mentes e os orgãos de comunicação não fazem ressoar (saúde não é assunto sensacionalista para que dela se ocupem) para a protecção do ambiente. Mas não se deteve nas pessoas comuns, voou para senhores do poder económico no mundo, que pouco ouvem os alertas dos cientistas pois o futuro do planeta já não será na cabeça deles que poderá desabar - isso também faz parte de perigos distantes, não perturba a tranquilidade dos ditos senhores.

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*S. D. Levitt e S. J. Dubner (2006), Freakonomics - O Estranho mundo da economia. Ed. Presença

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Hoje o tema é "Vamos dançar?"(com adenda)

Adenda:

(...)
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias
Os dias sem sol raiando
E ela inda está sambando

(...)
Chico Buarque
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segunda-feira, fevereiro 20, 2006

...

Feodor Vasilyev, Cloud
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As nuvens do céu –
o céu do infinito
eu de nenhum lugar

Stefan Theodoru

Pegando noutra ponta dos novelos

Hoje decidi começar pela observação mais directa de todas - a auto-observação. E com uma pergunta a mim mesma: Que efeitos teve a actual política educativa na minha pessoa?...

... Porquê, em dois ou três meses, mudei o meu projecto de vida no tempo próximo?
Em meados do ano lectivo passado soube que tinha todas as condições para pedir a aposentação - soube, mas não liguei, eu queria continuar. Nem ligou a minha escola, onde acham que a idade no meu BI não condiz muito comigo. Nem ligaram filhas e amigos, que não me vêem a ficar inactiva. E continuei a querer continuar, em Julho e em Setembro, apesar das novas medidas para a "educação", mas ao fim de três meses deixei de querer - não ia abandonar as minhas turmas, só por isso é que espero até ao final do ano lectivo.
Claro que a idade pesa, tem seus efeitos, mas não vem para o caso porque, sem percalços de saúde, não há mudanças assim tão grandes em três meses (e continuo sem parar na sala de aula, e isso não me cansa - de aulas mesmo mantenho a redução que a idade e o stress da profissão requerem). Ando cansada por mais horas de trabalho, mas com isso ainda vou podendo (não me couberam tarefas que odiaria fazer sem sentido e, das que tenho na nova componente não lectiva, umas já tinha, embora com direito a redução, outras faço com gosto, têm sentido para mim, tal como todas as coisas que fiz ao longo dos 36 anos de serviço com muito mais tempo voluntário na escola do que o do horário de permanência obrigatória nela).

Qual, então, a causa de ter passado, em escassos três meses, de uma ainda inadaptação à ideia de me reformar para uma inadaptação à de continuar? Percebo claramente que a causa é um clima que vem de fora das escolas e também, mas em menor grau como causa, um ambiente que pressinto nelas de alguma forma afectado por esse clima exterior - não se trata de ambiente no âmbito de relações humanas, nesse âmbito continuo a estar bem, quer com colegas (incluindo os do CE), quer com funcionários auxiliares, quer com alunos (estes estão mais difíceis, mas não é nesse âmbito).
E o clima que refiro... que clima é esse, que vem da governação na educação-ensino, que se propaga através de alguns insuportáveis artigos e debates na comunicação social, e me intoxica? É um clima que, por um lado, me gera a sensação de opacidade impedindo-me de discernir algum trigo que possa haver entre o muito joio, e que, por outro lado, tem geadas e granizos a agredirem a minha inteligência. A minha - será portanto uma agressão subjectiva, cada um tem a que tem, a minha é a que for (mas foi-me servindo pela vida) e até pode andar em crise, ela ou a lucidez. Mas, como estou a reflectir e a discorrer sobre mim, a olhar o que causou a súbita e imprevista mudança do Quero ainda Continuar para o Já não Quero, e não vou pedir outra inteligência emprestada, a que tenho (suficiente ou insuficiente), essa anda mesmo a ser demasiado agredida por facetas de uma política educativa eivada de prepotentes voluntarismos, pela condução do sistema educativo ao sabor de experiências à toa, pela sensação de que neste país de tantos homens e mulheres lúcidos e estudiosos se consente às mediocridades a condenação a um país medíocre.

Não importa muito que não esteja numa fase lúcida, que afinal tenha eu um cisco a mediocrizar a minha própria visão, pois isso é inócuo - não estou em nenhum lugar que influa nalguma coisa significativa, não tenho essa responsabilidade, o trabalho profissional pelo qual sou responsável não tem a ver com isto e esse sei que não o faço mediocremente. Importa sim, exclusivamente para a minha pessoa tal como é, o que sinto. E a minha pessoa não suporta nada imposto prepotentemente, sem diálogo, sobretudo sem explicações visivelmente fundamentadas (fundamentos não são opiniões, não são ideias individuais ou de uns tantos ao sabor do Quero, Posso e Mando - fundamentos são alicerçados em análise, em métodos de avaliação fidedignos, em estudo e conhecimento aprofundado das realidades.

E por esta ponta do fio eu vou a algum lado: Posso andar, estúpida, a avaliar mal a política educativa, mas numa coisa me desbaralho - perceber que não me adapto, que não me acomodo e que, tendo atingido sobejamente a idade de não lutar mais pela escola (pelo menos permanecendo nela), vou mesmo sair do ambiente nebuloso, sempre detestei ambientes nebulosos e já não cabe a mim pegar numa das muitas lanternas necessárias para que a luz desfaça opacidades, exija transparências e penetre nos alicerces a refazer. Numa vida de lutas e teimas, também pela escola e pelos alunos, as lutas e as teimas não acabam (sob pena de a pessoa acabar por dentro antes da hora de acabar por fora), mas a profissão tem um tempo, e estes meses do corrente ano lectivo fizeram com que esticá-lo, entre o limite de direito e o limite obrigatório, passasse, de desejo e gosto, a ser masoquismo.

Motivo só subjectivo? Se se verificar que sim, ainda bem para os que ficam e ainda bem para os alunos deste país - terá sido só um mau e infeliz ano. De qualquer modo, ficará o facto de que muitos (não só eu) estão a decidir ir embora por causa dele, apesar de, na maior parte, isso implicar prejuízo monetário para o resto da vida (o que não é o meu caso).
Serão mesmo os que já não fazem falta?

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Homenagem

(Com atraso, por isso ainda aqui voltei - foi no dia 13 último o centenário do nascimento de Agostinho da Silva)



“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem


(Agostinho da Silva, "Cartas a um jovem filósofo")

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Duas faces da mesma moeda...

... crença versus realismo?

Num dia, neste cantinho, a metáfora continha a crença...




Juntos,

um homem e a brisa

viram uma página


Betty Drevniok


Claude Monet (1873), Sunrise


Noutro dia, continha o realismo...



Lua cheia!
Por mais que caminhe,
O céu é de outro lugar
.

Chiyo-jo



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Nesta semana, o meu estado de espírito pende mais para cansaço de caminhar.
Talvez seja porque sou uma preguiçosa para andar a pé e nem me tenho metido no carrito para ir olhar ao menos a lua cheia [riso, que sempre vou conseguindo fazer humor comigo mesma] . Mas, já que à 5ª feira às 18.30 entro em fim de semana, pelo sim, pelo não, é melhor não me fiar na capacidade de humor e deixar este cantinho quieto para organizar um fim de semana propício a essa crença mais acima... então o Homem não há-de parar de fazer besteiras e começar a virar a página? Os cientistas dizem que ainda só aproveita uma parte do cérebro... não sei é o que lhe dará para fazer se vier a conseguir aproveitá-lo todo - não me parece que seja propriamente o céu, tal oportunidade deixou-a perdida algures no tempo.
(Decididamente, a mim é que só me saiem hoje besteiras, devo ter batido com a testa nalgum pensamento que me fez um "galo"... desejo já a todos bom fim de semana e vou ver se encontro gelo para o galo)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Hoje foi assim

Dias que se alongam —
Cada vez mais distantes
Os tempos de outrora!


Buson

No intervalo, na sala de professores, uma amiga e colega de muitos anos dizia que já não estava a conseguir prosseguir, e caiam-lhe lágrimas.
Sim, as nossas turmas estão muito difíceis. Já não falo das do 2º Ciclo, falo das turmas dos mais crescidos.

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Fui para a aula, um dos meus nonos anos. Tem andado outra vez difícil. Hoje não houve ralho ou discurso depois de se justificar. Hoje falei com eles antes de iniciar a aula. Não me apetece relatar, mas hoje a aula decorreu produtiva, trabalharam e puseram dúvidas, vim para casa sem cansaço (apesar de aulas produtivas para todos, pelo menos em Matemática em que as dificuldades e dúvidas naturalmente chovem, exigirem um rodopio de um lado para o outro). A próxima também vai correr bem porque antecede um teste. E depois das férias do carnaval, lá andarão outra vez para trás, e lá andarei pela certa outra vez quase em desespero - ou eu não os conhecesse há quase ano e meio. Mas, mesmo assim para a frente e para trás, no mesmo sítio já não estão, que eu bem me lembro de terem terminado o 8º ano comigo a perguntar-me: Que vou fazer, posso fazer alguma coisa?, e eles vieram de férias cheios de novas intenções, e a elas eu não larguei, e eles sabem que não largo, e eles até gostam e esperam que não largue (vá-se lá entender porque é que é preciso estar sempre a atá-los!), e não sou só eu que tento mais uma vez porque se eles não fossem também de novo tentando e depois tentando de novo eu e eles ficávamos no mesmo sítio, mas eles para a situação do ano passado... não, para essa em nenhum momento voltaram.

Ah, o rouxinol!
De novo ele tenta
E tenta de novo.

Chiyo-jo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Lembrei-me de Sócrates (o Outro, claro)...


... e achei melhor voltar a meter a ponta do fio lá bem dentro do emaranhado das minhas meadas!





Mas também conjecturei cá com os meus botões que Sócrates pensava no Conhecimento (até escrevo com maiúscula) e eu deparo-me com nada saber a um nível bem mais comezinho, apesar de toda a informação a que tenho acesso. (Toda? Informação? Ora deixem-me rir!).

Começando pelas escolas deste nosso país, agora tão faladas e discutidas, vem-me à memória o tempo em que lhes sentia o pulsar (com seus ritmos mais acelerados ou mais lentos) naqueles encontros de delegados de disciplina que o Ministério da Educação até promovia, não para ouvirmos debitar medidas, mas em que trabalhávamos, trocávamos interrogações e experiências, e também naqueles encontros de coordenadores de directores de turma igualmente havidos (alguém por aqui é desse tempo?) - levávamos a seguir para a nossa escola o enriquecimento ganho nas nossas trocas e reflexões conjuntas. E agora, para além de uns pouquinhos testemunhos que recolhemos nesta blogosfera onde falamos de escola porque na escola não há tempo (e não foi só neste ano lectivo que deixou de haver, neste há é ainda menos), resta-me a (des)informação da dita comunicação social, à qual só me apetece responder gritando: Dêem-me números! (Sim, números que falem, não a balela de resultados de um exame - este ou aquele - a quantificarem a qualidade dos professores).

Passando a seguir para a política no meu país, nem os orgãos de comunicação estão empenhados numa informação completa, nem, se estivessem, conseguiriam penetrar nos meandros de muitos interesses e conluios cuidadosamente ocultos.

Mas, o que mais me faz sentir sufocação no pensamento é a política internacional, comandada pelos governos das grandes potências (se calhar pouco mais do que por uma), eles mesmos guiados ou comandados por outros poderes, sem que eu consiga duvidar de que os seres humanos comuns vivem, impotentes, sob uma enorme teia cujas malhas se estendem pelo mundo e em cujos meandros subterrâneos nem, provavelmente, penetram as cadeias de televisão que (não só, mas também muito) fazem definir a nossa época como a época da informação e comunicação - sim, notícias e imagens de acontecimentos em qualquer lugar do planeta entram de imediato pela minha casa, mas de quantos deles não ficam escondidas causas e conluios que os discursos escondem?
Deparei-me por acaso com o escrito que se segue (não sei se como poema ou apenas desabafo) de um poeta brasileiro, Cláudio Portella, que não conheço - mas o texto exprime de algum modo (ainda que, a meu ver, parcialmente e só um pouco, esclareço que o tomo apenas como uma metáfora) o muro invisível mas existente que me permite só supor o que está do lado de lá dele, pois sinto há muito tempo que é um muro cujo poder de filtragem desafia até à exaustão qualquer mente com alguma lucidez.

"Nada sei sobre meu planeta
nada sei acerca dos conflitos orientais
só leio jornais
nada sei acerca dos conflitos orientais
como posso querer ser humano
se só leio jornais sem datas
se não posso me embriagar em Bagdá
se tudo que conheço sobre o Iraque
é o filme que vi na Globo
“ O Ladrão de Bagdá”
a Globo e a Folha de São Paulo são o planeta Terra?"

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Continuando (mas devagarinho...)

Adenda:
Mal saída de fim de semana, desatei a escrever para depois ficar com a sensação de me ter perdido, pelo menos na extensão, também talvez no fio, que, a esta hora, já não distingo se ainda é o mesmo. Se calhar, reparando agora na última frase que escrevi ("não se decreta isso em nenhuma profissão, e para a nossa são precisos milhares de profissionais"), uma das coisas que queria dizer diz-se em três linhas: Nunca as transformações ou mudanças necessárias foram feitas pelas grandes maiorias; estas são depois "agarradas", sensibilizadas - as mudanças ganham movimento, o movimento propaga-se até que todos se começam a mover nelas naturalmente.
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Depois de ler todos os comentários ao meu "começar por desfazer confusões" e ao post posterior que voltou ao assunto, não consigo trazer divergências para debate pois, na verdade, não as detectei - perdoe-se-me o critério, que foi o de estar pessoalmente de acordo, no essencial, com todos, com tudo o que escreveram. Por isso, limito-me a mais umas considerações pessoais que, se estiverem correctas, justificam esse meu pensar que os nossos pensares afinal não divergem (e, se não estiverem correctas, venha então mais discussão, vamos a isso!)

1. Função do professor e função da escola não são a mesma coisa e, em dado momento, uns de nós escrevem centrando-se mais na primeira, outros alargam para a segunda - só isso; não me parecem perspectivas diferentes, apenas acentos diferentes. Mas, como eu me impus começar a pensar por uma ponta e devagarinho, centro-me agora na função do professor.

2. A nossa profissão tem de muito especial (não é a única, claro) a responsabilidade de se trabalhar com crianças e jovens para os ajudar a crescer e a apetrechar-se, a necessidade e a importância do afecto e da sensibilidade humana não estão em questão.
Mas isso não se decreta, não se aprende na faculdade, não se determina que se concretize deste modo ou daquele - isso é a nossa parte humana, ficar indiferente e não tentar dar às crianças o que faz parte dos seus direitos consagrados como universais mas que muitas não têm colidiria com a incapacidade de indiferença do professor (sim, se acaso as crianças e os adolescentes com quem lida dia a dia um professor lhe são indiferentes, então errou mesmo na escolha da profissão e pode estar até a ser uma erva daninha). Entretanto, cada pessoa tem o seu modo de concretizar o afecto e a sensibilidade humana e, ao falar da função do professor, eu pretendo referir-me apenas à que é formalmente definida no conjunto dos deveres objectivos listados em qualquer decreto que os estabeleça para todos os docentes.

3. A amplitude da função do professor não é naturalmente sentida e descrita de modo exactamente semelhante por professores que leccionam níveis diferentes de escolaridade. Uns têm as suas classes com crianças, desde os 5 anos de idade, a sua função é com crianças mesmo; outros têm, no 2º Ciclo, crianças ainda, mas que há também que "puxar" para crescerem descobrindo que já são capazes de fazer mais coisas do que julgam (e muita gente julga), há que não as ver tão crianças como as anteriores sob pena de as infantilizar; outros têm adolescentes a munir não só com aquelas competências gerais que devem começar a ser trabalhadas desde a infância e continuar ao longo da escolaridade, essenciais para se tornarem num futuro cidadão autónomo (basta-me o conceito de autonomia para abranger o saber estudar ao longo da vida, o saber pensar por si e criticamente, o saber tomar opções morais ou éticas, etc.), mas a preparar também para o prosseguimento dos seus estudos com sucesso, seja esse prosseguimento um caminhar para a universidade ou um caminhar por outra via profissionalizante; outros, por fim, têm jovens com pelo menos 16 ou 17 anos de idade, a preparar para um ingresso numa faculdade, rumo à profissão com que sonham ou, ao menos, a uma para que estejam vocacionados. Portanto, o papel primordial que cada um destes professsores se atribui não pode nem deve ser exactamente o mesmo.
O facto de ter vivenciado longos anos o ser professora no 2º Ciclo e ter depois sido, durante já bastantes, professora no 3º dá-me a vantagem de poder dizer que eu não mudei, mas as minhas prioridades em algo mudaram. No 2º Ciclo, não me era assim tão importante que o programa de Matemática fosse o mais apropriado, porque qualquer conteúdo me servia para as minhas primeiras prioridades: a) eliminar medos, inseguranças, baixa auto-imagem quanto a capacidades; b) criar neles uma relação com a Matemática incutindo a ideia de jogo ou desafio de que tanto gostam, com a pequena diferença de ser consigo mesmos e com o seu raciocínio - daí essa dinâmica que se ia estabelecendo na sala de aula nos grupos e na turma; c) iniciar na distinção do que é um pensamento ou raciocínio coerente e na capacidade de expressão precisa do mesmo - processos, aliás, interactuantes. No 3º Ciclo, sobretudo nos 8º e 9º anos (considero o 7º ainda um prolongamento do 6º), a relação desejável com a Matemática deveria estar estabelecida pois é altura de pôr maior acento sobre o trabalho e o esforço individual - e o trabalho não tem que ser chato, mas o trabalho na vida não é sempre divertido nem é um divertimento, e o trabalho e o esforço fazem parte da vida, e dificilmente farão parte dela de uma forma bem sucedida sem terem feito parte da etapa de preparação para ele.

Finalizando (que já me estou a sentir perdida nesta escrita), o que me parece certo é que, com todas as nuances na função do professor consoante o nível em que lecciona, ela tem que ser exercida bem e com grande investimento, o que ficará à partida comprometido se se lhe roubar espaço e tempo com acréscimos de funções. O espaço e o tempo para todas as iniciativas de carácter extracurricular ou inter(/trans)disciplinar de professores ou de grupos de professores é também imprescindível, mas essas iniciativas variam consoante o que para cada um é significativo e se integra na sua própria aptidão.
Eu meti-me nalgumas, eu envolvi quase sempre as turmas da minha direcção de turma (e envolvi-me) para alguma experiência/vivência que as fizeram crescer mais um pedacinho e fizeram os seus pais encantar-se com os filhotes de 10 ou 11 anos. Entretanto, por exemplo, a minha colega que se meteu num clube de teatro (sem especial formação nessa área) e fez as suas crianças crescerem durante o processo que culminava em representação de peças com tanto sucesso que foram apresentadas fora da escola e também fizeram os pais encantarem-se com os filhotes, possivelmente não teria jeito nenhum para as iniciativas que eu tive, como eu seria incapaz de fazer o que quer que fosse de jeito num clube de teatro.
São iniciativas/acções que se incluem na função do professor, mas que não se decretam - decretam-se os objectivos educacionais, decretam-se as habilitações que o professor tem que ter, mas não se decretam tendências particulares nem paixões (não se decreta isso em nenhuma profissão, e para a nossa são precisos milhares de profissionais).

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Pausa (mas para, a seguir, continuar)


Bom fim de semana!


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Pela necessidade com que ando de ter fins de semana em que a mente relaxe com "aragens leves e frescas" e coisas simples, teria feito a pausa na escrita depois do penúltimo post se não tivesse visto o desafio divertido sobre manias. Entretanto, penso tentar dar o meu ínfimo contributo para a discussão, após a pausa do fim de semana, trazendo da caixa de comentários para primeiro plano excertos do que já nela foi escrito, se for capaz de uma certa síntese - nisso pensarei na altura.
O que quero para já salientar é que não escrevi como quem pensou prolongadamente e chegou a alguma conclusão, mas sim como o começo (sublinho COMEÇO) de que tenho andado a sentir necessidade pessoal para, a partir de uma ponta, tentar prosseguir devagarinho algum fio desbaralhado e coerente.
Eliminar ou evitar confusões não clarifica, por si, o caminho. A função do professor e a função da escola no tempo actual constituem, no seu conjunto, uma questão bastante complexa, que requer estudo e contributo de muitos saberes, mas uma questão complexa é uma coisa, confusões prévias sobre ela são outra. Além de que não é uma questão resolúvel isoladamente de outras, as políticas governamentais (e também a participação de todos os elementos intervenientes na sociedade) não podem ser vistas como que atribuídas a pelouros a que coubesse, a cada um deles, tricotar o seu quadrado de lã para uma manta de retalhos e depois pretender-se cosê-los a dar o aspecto de uma política global.
E, acrescente-se, as confusões podem ser o meio conveniente para os governos (e não só) quando estes não têm a vontade política necessária, ou não são capazes de resolver as questões prioritárias, ou simplesmente não podem (até incluo esta hipótese benevolente, o que não admito é que deitem poeira para os olhos do país ou queiram fazer da escola o bode expiatório dos males daquele).
Em suma, no post de 5ª feira, eu comecei a escrever apenas na necessidade pessoal de proteger a minha mente de confusões. A minha neta, por vezes, ao brincar na minha salinha de trabalho, ocasiona que eu tenha que fazer o percurso desta para a cozinha com cuidado para não tropeçar nas suas construções de brincar, para não me desequilibrar ao saltar por cima delas ou para não as deitar ao chão. Mas isso é ocasional, o normal é ir sem me deparar com e precaver de "confusões" no caminho, porque o que tenho a fazer não é atingir a cozinha, é sim preparar nela um jantar para os netos (quando se trata deles) saudável, de que gostem e não fique estorricado. E trata-se só desse pormenor do jantar, não se trata de cuidar da saúde e bem estar dos portugueses TODOS nem de diligenciar para que o futuro das nossas crianças e jovens não fique estorricado.

Manias...



Adenda: Depois de escrever fiquei confusa sobre o que são manias e então fui ao dicionário ilustrado...


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    »Mania de não funcionar nem garantir boa disposição antes do ritual do meu café duplo (caseiro, mas de máquina a sério), prolongado por pelo menos 20 minutos (cigarro entre os dedos), pensando.
    *(Quando uma das minhas filhas me telefona calculando haver 100% de probabilidades de já me ter levantado da cama, pergunta sempre, à cautela: Mãe, já tomaste o teu café? E, se acaso respondo que estou a tomá-lo, "foge" com um Telefono daqui a bocadinho, até já. )

    »Mania de deslindar a coerência em tudo e de abolir da minha vida qualquer incoerência que detecto e não consigo concluir que afinal não é incoerência.
    *(Inclui a mania de identificar e evitar faltas de rigor no meu raciocínio - "manias" da matemática?)

    »Mania de barafustar terrivelmente quando me querem obrigar a fazer coisas que considero perdas de tempo.
    *(Adoro fazer algumas coisas que, objectivamente, são perdas de tempo, mas essas sou eu que quero fazer)

    »Mania de deitar fora todos os papéis que não entraram pelo pc.
    *(Excepto alguns anteriores ao pc e outros especiais, associados a um regresso, já avó, aos bancos da escola - que, aliás, procuro dispensar dada a baralhada em que estão no respectivo monte)

    »Mania da independência.
    *(Pois tão cedo teve que causar algumas mágoas a outros a quem queria/quero bem - e a mim também queriam/querem bem -, que talvez seja excessiva, por isso admito incluir uma pontinha na categoria de Manias)

    »Mania de adiar a hora de dormir.
    *(Nasceu de outra mania - a de que o meu cérebro só produz à noite -, a qual originou o hábito de adiar o dormir mesmo sem motivo nenhum, hábito que me faz perder os cheiros e sabores matinais, para já não falar de andar há que tempos sem ver nascer o sol - ou será porque há muitas nuvens a não deixar vê-lo nascer?)

    E agora os cinco bloggers a quem passo o desafio (Vão seis, desculpo-me porque o Rui e a DE LBug têm o mesmo blog):

    Rui - Os (In)Docentes
    The LBug - Os (In)Docentes
    emn - Reflectindo
    ag_silva - Arte por um canudo 2... de Agostinho
    Madalena
    - Chora-Que-Logo-bBebes
    Ana Cristina - Vida de Professor

    E agora... os cinco a quem não deixaria de passar o desafio se o Miguel Pinto não se tivesse já adiantado - fica o desafio em duplicado (também para ele, ora pois, já revelou cinco manias, mas foi ele que me meteu neste "desvendar", pode acrescentar outras cinco!)

    Miguel Pinto - outrÒÓlhar
    Miguel Sousa - Língua de Trapos
    Teresa - Tempo de Teia
    Tit - O canto do vento
    adkalendas - Micómio