Hoje decidi começar pela observação mais directa de todas - a auto-observação. E com uma pergunta a mim mesma: Que efeitos teve a actual política educativa na minha pessoa?...
... Porquê, em dois ou três meses, mudei o meu projecto de vida no tempo próximo?
Em meados do ano lectivo passado soube que tinha todas as condições para pedir a aposentação - soube, mas não liguei, eu queria continuar. Nem ligou a minha escola, onde acham que a idade no meu BI não condiz muito comigo. Nem ligaram filhas e amigos, que não me vêem a ficar inactiva. E continuei a querer continuar, em Julho e em Setembro, apesar das novas medidas para a "educação", mas ao fim de três meses deixei de querer - não ia abandonar as minhas turmas, só por isso é que espero até ao final do ano lectivo.
Claro que a idade pesa, tem seus efeitos, mas não vem para o caso porque, sem percalços de saúde, não há mudanças assim tão grandes em três meses (e continuo sem parar na sala de aula, e isso não me cansa - de aulas mesmo mantenho a redução que a idade e o stress da profissão requerem). Ando cansada por mais horas de trabalho, mas com isso ainda vou podendo (não me couberam tarefas que odiaria fazer sem sentido e, das que tenho na nova componente não lectiva, umas já tinha, embora com direito a redução, outras faço com gosto, têm sentido para mim, tal como todas as coisas que fiz ao longo dos 36 anos de serviço com muito mais tempo voluntário na escola do que o do horário de permanência obrigatória nela).
Qual, então, a causa de ter passado, em escassos três meses, de uma ainda inadaptação à ideia de me reformar para uma inadaptação à de continuar? Percebo claramente que a causa é um clima que vem de fora das escolas e também, mas em menor grau como causa, um ambiente que pressinto nelas de alguma forma afectado por esse clima exterior - não se trata de ambiente no âmbito de relações humanas, nesse âmbito continuo a estar bem, quer com colegas (incluindo os do CE), quer com funcionários auxiliares, quer com alunos (estes estão mais difíceis, mas não é nesse âmbito).
E o clima que refiro... que clima é esse, que vem da governação na educação-ensino, que se propaga através de alguns insuportáveis artigos e debates na comunicação social, e me intoxica? É um clima que, por um lado, me gera a sensação de opacidade impedindo-me de discernir algum trigo que possa haver entre o muito joio, e que, por outro lado, tem geadas e granizos a agredirem a minha inteligência. A minha - será portanto uma agressão subjectiva, cada um tem a que tem, a minha é a que for (mas foi-me servindo pela vida) e até pode andar em crise, ela ou a lucidez. Mas, como estou a reflectir e a discorrer sobre mim, a olhar o que causou a súbita e imprevista mudança do Quero ainda Continuar para o Já não Quero, e não vou pedir outra inteligência emprestada, a que tenho (suficiente ou insuficiente), essa anda mesmo a ser demasiado agredida por facetas de uma política educativa eivada de prepotentes voluntarismos, pela condução do sistema educativo ao sabor de experiências à toa, pela sensação de que neste país de tantos homens e mulheres lúcidos e estudiosos se consente às mediocridades a condenação a um país medíocre.
Não importa muito que não esteja numa fase lúcida, que afinal tenha eu um cisco a mediocrizar a minha própria visão, pois isso é inócuo - não estou em nenhum lugar que influa nalguma coisa significativa, não tenho essa responsabilidade, o trabalho profissional pelo qual sou responsável não tem a ver com isto e esse sei que não o faço mediocremente. Importa sim, exclusivamente para a minha pessoa tal como é, o que sinto. E a minha pessoa não suporta nada imposto prepotentemente, sem diálogo, sobretudo sem explicações visivelmente fundamentadas (fundamentos não são opiniões, não são ideias individuais ou de uns tantos ao sabor do Quero, Posso e Mando - fundamentos são alicerçados em análise, em métodos de avaliação fidedignos, em estudo e conhecimento aprofundado das realidades.
E por esta ponta do fio eu vou a algum lado: Posso andar, estúpida, a avaliar mal a política educativa, mas numa coisa me desbaralho - perceber que não me adapto, que não me acomodo e que, tendo atingido sobejamente a idade de não lutar mais pela escola (pelo menos permanecendo nela), vou mesmo sair do ambiente nebuloso, sempre detestei ambientes nebulosos e já não cabe a mim pegar numa das muitas lanternas necessárias para que a luz desfaça opacidades, exija transparências e penetre nos alicerces a refazer. Numa vida de lutas e teimas, também pela escola e pelos alunos, as lutas e as teimas não acabam (sob pena de a pessoa acabar por dentro antes da hora de acabar por fora), mas a profissão tem um tempo, e estes meses do corrente ano lectivo fizeram com que esticá-lo, entre o limite de direito e o limite obrigatório, passasse, de desejo e gosto, a ser masoquismo.
Motivo só subjectivo? Se se verificar que sim, ainda bem para os que ficam e ainda bem para os alunos deste país - terá sido só um mau e infeliz ano. De qualquer modo, ficará o facto de que muitos (não só eu) estão a decidir ir embora por causa dele, apesar de, na maior parte, isso implicar prejuízo monetário para o resto da vida (o que não é o meu caso).
Serão mesmo os que já não fazem falta?