sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Porque desejo já bom fim de semana

Quando se anda a ter que eliminar temas sobre política educativa, escola ou professores das conversas com os maiores amigos não professores (ou professores do ensino não "inferior"), os fios emaranham-se ainda mais e a cabeça fica a doer.
Que nos anda a acontecer? Para os amigos somos, claro, excepções, mas afinal porquê? Porque nos conhecem, mas não conhecem as escolas? Porque, sobre elas, sabem algumas verdades que nós também sabemos, mas conhecem só essas? Porque...?

De uma coisa tenho a certeza: se quiser ajudar um aluno incompetente a tornar-se um aluno competente, não o conseguirei se começar por lhe chamar incompetente. (Julgo que "aluno" é só um exemplo do que quero dizer, ou estarei enganada no que quero dizer para além dos alunos?).

Neste momento a quente sobre o que me levou a escrever as duas primeiras linhas (a quente, mas já tem havido outros em que um diálogo toca o agreste jamais antes possível) quero entrar em fim de semana, não quero durante ele pensar nem 99 vezes nem uma só nos referidos temas, não para mergulhar no silêncio em que a verdade é revelada pois não sou Einstein, mas para ir fazer apenas umas futilidades, depois um programa com os netos no domingo, e... reler também um dos poemas (em poema ou em prosa) de Vinícius sobre a amizade... ou talvez só algumas linhas... talvez daquele que está ali... e não só reler algumas dessas linhas, pensar também que Amigo...
...Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. (...) Não é preciso que seja de primeira mão (...) Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. (...) Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grande chuvas e das recordações de infância (...) contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. (...) (Vinícius de Moraes)

Entretanto, bom fim de semana aos amigos daqui... (leia-se da blogosfera).

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Do silêncio...


Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio, e a verdade me é revelada.
(Albert Einstein)


Livio Benedetti, Elegie du silence

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Adenda

Escrevi o post anterior na escola. Não tive uma aula, a turma fora escolhida para dar apoio no Corta Mato concelhio hoje realizado, onde participavam, claro, alunos da escola.
(Já agora, aproveito para dizer que o "meu" V., de que falei há dias a propósito de "despachar os repetentes", era o 1º dos cinco seleccionados na categoria Juvenis e ficou em 8º lugar - não dá para ir ao distrital, mas foi um bom lugar :) - ó colegas de Educação Física, eu não percebo nada do assunto, mas estou bem informada porque não deixo que esqueçam de me dar as notícias para o site da escola, e em tudo que é campeonato ou concurso os putos classificados adoram e merecem ver o seu nome na net).
Mas, dizia, escrevi na escola e depois é que me lembrei que a melhor resposta para disparates é o silêncio (já o dizia alguém).
Estou cada vez mais com o sentimento de que não me apetece escrever. Temporariamente. Não é desânimo, mas é capaz de ser cansaço de andar a querer ter paciência até se vislumbrar mudança neste mau ano escolar no nosso país.

Por correio electrónico...

... decide-se sobre direitos constitucionais, mexe-se em conquistas de Abril, atrevem-se o sr. Director Regional de Educação de Lisboa, o Senhor Joaquim Barbosa (autor da mensagem) e a srª drª Júlia Araújo (assessora jurídica), a alegar o entendimento que tinham da lei sindical para resolverem enviar às escolas por um emailzito o seu entendimento de que os professores (da DREL) não poderão participar ao abrigo da lei sindical em reuniões sindicais fora da sua escola, como se também tivesse sido coisa análoga a mero emailzito o processo de aprovação da nossa lei sindical.

Os direitos sindicais dos trabalhadores em geral. consagrados na Constituição da República, encontram-se definidos no Decreto-Lei n.º 215-B/75, de 30 de Abril, tendo sido aplicados aos trabalhadores da Administração Pública até à aprovação da lei especial para os mesmos (naquele prevista): o Decreto-Lei n.º 84/99, de 19 de Março de 1999 , cujo preâmbulo bem mostra não se tratar de legislação a poder ser mexida ou "relida" por uma qualquer direcção geral, nem por um ministério da educação. Nesse preâmbulo se descreve o processo:
"(...) Inserindo-se a matéria na reserva relativa de competência da Assembleia da República, a esta o Governo submeteu a necessária proposta de autorização legislativa. Após alargada discussão pública (...) E assim (...) é aprovado o presente decreto-lei, que assegura a liberdade sindical dos trabalhadores da Administração Pública e regula o seu exercício, garantindo, desta forma, o direito constitucionalmente reconhecido a todos os trabalhadores."

[Direito "a todos os trabalhadores", neste Decreto-Lei especificamente referido a todos os trabalhadores da Administração Pública, nos quais se incluem todos os professores do ensino público. Mas o "entendimento" dos referidos senhores determina uma proibição para os professores abrangidos pela DREL... não enxergam esses senhores que não são mais que uma direcção geral regional de um ministério da educação a mexer na prática em toda a Administração Pública, nunca questionada à luz da lei??? Ou sou tão estúpida, tão estúpida, que não consigo vislumbrar no tal email mais do que atrevida acefalia, numa cega obsessão de evitar grande discussão na revisão do ECD?]

P.S. De ler, no
Decreto-Lei nº 84/99, o artº 27º, que consagra o direito ao exercício da actividade sindical no local de trabalho, e o artº 29º, que confere outro direito: " 1 - Por motivos excepcionais, as associações sindicais, ou os respectivos delegados, poderão convocar reuniões dentro do horário normal de funcionamento dos serviços. 2 – Cabe exclusivamente às associações sindicais reconhecer a existência das circunstâncias excepcionais que justificam a realização da reunião" (não sendo mencionado local) .

terça-feira, janeiro 31, 2006

Eu e o meu novelo

Continuo a precisar de pegar numa ponta da meada e depois seguir devagar, isto é, preciso de reflectir antes de voltar a escrever (opinar) sobre o estado do sistema educativo. Mas constato que a minha reorganização do tempo deu em desorganização, ou então, o que acontece simplesmente é que ando sem tempo para parar um pouco. Pensar... isso o pensamento não pára, mas o que precisava era de pensar devagarinho para não me precipitar - já nem falo de ir procurar documentos para tornar mais presente na memória a sequência de certas reformas, reformazinhas e medidas avulsas (mas nada insignificantes) nas recentes décadas de "prioridades" para a educação-ensino.

Sobre a próxima revisão do nosso ECD, as minhas apreensões começam nas motivações da Srª Ministra para a fazer, mas como se deve dar o benefício da dúvida mesmo quando o que parece... até parece mesmo, estou a conter os meus dedos nas teclas, indo soltando-os apenas em comentários avulsos noutros blogues, sobre este ou outros temas.
Mas sugiro vivamente a participação no debate que o Miguel Pinto lançou aqui.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Todo o tempo é semente

Grant Wood, Seed Time
_______________________________

Todos os bosques e todas as florestas foram destruídas,
assim como todos os jardins
e todas as obras de arte.

E os seres humanos limitaram-se a ficar sentados
sem nada fazer.

Um dia uma rapariguinha que nunca tinha visto uma flor
viu, por acaso, a última flor do mundo.

Um dia uma abelha visitou a flor,
e depois veio um passarinho.
Em breve apareceram duas flores, depois quatro
e depois muitas flores.
(Excertos de A última flor - James Thurber)


(do original, 1939)

Senti algum desânimo nas últimas palavras - "Tirem-me deste filme" - deste post. Às vezes também me apetece dizer Tirem-me deste filme!, e, nalgumas dessas vezes, no filme a que me refiro o estado da escola até é só um pequeno documentário de abertura ao filme principal, com temática mais funda.
Mesmo assim, o desânimo que me pareceu ler - e embora o tome como momento fugaz - fez-me ir a um blogue, onde não ia há mais de dois meses, procurar algo que sabia que havia de encontrar por lá, posto num desses momentos em que quero dizer ao desânimo Vai-te, diabo, que t'arrenego! E foi de lá que trouxe isso que está no meu post de hoje. (Não roubei nada, - é um cantinho onde vou raras vezes só para colocar uma espécie de metáfora que solte algum pensar de momento comigo mesma, ainda não fiz clic no delete your blog, mas mantenho-o "apagado").

P.S. O Miguel Pinto, a quem hoje dedico especialmente este post, é um óptimo descobridor na blogosfera, mas desta vez... livra-te, Miguel, de ires descobrir o tosco do mencionado bloguezito!!!

Adenda: Acabei de ler um post do Miguel Sousa (ele sabe qual), ainda venho a tempo de estender a dedicatória especial - Miguel, aqui fica a minha singela dedicatória também para ti.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Porque parece o tempo passar cada vez mais depressa? ;)

"Acho que ando a precisar de recuperar a ponta da meada e depois seguir devagar um só fio condutor" - escrevia eu há poucos dias. E...
" Do que ando a precisar é simplesmente rever e repor as minhas prioridades nas 24 horas de cada um dos 7 dias da semana" - escrevia eu também uns dias antes desse. Mas há tarefas e compromissos do dia a dia que também são prioritárias, e o dia, os dias, as semanas passam a correr, mudar de ambiente mental requer programar coisas diferentes que caibam no tempo dos dias, e lá vêm os mil pretextos: hoje estou cansada, está tanto frio, não combinei a tempo, não me sobrou tempo...
Entretanto, a verdade é que, para recomeçar pela ponta da meada do pensamento a fim de seguir um só fio condutor, preciso de primeiro esvaziar a mente do emaranhado de fios. E, esvaziar a mente deles é levá-la para ambientes onde se encha da visão de uma paisagem, da melodia de uma orquestra a tocar uma das peças que a genialidade nos legou, enfim, ambientes de magia e diferentes das rotinas.
Dizemos que o tempo parece que cada vez passa mais a correr... sobre isso, entre os PPs que me chegam à caixa do mail, encontrei um com uma ideia engraçada. Resumindo a ideia: Parece que o tempo acelera quando ficamos mais velhos e que os natais chegam cada vez mais rapidamente porque, quando se começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida; conforme envelhecemos, começam a repetir-se as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios...enfim, as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que o dia pareça ter sido longo e cheio de novidades) vão diminuindo.
Chamei ideia engraçada, porque não sei se isso de a mente apagar as experiências repetidas terá alguma base científica [riso]. Mas, que a quebra de rotinas (rotinas que não têm que ter sentido pejorativo, podemos fazer todos os dias as mesmas tarefas sem as fazermos rotineiramente) fazendo coisas diferentes que nos entusiasmem ou encantem é de facto viver mais no mesmo tempo, isso é.
Em conclusão, posso matar dois coelhos numa só cajadada, como se costuma dizer: esvaziar a mente dos emaranhados mediante pequenas fugas para ambientes diferentes e ... viver mais! Afinal as pequenas preguiças, como ficar no quentinho da casa com o pretexto de que está frio ou a chover, também são preguiça de viver mais? (Até parece que não sabia já isso, mas a gente vai inventando que não sabe).
O melhor é aproveitar o momento de pico de consciência para desejar um resto de semana de bom trabalho e um bom fim de semana, não vá eu reprogamar já o resto da semana até domingo...
(Será?... Ou só blá blá blá?)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Passando para outra matemática

Agora que acabou a matemática das sondagens e projecções, vai um post que me apetece colocar desde que a Teresa me fez ter saudades de ensinar 2º Ciclo (que ensinei durante grande parte da vida). Saudades, porque (transcrevendo o que já disse num comentário) é nessa idade que a gente descobre a verdade dessa frase de Freinet que tenho aí em cima em jeito de lema do blogue. Com os adolescentes, agora fica mais difícil, não por serem adolescentes, mas porque continuo a achar que a sociedade anda a tirar as "magias" a esta geração de putos.
Eles podem gostar de Matemática, podem, sim! E, para repetir isto (porque é preciso repetir e repetir, contra as ideias de Matemática-Papão que tantas vezes já trazem para a escola, algumas vezes transmitidas até por familiares que guardam má recordação dela), para repetir isto, dizia, não vou escrever nenhuma memória, vou só "roubar" uns excertos de dois testemunhos alheios. Não pedi autorização, mas penso que as autoras não se vão zangar.

"É urgente e importante reflectir sobre o insucesso na matemática. Pessoalmente custa-me muito entender a aversão/má relação com esta disciplina. Gosto de matemática e gosto de ajudar os alunos a gostar também. Era para mim muito gratificante ouvi-los dizer entre si "afinal isto até é fácil". Era fácil porque num ambiente disciplinado mas descontraído eles iam descobrindo e construindo o seu próprio saber, dialogando com o grupo. Partilhando conhecimentos e ideias iam ganhando gosto pelos desafios propostos, confiança em si próprios, modificando a sua relação com a Matemática e, não menos importante, cimentando amizades e aprendendo a ser solidários." (De m.n., com quem trabalhei lado a lado vários anos - comentário deixado no meu post de 23 de Setembro)

"Quando hora e meia passa depressa e se ouve (sabe tão bem ouvir) “O quê? Já?”. Quando a Matemática passa de filme que nos aterroriza, a filme de aventuras preferido, onde queremos entrar como actores. Quando o Miguel, sorrindo misteriosamente, comunica à turma ........ Quando o António....... Quando a Rita.......... Quando a Cátia.......... Quando o João corrige erros no Manuel........... Quando a Maria (a repetir o 5º ano, e que diz muitas vezes de si própria que é burra) ultrapassa autonomamente as dificuldades de procedimentos de cálculo, depois de lhe ter sido finalmente provado que ela era inteligente e capaz de resolver problemas complexos... só se enganava nas contas..........Quando os dedos se agitam no ar para explicar, para perguntar... Quando já não se desiste das tarefas.......
Quando........... "
(Retalhos deste post da Teresa, creio que foi o primeiro que li quando descobri o seu blogue)

domingo, janeiro 22, 2006

O dia...

...será de silêncio também - durante ele, às 19, às 24 h.
Este cantinho é para todos os que o queiram visitar e partilhar. Une-nos a Escola, os Alunos, e, nesse elo, interrogações, perspectivas ou propostas diferentes, mesmo discordantes, são o pão que alimenta a discussão, são os desafios a este grande desafio que está a ser pensar A Escola.
É um blog bem definido, memórias circunscrevem-se, directa ou indirectamente, só às de professora. Mas na minha vida, agora já tão constituída por desenrolar de memórias, houve outras causas (há, pois mesmo quando algo inactivas, permanecem), outras lutas, para fora da escola, vivendo o país e o mundo. Isso, de vez em quando aqui perpassa apenas num pensamento ao de leve, discretamente, mais em metáforas com que falo só comigo mesma.

Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes

Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

Sophia de Mello Breyner Andresen, Instante

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Antevéspera

Os meus netos deram-me flores, tenho a salinha cheia de margaridas.
Mas ouvi dizer que já houve uma sondagem, que o que se vende mais são flores de plástico, perdão, queria dizer flores artificiais. O seu fabrico tem sido tão aperfeiçoado que muitos já nem distinguem. Uns, as vendem em vasos com terra para ainda parecerem mais verdadeiras, outros, as compram para eles mesmos as porem em casa nos vasos - os primeiros para que as pessoas percam a mania de regar flores, os segundos para não terem o trabalho de as regar.
Entretanto, restam os que regam dia a dia as flores dos seus jardins e guardam entre duas páginas de um livro especial aquela especial que num dia especial receberam.
________________

Há homens que são capazes
de uma flor onde
as flores não nascem.
Outros abrem velhas portas
em velhas casas fechadas há muito.
Outros ainda despedaçam muros
acendem nas praças uma rosa de fogo.
Tu vendes livros quer dizer
entregas a cada homem
teu coração dentro de cada livro.
Manuel Alegre, Livreiro da Esperança - a Felisberto Lemos

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Fios emaranhados

L. W. Hal, Child with Yarn

Depois de pensar em teias (e outras teias diferentes), é tempo de me deter numa sensação que de vez em quando me vem - a de um emaranhado de fios dentro da minha cabeça. Demasiados pensamentos a cruzarem-se, de vez em quando também pensamentos vindos lá de fora, daqueles que batem na cabeça e me lembram que é previdente comprar um capacete protector.
O exterior, o real, é complexo e contraditório, uma filosofia sobre a vida (creio que qualquer uma) fica com buracos e uma pessoa tem que andar frequentemente a coser a sua.
E os pensamentos que se cruzam às tantas emaranham-se, e puxa-se um que serena, e vem outro que nos zanga, e num dia escreve-se porque a mente está cheia do que nos encanta, e no outro já se escreve porque ao longe se vislumbram corujas e abutres e ao perto cabeças curvadas. Entretanto, este oscilar do estado de espírito desagrada-me, acho que ando a precisar de recuperar a ponta da meada e depois seguir devagar um só fio condutor - um só, o mesmo sempre, ainda que com nós para desatar.
Difícil!
Se calhar é mesmo preciso pegar em fios contraditórios e empreender atá-los para perceber a unidade daquela pessoa que estranhamos ter um a sair de cada orelha em direcções divergentes, para percebermos o ponto de coerência do real cheio de fios a apontar para horizontes opostos, um com o sol a nascer, outro com a noite a escondê-lo, outro..., outro... e mais outro... a atrapalharem a percepção do sentido em que o novelo deles todos se desenrola.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Já somos mais...

Tempo de Teia: um blogue recente que descobri hoje (graças ao Miguel Pinto, sempre atento). E também mais um (uma, neste caso) colega de Matemática - não me levem a mal o duplo regozijo, depois de termos tido um lugar destacado no banco dos réus é natural o prazer de encontrar mais testemunhos do gosto de ensinar Matemática e, sobretudo, de que esta não tem que ser disciplina "papão".

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Pensando (ou sentindo)...

Mas é melhor pensar que ontem foi domingo :)

Ron Stephenson
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...a política educativa













David & Goliath Gallery




...prepotência a pairar (mas sufocar, já me bastou noutros tempos)










C. D. Friedrich, Woman with a cobweb between leafless trees





...a política mundial













Ed Vidal, Cobweb

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Da minha leitura no serão de ontem

Li quase de ponta a ponta o 1º número da nova revista sobre política educativa, Pontosnosii, cujo anúncio também recebera no mail. Há opiniões sobre vários subtemas, e opiniões não deixam de ser provocadoras de pensamento, pontos de vista contribuem para que este não permaneça estanque sobre as questões que nos tocam ou preocupam. Mas, nesta como noutras publicações, mesmo separando de opiniões pouco ou nada sólidas outras mais sólidas, estas últimas não deixam de ser o que são: opiniões. Assim, o que eu mais destacaria no que li é uma frase, logo no editorial, pois ela tem implícito um princípio que não é uma questão de opinião, mas sim inquestionável - a necessidade de fundamentação. "Continuaremos a aceitar comodamente que opções determinantes para o futuro dos nossos filhos e da nossa terra sejam tomadas pelos «tudólogos», (os que sabem tudo e de tudo) que não sentem necessidade de fundamentar coisa alguma?"
Fundamentar... eis a questão, o princípio. De qualquer equipa ministerial espera-se responsabilidade e rigor intelectual, espera-se que as opções sejam tomadas depois de fundamentadas. E fundamentos são estudos, conhecimento, procura, inclusivamente, de experiências internas ou de outros países para análise das bem sucedidas e não repetição das que provaram ineficácia. E fundamentos requerem recurso a colaborações especializadas e validadas, isento de favoritismos nas irmandades de cores político-partidárias. Espera-se ainda não precipitação, ponderação das realidades a que se vão aplicar as opções, pesagem também de efeitos que possam reverter em consequências negativas o que potencialmente comporte resultados positivos.
Qualquer equipa ministerial que mexa em coisas tão fundamentais como a educação, a formação e o futuro das nossas crianças e jovens, começará por ser imaturamente atrevida se não se nortear por tais princípios. Passará a ser irresponsável se, ao traçar directivas ao trabalho dos profissinais de ensino, passar por cima dos saberes e experiência existentes nessa profissão (profissão, não apenas teoria sobre ela). E passará finalmente a ser culpada se desprezar os referidos princípios quando pretender ir mais longe e mais fundo que meras medidas avulsas e reversíveis ou corrigíveis - pois ir mais longe e mais fundo sem esses princípios leva a que cobaias de reformas se tornem irremediavelmente vítimas das mesmas.
Mas, aqui como pelo mundo, a classe política tem o privilégio da impunidade, pelo que nos resta esperar seriedade, fundamentação fidedigna, e também uma coisa simples que se chama bom senso.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Mudando de assunto... (recebido no mail)

O choque tecnológico

Aos "Engenhocas" - Uma memória (II)

(Continuação do post anterior)
O investimento (e desafio) na preparação das actividades do final do 1º Período foi na colocação nas mãos dos Engenhocas todas as tarefas de organização das mesmas.
O torneio de futebol, com a colaboração de um colega de Educação Física, teve participantes de todas as turmas - já não me recordo da metodologia, só me lembro que mobilizou várias e numerosas claques.
Para a quermesse (também uma ideia deles), angariaram nas turmas muitas ofertas de objectos vários, pedidos sob alguns critérios e todos registados num caderno. E a véspera, uma tarde a entrar pela noite, é uma das memórias mais marcadas que guardo da minha vida profissional. O Agostinho era o mais problemático, porque tinha com frequência, nas aulas, súbitos assomos de comportamento perturbado. A directora de turma apenas possuía um relatório médico vago, falava-se de uma suspeita de sintomas de esquisofrenia, mas ao certo nada se conseguia saber por parte da família. Por isso duvidámos do seu pedido de liderar a organização final da sala da quermesse, por isso começámos a observar com olhos incrédulos a sua iniciativa activa na marcação dos objectos, no registo organizado por categorias, na distribuição de tarefas incluindo o enrolamento de rifas, na meticulosa disposição segundo os critérios estéticos dele - que originaram uma grande mesa vistosa e apelativa. Preocupou-se também com folhas de registo para a caixa do dinheiro a entrar. (A verba que se obtivesse destinava-se a um melhoramento na escola que já não recordo qual foi). Em suma, a capacidade de organização do Agostinho foi uma revelação inesquecível e um espanto para os seus profesores quando a descrevemos.
A quermesse decorreu com sucesso e terminou em divertida animação decorrente da ideia de outro Engenhoca de leiloar os últimos objectos - fez rir professores e encarregados de educação e assim conseguiu despachar as sobras todas.
Não faltou, nas actividades do dia, uma visita à sala de professores, com discurso de votos de boas festas e distribuição de cartões.
Por último, um pormenor que faz sorrir: os nossos rapazes, habitualmente dos que maior vigilância requeriam no recreio, lembraram que ia haver visitantes, que era preciso assegurar a segurança e vigiar os alunos à solta para não haver perturbações, decidindo escalonarem-se para a vigilância (funcionários e professores que não se preocupassem...).

P.S. Integrar na escola pode não chegar a significar integrar na escola das aulas ou da maioria das aulas, aumentar o trabalho nalgumas destas e não ter atritos com professores. Trata-se de adolescentes à partida desconfiados dos adultos, que permanecem "de pé atrás", e os rótulos com que os professores os conhecem fazem que também alguns permaneçam de pé atrás, o que torna, nesses casos, o conflito ou atrito sempre à beira de acontecer.
Mas eles terminaram nesse ano o 2º Ciclo, já perto do limite da idade da escolaridade obrigatória, obviamente que houve atenção ao caminho que iam seguir, tivemos inicialmente notícias de todos, depois perdemo-los de vista.
Confio que experiências de valorização, em que sobretudo tenham oportunidade de se sentirem valorizados aos seus próprios olhos, não são inúteis.

Aos Engenhocas: Que, estejam onde estiverem, nenhum ande perdido, que todos estejam bem.

Aos "Engenhocas" - Uma memória (I)

Terá sido logo pelos princípios da década de 90, a minha escola ainda não tinha 3º Ciclo. A Ana e eu costumávamos estar metidas nalgum projecto conjunto, mas esse foi o mais "louco".
Apresentámo-lo no Conselho Pedagógico no final do ano lectivo anterior, que o aprovou apesar de, definido o habitual - finalidade, objectivos, etc. -, assumir, em vez de um plano de trabalho a desenvolver, que tinha precisamente que partir de um plano totalmente em aberto. Tratava-se de uma iniciativa com um grupo de alunos que seleccionáramos como os mais "cadastrados" da escola - alunos repetentes, com pelo menos um processo disciplinar decorrido, problemáticos nas aulas e nos recreios. Ganháramos para o projecto mais duas colegas e a disponibilidade de um colega de Educação Física para eventuais (mas previsíveis) iniciativas desportivas.
No início do ano lectivo, os nossos rapazes receberam cada um um convite para uma reunião que, aliás, foi a única que decorreu com todos conseguindo permanecer sentados, ao princípio timidamente disciplinados, depois de se terem olhado e decerto percebido mais ou menos o critério de escolha, mas sem se pronunciarem sobre isso, até porque apresentámos logo a nossa ideia: Formarmos um grupo que fosse tendo ideias e iniciativas para animar a escola e, dentro do possível, tornar também mais agradável o seu aspecto físico; era um convite, a adesão seria voluntária, dissemos que pensáramos neles por serem dos mais velhos, portanto mais capazes de corresponderem à nossa ideia.
Todos aderiram, eram 13, nenhum era nosso aluno (se a memória não me falha, isso foi mesmo um critério nosso). E logo decidiram não sair da reunião sem um nome para o grupo, o qual, depois de algumas propostas (deles, claro), foi aprovado de imediato por unanimidade como "Os Engenhocas" quando um deles o sugeriu. Combinámos também organizar um correio - que veio a ser um folheto com o respectivo logotipo, que deixávamos no porteiro com marcações de encontros gerais ou parcelares, notícias do decorrer das iniciativas, respostas do CD a propostas que vieram a fazer, etc. Ficaram ainda esboçadas nessa reunião pequenas primeiras iniciativas, definidos os encarregados das mesmas e marcados encontros, para melhor definição delas, com, respectivamente, uma de nós quatro (professoras).
Guardo para próximo post o único relato que farei para não me alongar demasiado - uma daquelas memórias que jamais se apagam: o segundo dos dois dias de actividades de final de 1º Peíodo, no âmbito das festividades de Natal, habitualmente realizando-se num só dia com paragem das aulas, mas dessa vez em dois porque o segundo veio a ser aprovado como "a cargo" dos Engenhocas face ao plano e à preparação havida.
Mas ainda conto qual a convicção que nos levou a este projecto (convicção que sei que é partilhada por muitos professores): dê-se-lhes responsabilidades, confie-se quando afirmam que as aceitam, e eles superam-se e revelam-se.

P.S. Lembro-me muitas vezes dessa experiência com os Engenhocas, não deixaria de aparecer neste meu cantinho de memórias, mas (há uma hora atrás, constipada e a tomar medidas preventivas de gripe, até tencionava não escrever nos próximos 3 ou 4 dias) não será que me pus agora a escrevê-la por ter na mente as projectadas turmas de repetentes?

terça-feira, janeiro 10, 2006

Em jeito de adenda (não me peçam para explicar porque me veio esta imagem)

Baron Wilhelm von Gloeden (1900)

Despachar os repetentes...

James Meyer, drifting youth

Pelo
despacho normativo nº1/2006 se despacharão os repetentes, só incomodam, que o que incomoda é a taxa de insucesso a dar tão má imagem do país...

O V. é meu aluno do 9º, conheci-o este ano, um adolescente já com 16 anos (não deve estar muito longe dos 17). Pelo que me disseram, não terá tido comportamento exemplar no seu passado escolar, e pela idade logo se vê que algumas vezes "chumbou". Mas mudou. Damo-nos bem, percebe-se que é um adolescente que não está completamente fora de risco, mas já repensa a vida e pensa no futuro. Nem teve plano de recuperação, numa turma em que houve 16 planos em 25 alunos. Começou pouco crente na Matemática, mas ganha a confiança e como cabecinha não lhe falta, singrou e o nível que justamente lhe atribuí no final do 1º Período foi aquele 3 que costumamos indicar ao aluno e ao director de turma como 3+.

Que teria feito ao V. o despacho que vai pôr em turmas de repetentes, com currículos alternativos, alunos até aos 15 anos com insucesso escolar repetido?

sábado, janeiro 07, 2006

Pormenor(?) no sucesso escolar na Finlândia

Os factores que parecem estar por detrás do sucesso da Finlândia no PISA de 2003 (resultados publicados em Dezembro de 2004) estão resumidos neste post do blog Os (In)Docentes, podendo ler-se os desenvolvimentos pelos links também nele colocados, pelo que não vou retomar o tema aqui. Quero apenas dizer que notei um pormenor:

"Peruskoulu – The primary school
Finnish children start school in the year that they turn seven years old. Since 1996, pre-school education has been required for all children after the age of six. The question of whether children should enter school earlier is no longer a matter of discussion."

Quando, há anos, passou a ser permitida entre nós a entrada no 1º Ciclo a crianças ainda com 5 anos, argumentou-se, a quem discordou, que não era obrigatório, era só uma permissão, ficando as famílias com liberdade de decidir. Mas são minoritárias as famílias que saibam equacionar a questão, nem têm que saber. Além de que o caso do meu neto é um bom exemplo de que não adianta ter a noção de que será vantajoso não entrarem tão cedo. Ele faz anos em Dezembro, e a decepção e o desgosto que percebemos se visse os seus coleguinhas da pré-primária seguirem para o 1º ano e ele não teve que anular a intenção que se tinha anteriormente.
Sem adiantar mais, fico pela pergunta: a norma na Finlândia será apenas um pormenor pouco relevante no âmbito dos factores que concorrem para um menor insucesso escolar? (Sempre que senti oportuna a pergunta a bons alunos, entre os 6º e 8º anos, que vi com dificuldades e até a ficarem aquém dos resultados a que aspiravam e para que trabalhavam, com quantos anos entraram no 1º ano, a resposta foi sempre a que esperava: com 5 anos)

sexta-feira, janeiro 06, 2006

...


para onde
nos atrai
o azul?

Guimarães Rosa













Kandinsky (1909), Blue Mountain

Regresso à tranquilidade

Quando pus este blogue "adiado" acho que estava a precisar mesmo de chegar ao cume de uma crise que, subterrânea, terá decorrido nos últimos meses. Porque as crises são muitas vezes necessárias para os saltos qualitativos para o outro lado. É caso para dizer: Ainda bem que...
- que terminei o 1º Período lectivo irritada com o panorama de uma ratoeira de burocracia em que as escolas se deixaram cair;
- que mais me cansei do que descansei numas férias de andanças dentro do pc e com ele às costas;
- que essas condições foram propícias a que uma gota fizesse transbordar o cálice da zanga logo no primeiro dia de regresso à escola.
Como já disse acima por outras palavras, tranbordar às vezes é necessário, é o tal cume que gera o desequilíbrio necessário à equilibração.
Andar a ser insultada como professora pelos acólitos da srª ministra já foi um osso muito duro de roer, mesmo voando os rótulos de irresponsabilidade e incompetência para as suas testas.
Mas mais difícil ainda foi sentir as minhas memórias desta profissão apaixonada em risco de ficarem soterradas numa recta final em que, ao fim de um percurso de 36 anos, pior que ver tudo na mesma é ver a bater no chão um sistema educativo que só não se foi desde há anos degradando ainda mais graças aos professores. Mas eu até sei (ou acredito) que também é preciso bater no fundo para haver revoluções - verdadeiras mudanças ou tranformações.

E para decidir que não tenho mais paciência para esperar e me vou embora JÁ... era preciso que tivessem deixado de existir eles - o motivo de termos querido ser professores, bem diferente dos motivos de se querer ser ministra da educação. (Além de que - questão logo em segundo lugar, pois a primeira é aquela a que acabei de aludir - alterar planos de vida por pressão exterior, mesmo que planos de prazo limitado, seria derrota. Decidi não me aposentar para o fazer quando EU achar que é altura de outro plano de vida - planos de vida só terminam no último dia - e assim espero fazer, mesmo que com ataques de zanga de vez em quando).

E termino este escrito com palavras de um dos últimos comentários que aqui me deixaram:

"Ter como prioridade o que realmente vale a pena... o que realmente é importante: a Vida! E manter o espírito aberto à possibilidade de que vale a pena ser professor... apesar de tudo o resto..."

(Um
comentário bem oportuno, Tit, mesmo tendo já eu reposto em equilíbrio as minhas prioridades!)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Prioridades II




Uma boa vida tem como base o sentido do que queremos para nós em cada momento e daquilo que, realmente, vale como principal.
Guerdjef

Cláudio Bravo

Sugestões de leituras

- Aqui, do Inquietações Pedagógicas.
- Aqui, do Reflectindo.

Prioridades

Bem, do que ando a precisar é simplesmente rever e repor as minhas prioridades nas 24 horas de cada um dos 7 dias da semana. E, para mim, prioritário é...
- Acordar de espírito disponível, inclusive com vontade de estar com os alunos e, quando é preciso um raspanete geral, o fazer sem por dentro estar zangada - o que eles mesmo inconscientemente distinguem e até faz o raspanete ser ouvido com mais vontade de o levarem a sério.
- Distanciar-me ou alhear-me de ambientes de interesses, ou de imobilismo, ou, e sobretudo, de nebulosidade, e também de chuvadas de despachos e ofícios cretinos - que mesmo que estes tenham consequências irremediáveis (pelo menos a curto prazo), enquanto a chuva não pára só há que procurar chão seco.
- Proteger a tranquilidade das horas para que não haja telefonemas a amigos a adiar sempre para amanhã por falta de tempo.
- Não esquecer de ir vendo no jornal se vai passar um filme, uma peça de teatro ou um concerto a não perder.
- Não inventar cansaço ou stress para faltar ao ginásio - mas, repor a segunda prioridade indicada será suficiente para respeitar esta.
- Deitar a horas de ler o livro há uma semana marcado na mesma página.
- Pensar durante um dia antes de estrilar, em vez de pensar durante um minuto - ou pensar cinco minutos se vale a pena continuar a pensar ou se é caso que não vale a pena incluir em incómodos ou stress.
- Continuar a manter as minhas intocáveis liberdade e independência - aqui trata-se só de continuar, pois nunca tive medo nem abri mão de as preservar.

E, por agora, são as prioridades que me ocorrem - prioridades do quotidiano, pois as grandes da vida não mudam, mudam só conteúdos devido a novas circunstâncias, mas isso são ajustes, não são mudanças na linha essencial.

(Claro, há outras prioridades quotidianas, só mencionei as que têm andado descuidadas - e espero cumprir bem uma provisória, pois tenho uma nova aluna de sete anitos para que não se atrase na escola a que não vai poder ir durante as semanas de pernita engessada)

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Blogue adiado...

... tempo de decisões.
(A razão pode ser percebida no meu último comentário neste post do Miguel Pinto).

domingo, janeiro 01, 2006

Adenda

Trunk of an old yew tree

Van Gogh (1888)

1º dia de 2006... um momento pessoal

Excepcionalmente, um escrito não profissional, sim pessoal - mas não privado, que a existência dos meus netos com uma bisavó de 93 anos é pública na minha escola, como vai ser lá público que a minha neta de 7 anos fracturou uma perna neste primeiro dia do ano, quando amanhã me perguntarem se entrei bem nele.
Acidentes destes, bem como as habituais doenças infantis, fazem parte da infância, não são graves. Obrigam é a malabarismos na organização da assistência quando, como no caso, a curta família que vive próxima trabalha - e a mãe, que não é professora ou funcionária pública para ter direito a faltar para a assistência, até não sofreria, sem esse direito formal, qualquer penalização por faltar (a empresa onde trabalha não é desumana), mas acontece que essa solução seria caótica no trabalho que dela depende.
Mas há um quarto elemento da família vivendo próximo, a bisavó de 93 anos, ainda apta para contribuir para a organização que se impõe. Por isso, hoje escrevo para deixar:

À minha mãe, a minha homenagem e o meu pedido ao novo ano de 2006 que lhe conserve a mesma saúde e as mesmas forças (que, já frágeis, são ainda notáveis para a idade) que o ano de 2005 lhe conservou.

sábado, dezembro 31, 2005

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Adenda

O tema abaixo ocorreu-me ao saber ontem das intenções da Ministra da Educação de obrigar as escolas a elaborarem um plano anual de actividades para as TIC. Deixei um comentário no post do Miguel Pinto sobre o assunto. Mais papelada???!!!

A propósito das TIC

Embora seja difícil disponibilizar salas na minha escola, esta tem duas equipadas com computadores. A segunda deveu-se ao investimento do ME por causa da nova disciplina no 9º ano (e 10º), mas a primeira existe há bastante tempo, desde que obtivemos 8 computadores novinhos, mediante candidatura sob projecto. (Ao falar aqui de computadores na escola, refiro-me a computadores para trabalho com os alunos). Desde então, aliás, o 6º ano tem uma disciplina de iniciação, integrada no currículo obrigatório, graças ao tempo que a escola dispõe para ofertas curriculares, funcionando em desdobramento (metade da turma em cada meio tempo de um bloco).
Era ainda o tempo em que boa parte dos professores não estava sensibilizada para a introdução do computador na sala de aula - ou seja, para deslocar turmas para a sala de informática, que para termos as salas de aula equipadas com computadores ainda devemos ter que esperar pelo menos um decénio (só??). Excepto os mais jovens professores, a grande maioria sentia-se ultrapassada por novas tecnologias que não sabia utilizar. Fazendo eu parte daqueles que não se deixaram ultrapassar, foi-me então fácil, nos pedidos de horário, conseguir que qualquer das minhas turmas tivesse garantido um tempo de Matemática com a sala dos computadores disponível para requisição quando necessitasse.
Além de outros objectivos nas actividades no computador, tornou-se meu hábito incluir de vez em quando apenas a intenção de dar um certo carácter lúdico a exercícios de Matemática que podiam ser realizados em fichas na sala de aula, mas que recursos disponíveis gratuitamente na internet me permitiam construir como mais desafiantes, pela interactividade e indicação automática de pontuações, além de que os alunos diziam que o simples facto de estarem no computador já lhes dava uma sensação lúdica.
Neste ano que decorre, subitamente eliminei das minhas perspectivas de planificação de aulas esse tipo de exercícios no computador, pois sente-se a actual geração de alunos de tal maneira a querer só o divertido ou atraente, sem hábitos de trabalho e esforço, sendo os jogos no computador uma das aliciantes que lhes tira tempos e aptência para estudo, que, embora as actividades que referi (não outras necessárias, inclusive requerendo pesquisa, etc., claro) não fossem propriamente jogos, tinham para os alunos um pouco esse carácter e... pronto, eliminei-as, com este pensamento de que jogo no computador já a maioria tem demais. Deverá parecer uma barbaridade eliminar algo que torne aulas mais alegres/divertidas para os alunos - falo de alunos já de 8º e 9º ano e até gostaria que, se acaso me lerem, comentassem - mas a verdade é que, de repente, deitei fora as referidas actividades no pc. (Aquelas só, não outras que, aliás, não são menos motivadoras ou atractivas pois a ideia de irem trabalhar no computador logo lhes provoca contentamento)

quinta-feira, dezembro 29, 2005

A doença do meu pc

O meu pc esteve em longa crise de loucura. Nem eu, em longas horas de diversos expedientes, incluindo 1000 formatações do disco (tirem-se 2 zeros e já não ficará muito exagerado), nem técnicos conseguiram trazê-lo à razão - ou melhor, trazer, trazíamos, mas era só deixá-lo a dormir que voltava a acordar com birras. Hoje levei-o ao Júlio de Matos, fizeram-lhe uma lavagem à bios (desconfio que com sabão macaco, à boa maneira antiga) e devolveram-mo bem condicionado a, finalmente, bom comportamento.
(Estes pcs andam a ficar demasiado autónomos!)

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Feliz Natal!

Ainda sem pc!!! (e não cheguei a dar-lhe com o martelo, juro). Numa ligação rápida de casa da filha, nem dá para pôr aqui neste cantinho uma árvore de Natal!

Festas Felizes
para os bloguistas e visitantes!

P.S. Ah, ia esquecendo: Procurem um supermercado da nova rede de Supermercados Milu, que tem lá um frigorífico especial com perus congelados, marca Valter, com grande anúncio a dizer Encomende aqui o seu peru Valter, já assado para a ceia de Natal!

;)

quinta-feira, dezembro 15, 2005

...

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade, excerto de A Flor e a Náusea

Há flores...

James Haillar, Going To School

As férias deste blogue

A dona do blogue precisa de esvaziar a mente. Já fez as avaliações com os seus alunos, pelo que vai alhear-se o mais possível da "mais burocracia" das reuniões da próxima semana. Vai também fazer férias de escrever ou pensar Escola, Sistema Educativo, Educação-Ensino para o Século XXI, O que Estão a Fazer aos Alunos, aos Professores, à Escola deste País e outros temas afins.
Não significa isto que o blogue encerre para férias, ele também é um cantinho para me trazer ao pensamento que há flores, que continuam a existir homens que sonham e bolas coloridas nas mãos das crianças, "num perpétuo movimento"...

terça-feira, dezembro 13, 2005

Poesia...

O aluno da frente pergunta-me:
- Poesia tem que ter rima, professor?
Responder o quê, meu Deus?
O Modernismo aboliu a rima.
(Mas será o meu aluno um modernista?)
Eu falei pra ele do Drummond,
do Bandeira, dos concretos, da Cecília.
Mostrei também os românticos e os árcades.
Até dos simbolistas eu dei aula.
Poesia deve ter sentimento, meu filho!
- Sabe o que é, professor,
é que eu andei pensando
numa poesia para a nossa escola.
Estudei versos parnasianos,
tentei a rima e versos decassílabos alexandrinos.
Pobres rimas me vieram:
amor com dor, dor com professor.
Se a rima é fraca, desisto dela.
Vou fazer uma poesia pra lá de moderna,
onde haja escola rimando com cidadania,
professor rimando com respeito,
aluno rimando com feliz.
Que me perdoem os poetas de plantão,
os senhores da métrica e os doutores do verso.
Patryck Araújo Carvalho (professor)

...

Dos tubatões fugi eu
Os tigres matei-os eu
Devorado fui eu
Pelos percevejos.
Bertolt Brecht

Ciências e "Ciências"

Afinal, será importante discutir a legitimidade (científica) da designação Ciências da Educação?
A ciência firma-se pela investigação, e sempre houve investigação científica e pseudo-investigação científica, o que, em si, nem me parece relevante, pois a primeira rapidamente desacredita a segunda. O que importa (ou devia importar sempre e a todos) é que da investigação científica resultam implicações/aplicações, nomeadamente para a educação/ensino.
Entretanto, o que já me parece ser um problema (de dois, o segundo refiro depois) é o da divulgação, pois bem sabemos que muitos investigadores em qualquer área descuram essa divulgação para fora do seu círculo, correndo-se então o risco de serem divulgados para fora do "círculo" mais resultados de pseudo-investigações (ou simplesmente teorias ligeiras ou mal percebidas) do que contributos de trabalhos efectivamente científicos.
Acrescente-se agora, como alguém disse (quem, não me lembro, porque há frases que depois de ditas se tornam, pela evidência do que expressam, frases de muitos), que a ideologia de uma sociedade condiciona o tipo de ciência que nela se desenvolve - e aí temos o segundo problema. (Condiciona, note-se, e pessoalmente nem penso que condicione generalizadamente)
Juntem-se os dois problemas e... (???)
(Ia completar: não será que podem dar muito jeito a alguns governantes? Mas seria uma suspeita fácil, nada científica...)

segunda-feira, dezembro 12, 2005

...

Adenda: Sugestão de leitura - Lá como cá

Where are we going ?

Wojtek Kozak's

Antidesencantos II

"Guardo Antidesencantos II para depois dos testes das minhas outras duas turmas. Essas são turmas mais complicadas..." - escrevi, em tempo de desencanto, desviando o olhar para o refugiar na sala de aula.
Mas, os antídotos que aí vamos buscando são pequenos contentamentos. São algumas reacções ao mesmo tempo ainda incrédulas mas também exuberantes quando testes comprovam o ultrapassar de um mau começo; São os conflitos resolvidos, conflitos (devidos a comportamentos que trazem adolescentes já com mais dois anitos que os colegas) até ao dia certo para dizer, a sós, "vai começar hoje o teu ano em Matemática?" e ouvir um "vai" de polegar levantado (e foi); São as novas intenções que, bem dispostos com as férias e conscientes de que agora já é 9º ano, manifestaram alguns nos primeiros dias e que, se acaso não eram para durar, nós é que não as largámos mais, eu e também os novos colegas de grupo - coloque-se nas mãos da turma, já experiente e entendida no que funciona e no que não funciona, a reorganização de grupos apropriada a segurar boas intenções e, nisso, quase sempre posso ficar descansada - e acontece o primeiro teste positivo em Matemática ao fim de um ano, seguido do agora ainda mais positivo que, por exemplo, o H. vai receber.
São antidesencantos puxados a ferros, mas quando eles decidem que é altura do parto, não há cá ferros nenhuns, que isso já não se usa, e eles saem sozinhos e às vezes até começam logo a andar. O problema é que, nestas turmas a que chamei mais complicadas, há os contentamentos (estes e outros que não contei), mas há também as frequentes atracções gerais (das turmas mais complicadas e das outras) para o excesso de lazer, o não esforço, a resistência a hábitos de trabalho, mais o estranho fenómeno da relação com a língua portuguesa como se uma atenção selectiva ocultasse metade de instruções ou parte dos dados de um problema escritos em mero português corrente, fenómeno que nem em teste se atenua, apesar de o fazerem aparentemente concentradíssimos e até pedindo sempre mais tempo.
E lá se volta o olhar do professor para tudo o que o cerca e os cerca, e lá vem a interrogação Que se passa com a maioria dos putos de agora? São adolescentes, pois são, mas com a adolescência sempre lidámos, ela desde sempre foi adolescência... eu cá acho que imaturidades, depressões e crises de crescimento tomou a sociedade para si, só é pena que não tome também a contestação e a rebeldia dos adolescentes.

E, na verdade, se conseguimos alguns (bastantes) antidesencantos na sala de aula, não quer dizer que sejam sinónimos de encantamentos. Olho o lema deste blogue, aí em cima, que lá está escrito porque toda a vida tantas vezes vi que, com um ambiente propício e a confiança posta neles, os putos ficavam com o dobro do tamanho que pareciam ter (e que lhes atribuíam erradamente) - recordações não só antigas de professora não apenas de Matemática, de professora simplesmente, de directora de turma, de promotora ou participante de experiências e iniciativas, mas memórias também pouco antigas, do decurso dos anos 90. E, de repente, em escassos anos, já não basta encontrarem professores a acreditarem e a apostarem neles - parece que tentar criar o ambiente propício se tornou, muito mais que nunca, um remar contra uma maré, de origem difusa, mas forte, que entra pela escola mas vem de fora.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Breve refúgio

Adenda 2:
A não perder: aqui

Adenda:
Bom feriado, bom fim de semana!

Vincent van Gogh (1887), Fishing in Spring, Pont de Clichy

Eu pecador que junto ao mar me purifico
lançando e recolhendo a linha e olhando alerta
o infinito e o finito e tantas vezes fico
como o último homem na praia deserta.

Eu pescador de cana e de caneta
que busco o peixe o verso o número revelador
e tantas vezes sou o último no planeta
de pé a perguntar. Eu pescador.

Eu pecador que nunca me confesso
senão pescando o que se vê e não se vê
e mais que o peixe quero aquele verso
que me responda ao quando ao quem ao quê.

Manuel Alegre, excerto de Oitavo Poema do Pescador

domingo, dezembro 04, 2005

Que espaços para diálogo com o adolescente?

Pretende-se que cada vez mais os alunos passam mais tempo na escola, porque cada vez menos muitos pais têm tempo para eles.
E na escola? Horários dos alunos sobrecarregados, incompatibilidade (não coincidência) entre os nossos tempos livres e os deles, rodeados de professores que pensam neles, se preocupam com eles, mas a quem pouco mais resta que conversar na aula com toda a turma e conversar individualmente em situações que justificam roubar-lhes recreio ou até mandá-los chamar a uma aula. Mas o espaço para conversar socegadamente em privado, sem o aluno estar com a cabeça no recreio a que tem direito e de que precisa? O espaço para conversar ou ouvir, não porque o aluno se portou mal, mas porque está desistente nesta ou naquela disciplina em que o insucesso lhe instalou a falta de auto-confiança, ou (e sobretudo) porque espera que alguém repare que precisa de conversar, não sobre determinada disciplina, mas do que o anda a afastar do trabalho escolar?
Certo que o director de turma assume o papel de pai ou mãe da turma, mas não me refiro à turma, refiro-me a cada um, que não é igual a nenhum outro.
O projecto a decorrer na minha escola este ano, não original pois muitas escolas têm o gabinete de atendimento ao aluno (com diversas designações), no entanto com objectivos mais largos (acredito eu e, pelo menos para mim, assim é) do que dialogar de imediato com (e apenas com) alunos mandados sair da sala de aula, tem-me feito pensar mais nesta questão dos espaços/tempos para o conversar individual e diferenciado.
Este gabinete não decorreu do alargamento da componente não lectiva na escola, ele foi pensado (na sequência de outras iniciativas já havidas como a tutoria) antes dessa medida, por professores interessados e vocacionados para tal projecto. Não é um gabinete para o sermão, é um gabinete para o diálogo, o que é bem diferente. E nada impede que seja aproveitado como espaço para conversar com um nosso próprio aluno sem que tenha tido qualquer "mau comportamento".
Tive a feliz coincidência de duas das minhas três turmas (e logo aquelas em que mais alunos tenho para quem um diálogo privado e com tempo pode eliminar equívocos e/ou criar alianças) estarem já livres nalgum dos tempos que tenho no gabinete ao fim da tarde. Gosto da tarefa de atender alunos punidos, até porque me dá alguma segurança uma formação que tive oportunidade de ter, não apenas teórica (o que por si só seria inútil), mas prática, em técnicas de entrevista vulgarmente designada por não directiva, centrada no aluno - técnicas que conduzem a uma entrevista mais em profundidade. Mas, o que tenho gostado mais nesta tarefa, é da oportunidade de espaço/tempo para diálogo com alguns dos meus próprios alunos, combinados sem serem motivados por problemas do tal mau comportamento.

E, subitamente, agudizou-se-me a consciência, o reparo, desta incongruência que referi acima: rodeados de professores que pensam neles e se preocupam com eles, que pensam não só numa turma, mas em cada um, e no entanto por vezes sozinhos - como acontece às vezes connosco, adultos, que rodeados de gente, sentimos solidão.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Alguns antidesencantos I

Acabei de corrigir os testes de um dos meus nonos anos.

A D. é minha aluna desde o 7º ano. Com um desempenho positivo, mas, na maior parte das vezes, pelo mediano, aquém das suas capacidades como sempre lhe disse - fases longas de tendência para a conversa e a "preguicite".
Numa aula recente, com a turma ainda com dificuldades para "entrar" na resolução de problemas não rotineiros aplicando os conteúdos trabalhados, a D. disse-me: Eu para a Matemática dou pouco. Sem reproduzir o diálogo que se seguiu, sintetizo-o na sua tónica: Sempre te disse o contrário e escusas de teimar porque disso quem sabe sou eu. (Não manifestou se me deu razão ou não, mas vi-lhe o olhar contente)
A D. resolveu no teste os dois "problemas difíceis" e teve um dos quatro melhores testes da turma, atingindo 83%, resultado de que há bastante tempo nem se aproximava.

A A. também é minha aluna desde o 7º ano, cujo início a fez passar por um choque pois esteve muito longe do nível 5 a que vinha habituada - o que não lhe aconteceu só em Matemática. Muito responsável e briosa e sendo a Matemática a sua disciplina preferida, os pais tiveram que pedir para me falar para me porem a par de que a A. andava extremamente preocupada e nervosa com a Matemática - uma iniciativa muito importante, dado que na aula a atitude reservada não me fazia suspeitar de tal estado da menina em casa. Tive logo longa conversa com ela, elucidando-a e tranquilizando-a de facto (pedira aos pais que me mantivessem informada do evoluir da situação, pelo que a tranquilização foi confirmada).
A A. é a aluna mais novinha da turma - daqueles alunos que, iniciando o 1º ano ainda com 5 anos, por vezes vêm a ter algumas dificuldades e a necessitar de maior esforço na fase temporária do 3º Ciclo, especialmente em Matemática. Sempre com a "matéria" bem estudada, foi progredindo relativamente a dificuldades na sua aplicação na resolução de problemas. Mas o salto que deu tem ficado aquém do que quer dar.
Este ano, numa dessas aulas que referi em que a turma estava ainda com dificuldade em "entrar" em certos problemas, a A. (não pela 1ª vez) chegou um tanto desolada por não ter conseguido resolver o problema do TPC. No final, já a turma levantada para sair, disse-lhe de chofre: _A., tenho uma coisa para te "ensinar" e chegou a altura. Diz-me agora só: naqueles problemas, a tua cabeça está muito preocupada com a ideia de que não consegues resolvê-los, ou não? _ Aceno afirmativo. _ Pois é essa a causa, mas agora vai para o recreio, iremos falar e resolver isso. No dia seguinte, ao entrar no pátio da Escola, a A. viu-me e veio logo ter comigo para me dizer, sem qualquer introdução à conversa: _ A minha mãe disse que acha o mesmo que a stôra.
Pronto, estava dado o primeiro passo, pois ela não teria ido contar à mãe, ou, pelo menos, não me abordaria logo assim se não tivesse já começado a "ver" ela mesma o que queríamos dizer. Referi-lhe o assunto mais uma ou duas vezes, mas na intenção de aguardar pelo teste para, em cima de um problema em que estivesse com dificuldade, lhe pedir para rever e me descrever como estava a pensar e tudo o que estava a pensar durante essa tentativa - o que Flavell designou por experiência metacognitiva, imediatamente a seguir a uma tarefa cognitiva. Mas... não foi preciso! A A. também resolveu os dois "problemas difíceis" e teve o segundo melhor teste da turma, ultrapassando as duas alunas que habitualmente têm melhor desempenho.

Estes são exemplos de alguns dos antidesencantos que vamos tendo. Guardo Antidesencantos II para depois dos testes das minhas outras duas turmas. Essas são turmas mais complicadas, onde, para bastantes alunos, não se trata de ir mais além de um positivo desempenho que já consigam, mas sim de mostrarem (a mim, mas sobretudo a eles mesmos) o que afinal começaram a conseguir quando já não acreditavam conseguir um pouco sequer e o desinteresse vinha instalado. E estou esperançada de que já vou ter nestas turmas mais alguns "antidesencantos".

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Tempo de desencanto II

Sergei Samsonov
________________________

Vivi o tempo em que acontecimentos e mudanças começaram a suceder-se muito depressa. Vivi num só tempo de vida várias grandes mudanças, inclusive pessoais - nos hábitos e ritmos, nos modos de convívio e comunicação, nos meus instrumentos de trabalho e em muito mais. Vivi, num só tempo de vida, vertiginosos avanços tecnológicos. Vivi, num só tempo de vida, diferentes Tempos. Vivi muito, pois nunca fiquei parada em nenhum desses tempos.

O terrível paradoxo é o de tudo ter mudado no mundo e o mundo nada ter mudado. Não é preciso mostrar estas estatísticas aqui, pois todos as conhecem.

Alguém que já viveu também tantos Tempos num só tempo de vida - Amélia Pais - deixou no meu post anterior um comentário lindo, como lindo igualmente o que escreveu no seu blog: "Volte sempre -por aqui navega-se entre flores." Refiro-o porque revela esse olhar positivo semelhante ao que sempre teimei, e teimei, e teimei manter. Mas a realidade no presente é mesmo essa que afirmei acima: o mundo nada mudou, as estatísticas nada mudaram - as estatísticas da pobreza e do sofrimento e também as da riqueza que violentamente afrontam tão enorme parte da humanidade. E há estatísticas por fazer, uma delas, a dos jovens delinquentes por raiva e desespero.
Eu sei que tanto tempo numa vida é um nada, eu sei que o progresso é processo historicamente lento, eu sei que a transformação pode requerer um caminho primeiro, até ao bater no fundo. Por isso, pude teimar e teimar num pensamento positivo, por isso o manterei sempre ao pensar o mundo humano. Mas, porque é um pensamento para além do meu tempo, e eu vivo o dia a dia do meu tempo, nem sempre o dia a dia consegue fugir ao desencanto.

Também porque é um pensamento sobre o mundo, e eu vivo num pequeno país em que não deixam de ser pequenas aquelas diferenças estatísticas, face à enormidade das mundiais.
Eu vivo num pequeno país em que um dia agarrei a mãozinha de cada uma das minhas filhas com a indizível emoção que gritava dentro de mim: elas vão crescer num país livre! Mas o país não se manteve à altura dos homens e mulheres de então - dos que saíram das prisões, dos que já nelas tinham morrido, dos que puderam regressar para fazer um país novo. E, ainda que alguns dos que tinham lutado contra um poder tenham depois afrouxado perante poderes exteriores, ainda que o pequeno país não tivesse condições para não estar hoje na cauda da Europa em desenvolvimento económico, teve as condições para não ser um medíocre país no desenvolvimento cultural. Cultura que significa consciência, inclusive política, cultura que significa visão e humanismo, cultura que significa lucidez e capacidade de dizer não, cultura que significa também património dos valores daqueles homens e mulheres - patrinómio que os filhos não parecem ter tomado dos pais.
Eu vivo num país em que não são diferentes cores partidárias que o tornam medíocre, são sim algumas escolhas individuais medíocres que se propõem para mexerem os cordéis do poder político, escolhas que por sua vez vão fazendo algumas outras escolhas mais medíocres ainda para completar as governações. País em que igualmente escolhas dos que mexem os cordéis do portentoso poder da comunicação social são medíocres ou subjugadas, ou simplesmente demissionárias do papel que poderiam ter na consciência e na cultura de um povo, do papel que poderiam ter também na educação, ao invés de alienação dos nossos jovens. Eu vivo hoje num país que se deixou tornar medíocre, apesar de possuir muitos homens e mulheres lúcidos e sabedores, mas deixados na prateleira ou sem voz pública.

É também tempo de Natal. E, se na intimidade da família e na alegria das minhas crianças ele é bom, não deixa de ser o momento do ano em que o exterior me parece mais alienado, o que deve estar a concorrer um pouquito para esta minha "crise" de desencanto.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Achei...

Graças ao Miguel Sousa, achei o blogue Ao Longe os Barcos de Flores, de Amélia Pais.
Um blogue que me deu a sensação de ser um poema à poesia.

...

(...)

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde de novo em Portugal.

(...)

Que o poema diga o que é preciso
Que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso
e que o poema diga: o longe é aqui.


Manuel Alegre, Poemarma (Extracto)

terça-feira, novembro 29, 2005

Tempo de desencanto

Mal escrevi este título, o meu blog entregou-me um pré-aviso de greve, diz que é de protesto, e na assinatura leio Memórias. Vou ter que passar uns dias em negociações com ele (ou com elas?).

Ainda por cima, vou ter que andar em negociações comigo mesma, pois na semana passada mais uma caterva de papelada (leia-se "tempo para mais nada" ou "roubo do tempo que seria importante") fez-me voltar costas depois de roubar um papel que ainda estava em branco, cheia de vontade de escrever nele o meu pré-aviso de greve ilimitada.

E ainda por cima de tudo, as minhas turmas vão fazer teste e eu já só tenho uma aula com cada uma para as últimas negociações sobre a atenção, a mente solta e umas coisitas em que tenho andado às teimas com alguns ... negociações que são outras e não podem ser prejudicadas por conflitos com desencantos.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Versus Admirável Mundo Novo

Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

Bashô Matsuo

Ah, o passado,
O tempo onde se acumularam
os dias lentos.

Busson


Josef Danhauser (1845), A Family Resting At Sunset
(Imagem reduzida, clicar)

A normalidade é tão somente uma questão de estatística.
Aldous Huxley

sábado, novembro 26, 2005

Sugestão de leitura

Sou insuspeita, pois, numa fase em que me chamou a atenção o pensamento de Olga Pombo, senti discordâncias com algumas das suas ideias.
Acabei de encontrar por acaso um endereço, uma referência a um seu texto, num dos tantos comentários a posts na blogosfera (comentário apenas identificado como anonymous) Trata-se de um texto longo, mas que sugiro como a não perder, mesmo que se concorde aqui, se concorde menos ali e não se concorde acolá. É um texto que permite multiplicar-se em várias reflexões/discussões bem pertinentes.
Transcrevo apenas algumas afirmações soltas, de modo nenhum na ideia (que seria redutora e incorrecta) de sintetisar as ideias de um texto que aborda e coloca muitas questões, mas como meras "motivações" para a sua leitura, também para as controvérsias que suscite mas que, a meu ver, por isso mesmo inovam e dinamizam a nossa reflexão.


(...) no nosso mundo de hoje, uma das funções mais silenciadas da escola, mas nem por isso menos incontornável, é a de tomar conta dos filhos enquanto os pais vão trabalhar. (...) Estamos pois perante uma situação terrível - a mais terrível de todas, a meu ver - a progressiva e alarmante transferência para a escola das responsabilidades educativas que, naturalmente, e desde sempre, pertencem à família. (...)

(...) a escola está hoje confrontada - diria mesmo sufocada - com uma complicada alquimia por intermédio da qual procura responder a tantas novas responsabilidades educativas. (...)

(...) Estamos perante dois conceitos - educação e ensino - que se confundem hoje de forma dramática. (...)

(...) este verdadeiro emaranhado de equívocos, deslizamentos lógicos e falhas conceptuais em que está enredada a instituição escolar(...)
(O que importa, no pensar de Olga Pombo? Deixo em "suspense" a controvérsia que provavelmente suscitará.)

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memória de uma aventura...

... memória em "clima" de fim de semana...
... com dedicatória ao Miguel Pinto e ao Miguel Sousa.


(Fotos privadas, 2001)

E depois... a subida... a subida... e o passeio com a maravilhosa paisagem por baixo. E depois... a descida, até eu ter que pensar se ia conseguir aterrar a correr, isto é, sem me estatelar. Mas a aventura toda não posso mostrar, que o fotógrafo não tinha asas para acompanhar.
P.S.: Suponho que cá também seja como lá, em que só um encartado tem permissão para levar um não encartado, por isso até uma bisavó centenária (que contam que ainda há algumas em forma) pode experimentar a aventura com segurança... aqui fica o desafio às vovós ;-)

quinta-feira, novembro 24, 2005

Adenda: Outros sonos

Francisco Goya, El sueno de la razon produce monstruos

Fim de semana...

Estou em fim de semana porque tenho a 6ª feira livre (ai o que vão dizer!!!). Mas para manter um dia livre - tiraram-me as reduções quando até já me posso reformar, só que não me apetece (não me apetecia até há 4 meses atrás) e os meus alunos mostram que isso não lhes passa pela cabeça, ao menos, dia livre!! -, para manter dia livre, dizia, os outros ficaram tão carregadinhos com a componente lectiva + a componente não lectiva não individual (que a individual decorre na semana e no fim de semana), que chego ao final de quinta a apetecer-me dormir 12 horas seguidas. Hoje, e não pela 1ª vez, como saio da escola às 18.30 e é o dia em que vou buscar os netos para dar de jantar porque é dia em que os pais têm um horário complicado, só fui capaz de os levar a jantar ao restaurantezito da esquina. Não deixamos de nos divertir, mas chego a casa a sonhar com dormir 12 horas (não confesso que o sonho é para 24 horas por vergonha). Sempre fui um tanto animal nocturno na produção ou trabalho individual - componente não lectiva individual na escola, para mim, portanto, só quando as escolas tiverem camas - mas hoje... VOU DORMIR!