quinta-feira, dezembro 01, 2005

Tempo de desencanto II

Sergei Samsonov
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Vivi o tempo em que acontecimentos e mudanças começaram a suceder-se muito depressa. Vivi num só tempo de vida várias grandes mudanças, inclusive pessoais - nos hábitos e ritmos, nos modos de convívio e comunicação, nos meus instrumentos de trabalho e em muito mais. Vivi, num só tempo de vida, vertiginosos avanços tecnológicos. Vivi, num só tempo de vida, diferentes Tempos. Vivi muito, pois nunca fiquei parada em nenhum desses tempos.

O terrível paradoxo é o de tudo ter mudado no mundo e o mundo nada ter mudado. Não é preciso mostrar estas estatísticas aqui, pois todos as conhecem.

Alguém que já viveu também tantos Tempos num só tempo de vida - Amélia Pais - deixou no meu post anterior um comentário lindo, como lindo igualmente o que escreveu no seu blog: "Volte sempre -por aqui navega-se entre flores." Refiro-o porque revela esse olhar positivo semelhante ao que sempre teimei, e teimei, e teimei manter. Mas a realidade no presente é mesmo essa que afirmei acima: o mundo nada mudou, as estatísticas nada mudaram - as estatísticas da pobreza e do sofrimento e também as da riqueza que violentamente afrontam tão enorme parte da humanidade. E há estatísticas por fazer, uma delas, a dos jovens delinquentes por raiva e desespero.
Eu sei que tanto tempo numa vida é um nada, eu sei que o progresso é processo historicamente lento, eu sei que a transformação pode requerer um caminho primeiro, até ao bater no fundo. Por isso, pude teimar e teimar num pensamento positivo, por isso o manterei sempre ao pensar o mundo humano. Mas, porque é um pensamento para além do meu tempo, e eu vivo o dia a dia do meu tempo, nem sempre o dia a dia consegue fugir ao desencanto.

Também porque é um pensamento sobre o mundo, e eu vivo num pequeno país em que não deixam de ser pequenas aquelas diferenças estatísticas, face à enormidade das mundiais.
Eu vivo num pequeno país em que um dia agarrei a mãozinha de cada uma das minhas filhas com a indizível emoção que gritava dentro de mim: elas vão crescer num país livre! Mas o país não se manteve à altura dos homens e mulheres de então - dos que saíram das prisões, dos que já nelas tinham morrido, dos que puderam regressar para fazer um país novo. E, ainda que alguns dos que tinham lutado contra um poder tenham depois afrouxado perante poderes exteriores, ainda que o pequeno país não tivesse condições para não estar hoje na cauda da Europa em desenvolvimento económico, teve as condições para não ser um medíocre país no desenvolvimento cultural. Cultura que significa consciência, inclusive política, cultura que significa visão e humanismo, cultura que significa lucidez e capacidade de dizer não, cultura que significa também património dos valores daqueles homens e mulheres - patrinómio que os filhos não parecem ter tomado dos pais.
Eu vivo num país em que não são diferentes cores partidárias que o tornam medíocre, são sim algumas escolhas individuais medíocres que se propõem para mexerem os cordéis do poder político, escolhas que por sua vez vão fazendo algumas outras escolhas mais medíocres ainda para completar as governações. País em que igualmente escolhas dos que mexem os cordéis do portentoso poder da comunicação social são medíocres ou subjugadas, ou simplesmente demissionárias do papel que poderiam ter na consciência e na cultura de um povo, do papel que poderiam ter também na educação, ao invés de alienação dos nossos jovens. Eu vivo hoje num país que se deixou tornar medíocre, apesar de possuir muitos homens e mulheres lúcidos e sabedores, mas deixados na prateleira ou sem voz pública.

É também tempo de Natal. E, se na intimidade da família e na alegria das minhas crianças ele é bom, não deixa de ser o momento do ano em que o exterior me parece mais alienado, o que deve estar a concorrer um pouquito para esta minha "crise" de desencanto.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Achei...

Graças ao Miguel Sousa, achei o blogue Ao Longe os Barcos de Flores, de Amélia Pais.
Um blogue que me deu a sensação de ser um poema à poesia.

...

(...)

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde de novo em Portugal.

(...)

Que o poema diga o que é preciso
Que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso
e que o poema diga: o longe é aqui.


Manuel Alegre, Poemarma (Extracto)

terça-feira, novembro 29, 2005

Tempo de desencanto

Mal escrevi este título, o meu blog entregou-me um pré-aviso de greve, diz que é de protesto, e na assinatura leio Memórias. Vou ter que passar uns dias em negociações com ele (ou com elas?).

Ainda por cima, vou ter que andar em negociações comigo mesma, pois na semana passada mais uma caterva de papelada (leia-se "tempo para mais nada" ou "roubo do tempo que seria importante") fez-me voltar costas depois de roubar um papel que ainda estava em branco, cheia de vontade de escrever nele o meu pré-aviso de greve ilimitada.

E ainda por cima de tudo, as minhas turmas vão fazer teste e eu já só tenho uma aula com cada uma para as últimas negociações sobre a atenção, a mente solta e umas coisitas em que tenho andado às teimas com alguns ... negociações que são outras e não podem ser prejudicadas por conflitos com desencantos.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Versus Admirável Mundo Novo

Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

Bashô Matsuo

Ah, o passado,
O tempo onde se acumularam
os dias lentos.

Busson


Josef Danhauser (1845), A Family Resting At Sunset
(Imagem reduzida, clicar)

A normalidade é tão somente uma questão de estatística.
Aldous Huxley

sábado, novembro 26, 2005

Sugestão de leitura

Sou insuspeita, pois, numa fase em que me chamou a atenção o pensamento de Olga Pombo, senti discordâncias com algumas das suas ideias.
Acabei de encontrar por acaso um endereço, uma referência a um seu texto, num dos tantos comentários a posts na blogosfera (comentário apenas identificado como anonymous) Trata-se de um texto longo, mas que sugiro como a não perder, mesmo que se concorde aqui, se concorde menos ali e não se concorde acolá. É um texto que permite multiplicar-se em várias reflexões/discussões bem pertinentes.
Transcrevo apenas algumas afirmações soltas, de modo nenhum na ideia (que seria redutora e incorrecta) de sintetisar as ideias de um texto que aborda e coloca muitas questões, mas como meras "motivações" para a sua leitura, também para as controvérsias que suscite mas que, a meu ver, por isso mesmo inovam e dinamizam a nossa reflexão.


(...) no nosso mundo de hoje, uma das funções mais silenciadas da escola, mas nem por isso menos incontornável, é a de tomar conta dos filhos enquanto os pais vão trabalhar. (...) Estamos pois perante uma situação terrível - a mais terrível de todas, a meu ver - a progressiva e alarmante transferência para a escola das responsabilidades educativas que, naturalmente, e desde sempre, pertencem à família. (...)

(...) a escola está hoje confrontada - diria mesmo sufocada - com uma complicada alquimia por intermédio da qual procura responder a tantas novas responsabilidades educativas. (...)

(...) Estamos perante dois conceitos - educação e ensino - que se confundem hoje de forma dramática. (...)

(...) este verdadeiro emaranhado de equívocos, deslizamentos lógicos e falhas conceptuais em que está enredada a instituição escolar(...)
(O que importa, no pensar de Olga Pombo? Deixo em "suspense" a controvérsia que provavelmente suscitará.)

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memória de uma aventura...

... memória em "clima" de fim de semana...
... com dedicatória ao Miguel Pinto e ao Miguel Sousa.


(Fotos privadas, 2001)

E depois... a subida... a subida... e o passeio com a maravilhosa paisagem por baixo. E depois... a descida, até eu ter que pensar se ia conseguir aterrar a correr, isto é, sem me estatelar. Mas a aventura toda não posso mostrar, que o fotógrafo não tinha asas para acompanhar.
P.S.: Suponho que cá também seja como lá, em que só um encartado tem permissão para levar um não encartado, por isso até uma bisavó centenária (que contam que ainda há algumas em forma) pode experimentar a aventura com segurança... aqui fica o desafio às vovós ;-)

quinta-feira, novembro 24, 2005

Adenda: Outros sonos

Francisco Goya, El sueno de la razon produce monstruos

Fim de semana...

Estou em fim de semana porque tenho a 6ª feira livre (ai o que vão dizer!!!). Mas para manter um dia livre - tiraram-me as reduções quando até já me posso reformar, só que não me apetece (não me apetecia até há 4 meses atrás) e os meus alunos mostram que isso não lhes passa pela cabeça, ao menos, dia livre!! -, para manter dia livre, dizia, os outros ficaram tão carregadinhos com a componente lectiva + a componente não lectiva não individual (que a individual decorre na semana e no fim de semana), que chego ao final de quinta a apetecer-me dormir 12 horas seguidas. Hoje, e não pela 1ª vez, como saio da escola às 18.30 e é o dia em que vou buscar os netos para dar de jantar porque é dia em que os pais têm um horário complicado, só fui capaz de os levar a jantar ao restaurantezito da esquina. Não deixamos de nos divertir, mas chego a casa a sonhar com dormir 12 horas (não confesso que o sonho é para 24 horas por vergonha). Sempre fui um tanto animal nocturno na produção ou trabalho individual - componente não lectiva individual na escola, para mim, portanto, só quando as escolas tiverem camas - mas hoje... VOU DORMIR!

Pela blogosfera sem sabermos uns dos outros

Hoje, por um ocasional mas simpático contacto, descobri aqui mais um blog de professor. E logo meu colega nesta lide em que um dos primeiros empreendimentos é tentar combater as imagens sobre a disciplina de Matemática que tantos alunos já trazem inculcada na mente quando entram na escola.

terça-feira, novembro 22, 2005

E quando falam deles?...

... Deles directamente, deles mesmos?
... E para eles?
... E com eles?


Stephen Scott Young, Her Cat

(Autor deconhecido)

Falcon Nyght (2005), Waiting - Photo

O debate e as minhas imagens

(Estou a ficar preocupada com a minha mente!)


Borisenko Pavel (1998), Mirage

Pisarev Gennadiy (2004), Stone

segunda-feira, novembro 21, 2005

Outra vez... é demais.

Adenda:
E a Srª Ministra da Educação tem a certeza de que, com as suas teimosas precipitações, não está a contribuir para que mais alunos distingam com a tão pouca precisão abaixo exemplificada noções como aula e recreio, ou trabalho e lazer, ou concentração e distracção?
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Escrevi no post anterior que agora é "tempo de dizer também, honestamente, que ninguém está totalmente isento de pecado."
Aparte casos de agentes de ensino que talvez devessem estar a fazer outra coisa - que existirão, ou então esta profissão seria uma excepção a todas as outras -, não se pode deixar de reconhecer que existem práticas a corrigir. No aspecto específico em que tocará este post, não se esquece as dificuldades e o stress que certas turmas causam, sobretudo no início do 2º Ciclo (também certamente no 1º Ciclo), pela existência nelas de alunos que são o reflexo do seu meio sócio-familiar extremamente desfavorecido e problemático. Não se esquece que, antes de se ter condições para ensinar as matérias escolares, há por vezes um tempo longo em que os objectivos são o saber estar numa aula em posturas minimamente razoáveis, o motivar para a escola e o integrar em tarefas escolares. Mas os dois casos que aqui vou focar já não são esses.

Mais uma vez os professores de uma turma, por um acaso em que todos ou quase todos a recebe pela 1ª vez no 8º ano, se depara com ela sem ter sido educada a saber estar numa aula, revelando hábitos de aí estar em grande barulho e agitação mesmo quando a professora explica, e mesmo com comportamentos de quem está num recreio - e sem vigilante. Não se trata em geral de alunos chamados "problemáticos", não se trata em geral de alunos com procedimentos que requerem sanções disciplinares por, por exemplo, frontais faltas de respeito aos professores. Trata-se de alunos que puderam passar o 7º ano na atitude e no ambiente referidos. Não que eu pense que não foram admoestados. Penso, sim, que existe um problema de confusão, de não consenso e sobretudo, talvez, de grande insegurança quanto à questão da permissividade. E esta é uma questão que precisa de ser debatida nas escolas. Não para acusar, mas para reflectir e construir. Não para estigmatizar, como faz ou permite fazer a actual ministra da Educação, mas para concertar actuações e consciencializar todos de consequências irremediáveis que estas situações podem ter quando só se colmatam num ano tão tardio como o 8º.

Foi assim que me chegou a turma que, no ano lectivo anterior, recebi no 8º - turma de que já aqui falei em Setembro, chamando-lhe a minha prioridade e contando que a minha pergunta "como vou fazer?" se seguia à pergunta que me fazia no 3º Período do ano anterior: "posso fazer alguma coisa?" (Também depois voltei a mencioná-la para contar que já me estava a dar alegrias).
Foi novamente assim que me chegou a minha turma de 8º deste ano. Mais uma vez, foram necessárias algumas semanas (a mim e decerto aos meus colegas) para conseguir (sem recurso a sanções disciplinares) o ambiente minimamente indispensável a um normal funcionamento. E, após essa etapa, nada mais fiz até ao fim da 1ª semana deste mês de Novembro senão tentar colmatar algumas grandes lacunas do 7º ano - lacunas inevitáveis quando os respectivos alunos são os primeiros a reconhecer que não prestavam atenção no ano anterior; lacunas em matéria essencial, mas apenas, por agora, relativa a pré-requisitos indispensáveis para a aprendizagem do que vamos tratar no início do 8º. No entanto, nem esta acção de recuperação tem resultado para bastantes alunos dado que, embora agora já razoavelmente disciplinados, hábitos de concentração e de trabalho na própria aula, motivação e sentido de responsabilidade não se adquirem de um momento para o outro.
No entanto, o mais problemático nestas situações, o que referi poder ter consequências irremediáveis, é que para alunos, em considerável número, que, por essa desatenção permitida ou não ultrapassada atempadamente, foram transitando com nível negativo em disciplinas sequenciais como Matemática e Inglês, ao modificarem a sua atitude (até porque a idade facilita que comecem a preocupar-se), as grandes e por vezes longínquas lacunas já lhes torna verdadeiramente difícil a recuperação, porque o professor não vai contar com grande esforço em casa e o trabalho diferenciado e individualizado na sala de aula para conseguir a recuperação minimamente indispensável faz muito, mas não faz milagres.

domingo, novembro 20, 2005

Mas hoje é domingo.

Félix Vallotton (1895), Le Beau Dimanche

E hoje é domingo. E depois...

... Depois será o tempo de dizer também, honestamente, que ninguém está totalmente isento de pecado.

Permito-me transcrever palavras do
Miguel Pinto, pois penso que o seu "há muito tempo" remonta a tempo anterior àquele em que a actual Ministra da Educação nos deixou sem espaço-tempo para reunir e discutir o que de facto urge discutir sobre Educação / Ensino-Aprendizagem.

"
Há muito tempo que venho denunciando o défice de discussão no interior das escolas.

Já é domingo, mas o Miguel deu-me a deixa, não resisti a deixar dito já algo em comentário que escrevi lá no seu post.

Mas, hoje é mesmo domingo, fico-me por esse comentário lá, e com esta referência ao seu texto (o qual, atenção, não se confina ao que transcrevi, que deve ser lido no respectivo contexto).

sexta-feira, novembro 18, 2005

Exigimos Respeito

Foto privada

A anedota do dia (verídica)

Walter Lemos, em 1993: É presidente da Assembleia Municipal de Penamacor; perde mandato por... excesso de faltas!

Contrastes

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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A fuga

Mário Eloy Pereira

quarta-feira, novembro 16, 2005

...

Farsa

Michael de Ghelderode

"Pedagogia diferenciada na sala de aula"

Comecei a ler o Despacho Normativo nº 50/2005 e não li mais, irritada, depois de:

"3—O plano de recuperação pode integrar, entre outras, as seguintes modalidades:
a) Pedagogia diferenciada na sala de aula."

Como disse já o Miguel Pinto, "num ápice, a pedagogia não diferenciada foi legitimada". Sim, porque apenas "pode integrar" (como uma mera sugestão).
Não sei o que sente cada professor, mas eu, desta vez, nem me senti ofendida, apenas gozada. Mas é toda a minha vida profissional que é gozada, como acho que se notará nesta memória tão longínqua que me lembrei há tempos de guardar neste cantinho.
E mais não digo, porque tenho uma coisa mais importante para fazer: libertar-me da irritação, que esta ministra, a mim, não merece que me lembre sequer que existe. (Se ela desse aulas, saberia sequer o que é diferenciar?)

Última hora...

... fuga.

Ainda ontem tinham
18 (dezoito) razões ...

Mas quem se surpreende ao fim de 23 anos? (Sim, desde Novembro de 1982, tivemos muito tempo para aprender que contar com tanta unidade é pura ingenuidade).

terça-feira, novembro 15, 2005

Até 6ª feira, aguardo.

Poderá ser compreensível que, face a uma qualquer greve por determinada reivindicação ou por uma alteração de normas legislativas em vigor, se argumente que, face à evidência da não cedência do "Patrão" em causa, essa greve é inútil, e que o dinheiro não é para perder inutilmente. Mas uma greve também pode servir para demonstrar a verdade do que afirmam os seus proponentes - a verdade de que traduzem sentimentos gerais. Tal como uma assembleia numa sala em que os presentes levantam (ou não) o braço a manifestar acordo, a próxima greve não deixará de ser a assembleia geral pública em que só os que levantarão o braço confirmarão o que os promotores dessa greve afirmam representar o pensar e o sentir da classe docente:

Que há "horários dos docentes que descaracterizam profundamente os aspectos essenciais da sua profissionalidade", e que "grassa a desmoralização nas salas de professores", os quais se sentem "humilhados e ofendidos na sua dignidade profissional"

Que a imagem dos educadores e professores tem vindo a ser sujeita a um inqualificável ataque, "provindo até de quadrantes inesperados", "com o intuito de denegrir a imagem do conjunto dos docentes perante a sociedade", num péssimo serviço à Educação pois "não é possível atingir-se a mais alta qualidade nos processos de ensino-aprendizagem sem professores profissionalmente motivados e socialmente prestigiados"

Que "os professores estão entre os primeiros interessados numa escola de qualidade, em que sejam tomadas medidas sérias de promoção do sucesso educativo para todos", mas não em que sejam tomadas medidas precipitadas que redundam em mera guarda de alunos, sem condições nem tempo para planear, viabilizar e estruturar projectos de modo a, efectivamente, "da permanência acrescida resultarem condições mais favoráveis às aprendizagens dos alunos e ao combate ao abandono escolar" e para se caminhar sob perspectivas de real transformação da escola.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Repetindo: carroça à frente dos bois.

Permito-me transcrever os dois extractos abaixo, do artigo de João Rangel de Lima publicado no Inquietações Pedagógicas. Permito-me porque o primeiro traduz o que sempre considerei o maior erro da actual ministra da educação e escrevi, por outras palavras (menos suaves), em 27 de Setembro: (...)Poderá a Srª Ministra da Educação ter tido boas intenções, possíveis de virem a dar frutos. Mas, a sua precipitada e obsessiva preocupação prioritária de estarem os alunos sempre ocupados na falta de professores, sobrepondo essa obsessão à viabilização, nas escolas, de ocupações pedagógicas (que, se acaso sabe o que isso é, pelo menos não faz a mínima ideia de que não se improvisam, mas sim se preparam mediante projectos e recursos) destruiu o que, eventualmente, poderia corresponder a intenções válidas.(...)

"A Srª Ministra não fala com os agentes educativos antes de decidir e tem um péssimo sentido de timing. Se assim não fosse, teria tido a calma de, durante este ano lectivo, apresentar o seu projecto de componente não lectiva e teria tido a dita de ouvir sugestões úteis e as Escolas teriam tido tempo de estruturar os tempos referidos em respostas úteis e realmente transformadoras da Escola. No próximo ano lectivo concretizar-se-ia o projecto."
(...)
"Não podemos continuar a oscilar entre estes dois desgraçados polos que têm marcado a nossa História: diálogo permanente sem decisão ou decisionite autista e arrogante. A primeira cria a deriva e o caos, a segunda uma ordem inoperante e crispação social - no próximo dia 18 há greve de professores."

?????

Unity Jump

Rogers Charles
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"Na opinião da ministra há questões que têm de ser clarificadas, mas nada que se aproxime da exigência de suspensão, na medida em que, referiu, os órgãos de gestão sentem-se "confortados" com estes dois despachos." (Despachos 16795/2005 e 17387/2005) (Reunião FENPROF / M.E. de 11 de Novembro de 2005)

"Confortados"???!!! Não será que a Srª Ministra está mais uma vez a generalizar, contente, a partir de alguns eventuais casos confortáveis? (Que o meu CE não está nadinha confortado, isso sei; mas sobre tudo o mais desta presente história, já não sei nem o que sei nem o que não sei)

quinta-feira, novembro 10, 2005

Aguardemos o uso da lógica

Resumindo - O M.E. :
a) Considera positiva a aplicação da legislação.
b) Reconhece a insatisfação da classe docente.
Aguardemos como as mentes pensantes do M.E. aplicarão a lógica, o raciocínio rigoroso, a reflexão intelectualmente honesta - ou simplesmente, como aplicarão o princípio da não contradição - para uma ligação coerente entre essas duas assunções.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Roots of Empathy

O Miguel Sousa chamou a atenção num seu post para um programa de sucesso no Canadá e pôs o link para o respectivo site informativo. Não resisti a esta foto...

terça-feira, novembro 08, 2005

Que coisa...

...não tapei a boca ao espirrar! Tinha ficado muito melhor assim.

Joan Miró, Silence

...

Joan Miró, Dog bark at moon

(Dizem que o cão ladra por medo e eu digo que o anónimo se esconde por cobardia)


Anonymous said...

Este deve ser o mesmo anónimo que já vi, no mesmo blog, insultar gratuitamente os seus autores. Mas como, nos comentários, estes anónimos passam despercebidos, transcrevo a resposta que agora me foi dada a mim, nesse blog. Não porque mereçam qualquer atenção, mas porque faz parte do conhecimento da realidade conhecer o género de exemplos que também existem na mesma. E, já agora, para dizer que de facto na net não posso fazer o que faria no real, frente a frente (mesmo que se tratasse de algum grandalhão - não sou de grande estatura física, sou mulher e até já bem avó, mas faria) a quem se atrevesse a desrespeitar-me: um bofetão bem chapado na cara.

"(Mas fico por aqui, confesso que não estou habituada a falar com anónimos) -------------------------------Concordo.Diria mesmo que nos tempos que correm é mais seguro. E depois é reconfortante falar sempre com os mesmos sobre o mesmo.Por isso é que se inventou a net.Assim só falamos com gente conhecida.Pobre juventude do meu país que tais mestres tem que aturar.Fique com os seus e não se deixe contagiar, a vidinha não está para grandes aventuras... "
(O destaque é meu)

domingo, novembro 06, 2005

sexta-feira, novembro 04, 2005

...




"Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.
"

Oswaldo Montenegro, in Metade


Que sentido isto faz?

Está a fazer meio ano, este blog. Criei-o em Maio, a carreira docente perto do fim (não tão perto assim como projecto e opção, mas agora tornada perto por, de repente, nuns escassos dois ou três meses, ser empurrada para me dizer Estou farta!).
Pensei num espaço onde iria colocando e guardando memórias profissionais. Como professora de Matemática, notas sobre aquilo em que sempre pensei - a disciplina de maior taxa de insucesso, os métodos que a podem minorar, esse ganhar gosto pelas aulas de Matemática quando os putos descobrem que, afinal, são capazes, aquelas aulas em que ao fim de dois meses pequenotes de 10 anos punham os seus grupos a funcionar activamente e pareciam mini-professores esquecidos até de onde andava a professora na sala ocupada com outro grupo qualquer, mais outro pequenote, também "dispensando" a professora para dizer em voz alta "discutam mais baixo, assim não conseguimos concentrar-nos!".
Mas não apenas como professora de Matemática, que antes disso sou professora - educadora simplesmente. Também memórias soltas de coisas maravilhosas que eles e eu descobríamos que eles eram capazes de fazer, por exemplo, mas não só, naquele espaço que dava a direcção de turma - coisas, entre outras, como aqueles convites das turmas aos pais para uma reunião sobre tema que bem queriam discutir com estes, mas a que só se atreviam sob a segurança de uma preparação que eles próprios faziam, mas que faziam com essa segurança de a fazerem com a dt - coisas que sempre me continuavam a maravilhar e que tão encantados deixavam os pais, coisas, enfim, essas e outras, que são o motivo do lema deste blog.

Criei o blog mal conhecendo a blogosfera e desconhecendo completamente aquela a que costumo chamar blogosfera docente. Não me preocupava ter ou não visitas, era um espaço para ir escrevendo quando tivesse tempo, talvez para mais tarde, quando reformada, fazer dos soltos algum todo organizado.
Seriam memórias sobretudo do longo tempo a leccionar 2º Ciclo - que é de pequenos que eles têm que começar, se não começam aí já é difícil o 3º Ciclo ser igual. 2º Ciclo em que permaneci a leccionar a maior parte da vida por força dos estágios não congelados na altura em que principiei, que os outros estavam congelados, e a oportunidade de segurança e estabilidade profissional tinha que se sobrepor ao gosto de passar a vida a trabalhar com adolescentes.

Mas as memórias mudaram. Mudaram um pouco quando a minha escola de há já bastantes anos (e definitiva, que não se deita fora a sorte de chegar a dois passos de casa) passou a escola 2,3, e a profissionalização para o 3º Ciclo (e Secundário, que não existem "professores de 3º Ciclo") me permitiu ter ainda o gosto de trabalhar com adolescentes - mudaram um pouco sobretudo ao deixar quase de leccionar 7º para receber as turmas já no 8º. Não foi, no entanto, essa a razão importante da mudança.
A minha primeira "pré-reforma" foi da direcção de turma, muitos anos já cumprida e em que só aceitava outro cargo sob pedido/condição de ela não me ser tirada. Porque veio a invasão da burocracia, e eu não suporto papeladas/burocracias inúteis, e os tempos em que antes se discutia foram substituídos pelos tempos de escrever papeis a dizer o que se deve (devia) discutir sem sobrar mais tempo senão para arquivar o que ninguém volta a ler a não ser quando há que acrescentar umas frases (leia-se substituir umas palavras por outras mais na moda a quererem dizer o mesmo). Depois vieram outras pequenas "pré-reformas" à medida que fui sentindo quase só gratificante e não deitado para a gaveta o Eu com os meus alunos, a minha sala de aula. (Sempre foi minha opção de vida não persistir em coisas inúteis, excepto nas inutilidades nos meus tempos livres, deixadas de serem inutilidades se me descontraem ou me dão prazer).

Que sentido podem ter memórias dessas coisas a que chamei maravilhosas para quem, no tempo para um cargo pedagógico, é obrigado a passá-lo todo a preencher papeladas e registos, a enviar cartas com aviso de recepção para ficar a prova de que foram convocados os pais que nunca apareceram, etc., etc., etc.?

Que sentido podem ter memórias daquela velha defesa quase militante (muitos já hoje reformados) de diferentes métodos e estratégias para o ensino-aprendizagem da Matemática, para desenvolver nos putos uma relação desafiante e autónoma com essa disciplina, para quem (incluindo-me a mim) se vê não só num sistema degradado por um percurso de disparates e prioridades hipócritas de sucessivos ministérios da educação, não só, para mais, numa sociedade que cada vez menos educa as suas crianças para o hábito de trabalhar, pensar, fazer esforço, mas também se vê por fim responsabilizado por um sistema em que, se algumas responsabilidades tem, é o menos responsável de todos (e até impede esse sistema de ainda mais degradado estar) - em suma, se vê por fim desrespeitado e desprestigiado para que outros se protejam disso?

Que sentido?
______________________________

(...)
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.
(...)
Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflicta meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.
(...)
Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também.

Oswaldo Montenegro, Metade

quarta-feira, novembro 02, 2005

Pequenos tijolos que também fazem alicerces

Estou a ler o livro de memórias de infância de Alice Vieira (Bica Escaldada, 2004, Ed. Casa das Letras). Apeteceu-me registar o que, em dois dos contos-memórias (cada um com pouco mais do que uma página), me causou uma associação de ideias... nas diferenças com o Hoje - associações que me acontecem ao ler um conto não lendo nele apenas e à letra o que conta, mas lendo-o como que uma metáfora.

Em O Anjo, a autora conta que a avó Ana, que nunca fora à ecola, um dia, passava ela já dos 70 anos, anunciou, no silêncio de uma refeição: "_ Apareceu-me um anjo esta noite. (...) _ O anjo mandou-me aprender a ler." E prossegue Alice Vieira, um pouco adiante: "Nunca mais voltou a falar do assunto, que as mulheres nunca repetiam uma ordem ou um desejo: o que se dizia uma vez, dito ficava. Ela própria se encarregou de arranjar uma professora. (...) Se o anjo voltou a ter interferência na aprendizagem da avó Ana, não se sabe nem ela o disse. Sabe-se apenas que a avó Ana aprendeu a ler e a escrever no espaço de um mês. _ Foi o anjo - era a sua única explicação" E a autora termina logo a seguir o conto, assim: "Dizem que, desde essa altura, um anjo passou a velar pelos destinos das mulheres da nossa família. Entre a comunidade celestial devemos gozar da fama de sermos exemplarmente obedientes."

Em Cheiros Perdidos, Alice Vieira lembra o tempo "em que as coisas cheiravam àquilo que eram", os cheiros genuínos das maçãs, dos morangos, do pão, dos soalhos das casas... . Refere como as nossas casas hoje cheiram aos ""purificadores do ar"" que prometem vários aromas e "se ficam todos pelo mesmo odor plastificado a coisa nenhuma que, como toda a gente muito bem sabe, é o pior cheiro que existe à face da terra" (Sublinhado meu). E, quase no final do conto: "Acreditem que eu até tenho saudades do terrível sabor do óleo de fígado de bacalhau (antes de ele ter sido adocicado para os paladares das sensíveis crianças dos nossos dias), do azedo genuíno dos primeiros iogurtes (...) e da intragável canja de galimha, à qual, antes de partirmos para a praia, a tia Clara juntava o então indispensável óleo de rícino. Aquilo sim, aquilo eram sabores a sério, puros e duros. Aquilo (...) formava o carácter de uma pessoa."

domingo, outubro 30, 2005

Adenda à adenda

The Mirror

Sergei Samsonov









Ai estes adolescentes...










Giovanni F. Caroto, Youth Holding a Drawing

Adenda...

... Duas histórias.
(Não as vou contar por considerar que sejam significativas no conjunto das provas nacionais, mas porque uma me doeu pela menina de que se trata, e a outra fez-me pensar que teria sido educativo para a aluna que o resultado não se limitasse a ser um 3 em vez do 4 de frequência, mas que fosse uma negativa mesmo. E a 1ª história já a tinha contado ao Rui no (In)Docentes , a propósito de critérios discutíveis de alguns items, só que ainda não tinha analisado o resto da prova).

1ª história
A S. era uma aluna com algumas dificuldades, no 8º ano dei-lhe sempre nível 2. Mas era uma menina com uma baixa auto-imagem quanto às suas capacidades, pelo que dizia que em Matemática nem valia a pena tentar melhorar, que era a disciplina mais difícil. Preocupei-me em tirar-lhe essa ideia, encorajei-a e, depois de ter conseguido resultado positivo no penúltimo teste do 9º ano, foi feliz no teste global (não os dispensei dele, ainda que estivessem dispensados da formal prova global), embora com uma positiva baixinha. Não hesitei em atribuir-lhe nível 3 final, apesar de pensar que não se aguentaria num exame que, previsivelmente (e correctamente) incidiria bastante em competências mais gerais que a S. ainda não tinha. Mas ela até não ia precisar mais de estudar Matemática, o que ia precisar, sim, era de mais autoconfiança.
Ao ver a classificação zero num item em que o critério fora criticado pelos correctores, fiquei triste, porque bastava terem atendido ao que os correctores consideravam para que a S. não se visse na pauta da sua turma com aquele marcante nível 1, ali único, isolado. Certo que não teria nível positivo, mas face aos resultados gerais nacionais, não era isso que faria que voltasse a sentir-se inferiorizada. Mas hoje, ao completar a análise, apeteceu-me ir ver na escola se ainda lá existiria o contacto dela (não o farei, é um assunto complicado). Porque o corrector da sua prova cometeu um erro, desrespeitando claramente os critérios do respectivo item, a que atribuiu zero em vez do sete devido, o que tiraria sobejamente aquele 1 à menina.
(Que esta história não sirva para acusar correctores, um erro acontece e alguns critérios requeriam muita atenção. No meu blog também entram sentimentos e afectos que desabafo, histórias pessoais ou humanas que têm significado para mim (neste caso para uma menina também), mas não têm significado no tema "resultados dos exames, critérios e causas")

2ª história
A C. era uma aluna dotada mas com uma enorme preguiça. Só por esta preguiça é que chegou a oscilar comigo entre o 3 e o 4, mas depois de mais do que uma vez termos conversado, lá se empenhou e fixou-se no 4 (com uns cincos nalgumas disciplinas). Não apareceu nas aulas que mantivemos na escola após o fim oficial do ano lectivo para o 9º ano. Depois do exame, percebi logo que não lhe tinha ligado nadinha. Agora, ao ver a prova dela, verifico que foi um exemplo exagerado relativamente ao menor esforço que muitos alunos fizeram por o resultado "não contar". A C. só teve nível positivo na prova porque respondeu correctamente aos items que apenas requeriam raciocínio, mas não se deu ao trabalho de responder a nenhum dos que requeriam cálculos escritos. Até a inequação deixou em branco (o que suponho que mais nenhum aluno meu fez, e vi provas de alguns que eram alunos daquele 3 não médio e seguro). Em suma, esta história só para imaginar que a mãe e encarregada de educação lhe aplicaria um valente sermão educativo se a soubesse. (Mas não deixo de me lembrar de alunos até bastante necessitados das aulas suplementares que demos, cujos pais não os obrigaram sequer a aproveitá-las - a C. até nem precisava nada dessas aulas). (E não se interprete que acredito que esta atitude tão excessiva da C. tenha sido frequente)

Uff!!

Afinal... já tenho dois dos meus três testes elaborados, as próximas aulas preparadas e o montinho das 10 provas de exame analisado! E, afinal também, nenhum grande drama nestas, que os putos já costumam ser uns distraídos, no exame ainda mais que não valia a pena concentrarem-se muito pois o nível final estava garantido (testemunhos deles). Embora eu até não pense que, mesmo que o próximo exame se mantenha com o peso dos 25%, essa atitude se repita, pois (como um deles mesmo me disse quando o encontrei por acaso), face ao desastre nacional que levou a que também eles fossem comentados, não deixaram de se sentir envergonhados e decerto os próximos vão querer ser mais briosos.
Erro aqui porque não lêem bem qual é a pergunta, penalização forte ali porque até sabem resolver uma inequação e aplicar os princípios de equivalência, mas lá vem o esquecimento de um sinal ou um erro de cálculo com números relativos depois de outros cálculos sem erro, e o resultado fica estragado, conclusão errada e lá se vão os 7 pontos quase todos, mais o zero em vez de 8 na demonstração já por todos reconhecida como excedendo as exigências do programa, mais os pontitos descontados porque não atenderam a recomendações sobre a forma de apresentar a resposta, etc. Descontos justos, que sem dúvida têm que ser educados no alerta para que um dia, na profissão, uma falta de atenção pode ser grave, mas erros não graves, que eles ainda são muito putos.
Atenção: claro que não há só isto. Há outro facto que estamos fartos de constatar, esse sim bem relevante e preocupante, mas cuja causa é complexa. Com excepção dos alunos do nível 5 ou do 4 estável, é geral a dificuldade em interpretar problemas que requerem a mobilização de conhecimentos e a evocação que leve a identificar com qual ou quais se relaciona o problema. É o caso do item da proporcionalidade, em que, com alguma frequência (não me estou a reportar só a estas 10 provas, mas a uma amostra maior, de 3 escolas diferentes, que tive como correctora) aquela palavrinha "proporcionalidade" tão deles conhecida e tão trabalhada não lhes ocorreu. É o caso também do problema que resolveriam facilmente por um sistema de equações se fosse proposto no contexto em que estão a aprender a resolver sistemas e os aplicam em problemas, ou até numa prova global em que a matriz previamente distribuída lhes lembra quais os conteúdos que serão incluídos, mas que é bem difícil de entender porque não se lembraram que equações e sistemas de equações permitem resolver facilmente problemas daqueles (em todas as provas que corrigi, só me lembro de terem usado um sistema de equações as duas alunas que tiveram resultado de nível 5; quatro ou cinco outros seguiram uma estratégia por tentativa e erro e os restantes... item em branco!!!
Mas esta questão é mais séria, fica para depois do relatório em que vamos falar de causas (não vou ficar por só as enumerar, ainda que o mais certo seja que os relatórios não passem das reuniões onde os vamos levar). E quanto às estratégias para as ultrapassar (que desde Setembro reforçámos e redigimos para uso interno), também alguma coisa comentarei sobre o assunto.
__________________________________

A.L., amiga e colega de tantos anos, aqui te deixo o desejo de que esta análise de provas das nossas turmas do 9º que ambas fizemos agora não te tenha reavivado mais ainda a tua memória recente. Sou mãe, é impossível duvidar que não possa haver drama maior que ele estar ali contigo ainda na véspera e deixar de estar de repente... e tão difícil compreender porquê! E àquelas duas turmas de 9º que recebeste sem as conhecer, uma a chegar-te tão perdida em Matemática, estoicamente não as deixaste, deste-lhes aulas suplementares a compensar aquelas a que seria humanamente impossível não teres faltado. Eu sei que adoras estar com os alunos, que eles ainda estão a ser neste momento o teu refúgio, não podia deixar de colocar aqui - mesmo que não dês por isso - a minha homenagem à tua força.
E como, sendo já tão absurda a conclusão que alguns mentecaptos apregoaram publicamente (e continuam a apregoar, só que menos publicamente), por causa de um exame, da incompetência geral dos professores de Matemática, fica isso mais absurdo ainda, não é?

sexta-feira, outubro 28, 2005

Interrupção por uns dias

Carlos Botelho (1935), Lisboa e o Tejo, Domingo

Até costumo ser organizada, mas esta semana não me tem apetecido pegar nas provas de exame, e não me servia de nada aproveitar a dispensa que podemos ter da componente não lectiva na escola, que levar para lá as provas para lhes pegar 45 minutos agora, mais logo outros tantos não me dá jeito, certas tarefas prefiro fazê-las numa ou duas assentadas e no sossego de casa. Mas, às provas (e ao relatório) juntam-se testes para elaborar, conselhos de turma, mais as tarefas habituais, profissionais e não profissionais, incluindo "a" de dormir diariamente.
Por isso, aqui o meu cantinho vai ficar abandonado nos próximos dias. Mas deixo acima uma confissão - o que gostava de ter em frente da janela da minha salinha de trabalho.

quarta-feira, outubro 26, 2005

contrastes...

Calm Sea

Hebry Moret (1896), Calm Sea at L’lle de Groux

Angry Sea

Thomas Moran (1911), The Angry Sea

Infiltrados??

Estava dialogando com um colega, noutro blog, sobre um assunto muito específico de um seu post decorrente da tarefa que ambos temos em mãos, como todos os professores que leccionam Matemática do 3º Ciclo - assunto relativo a critérios de classificação de respostas a alguns dos items da prova do 9º ano, critérios que na altura não só foram criticados pelos correctores, como também mereceram reparos da prestigiada APM. Espero poder continuar o diálogo (interrompido por intruso que não deve ter aprendido em pequenino o significado da palavra respeito) quando, após a análise que estamos a fazer de provas de alunos das nossas próprias escolas, aqui colocar um post relativo a algumas conclusões sobre pelo menos algumas das várias causas que considero concorrentes para certos resultados.
Acentuo aqui para dizer que, não me passando pela cabeça apagar alguma vez qualquer comentário que exprima opiniões opostas às minhas, passar-me-à sim de imediato não só pela cabeça como também pela mão enviar para a lixeira insultos - os quais, como é de esperar, só surgem sob a capa de anonymous. Anónimos que invadem um espaço alheio para comentários em que insistem repetidamente (alardeando até a qualidade de anónimo!), com afirmações injuriosas e gratuitas sobre quem não conhecem e que (no caso), dizendo-se professor, extravasam uma estranha raiva que legitima perguntar se será contra os colegas ou contra si próprio, pois, de facto, não devia ter o nome de professor/educador quem de educação dá o exemplo contrário.

Ganhei o dia

Não quero fazer campanhas neste blog (política... só política educativa - aqui, claro), por isso não ponho o link. Mas acabei de ir parar por acaso a um blog onde li um texto - "Que fizeram dos nossos sonhos, Manuel?" - que contém (também) um momento pouco conhecido da nossa História, década de 60. Emocionou-me... ganhei o dia.

domingo, outubro 23, 2005

domingo com jogos

Até foi uma tarde divertida. Eles brincaram sem pedir para irem para "aquelas" máquinas, também participei pois houve partida de bowling, e na hora do "tenho fome", "eu também", nem insistiram em ir ao McDonald's. Assim, foi só um nadinha pelos jogos e muito mais pelo post aqui, de Suzana Toscano, no blog Quarta República , que me lembrei de um texto que recebi há uns meses no mail (desses que correm de mail em mail, autoria perdida). Transcrevo-o, não tanto pela descrição - impossível de ser hoje real e impossível de não ser hoje insensatamente perigosa -, mas pela sua frase final.

"Será que nasceste nos anos 60 ou 70 ?
Como conseguiste sobreviver?
Os carros não tinham cinto de segurança, nem apoio de cabeça nem seguramente airbags.
No banco de trás era a festa, era divertido e não era perigoso.
As barras das camas e os brinquedos eram multicolores ou pelo menos envernizadas e com tintas contendo chumbo ou outros produtos tóxicos.
Não havia protecção infantil nas tomadas eléctricas, portas das viaturas, medicamentos e outros produtos químicos de limpeza.
Podia-se andar de bicicleta sem capacete.
Bebia-se água da mangueira de rega, num chafariz ou não importa qualquer outro sítio, sem que fosse água mineral saída de uma garrafa estéril.
Fazíamos carros com caixas de sabão e aqueles que tinham a sorte de ter uma rua asfaltada inclinada junto de casa podiam tentar bater records de velocidade e aperceberem-se, tarde demais, que os travões tinham sido esquecidos... Após alguns acidentes, o problema era normalmente resolvido!
Tínhamos o direito a brincar na rua com uma única condição: estar de volta antes de anoitecer. E não havia telemóvel e ninguém sabia onde estávamos nem o que fazíamos... Incrível!
A escola fechava ao meio-dia para almoço, podíamos ir comer a casa.
Arranjávamos feridas, fracturas e às vezes até partíamos os dentes, mas ninguém era levado a tribunal por isso. Mesmo quando havia grande bagunça, ninguém era culpado excepto nós mesmos.
Podíamos engolir toneladas de doces, torradas com toneladas de manteiga e beber bebidas com Açúcar de verdade, mas ninguém tinha excesso de peso, porque nos fartávamos de correr na rua.
Podíamos partilhar uma limonada com a mesma garrafa sem receio de contágio.
Não tínhamos Playstation, Nintendo 64, X-Box, jogos vídeo, 99 programas de TV por cabo ou satélite , nem vídeo, nem Dolby surround , nem GSM , nem computador , nem chat na internet , mas nós tínhamos.... amigos !
Podíamos sair, a pé ou de bicicleta para ir a casa de um colega, mesmo se ele morasse a alguns km , bater à porta ou simplesmente entrar em casa dele e sair para brincarmos juntos. Na rua, sim na rua no mundo cruel! Sem vigilância! Como é que isso era possível?

Jogávamos futebol só com uma baliza e se um de nós não era seleccionado uma vez, não havia traumas psicológicos, nem era o fim do mundo!
Por vezes um aluno talvez um pouco menos bom que os outros tinha que repetir. Ninguém era enviado ao psicólogo ou ao pedopsiquiatra. Ninguém era disléxico, hiperactivo nem tinha " problemas de concentração". O ano era repetido e pronto, cada um tinha as mesmas oportunidades que os outros.

Nós tínhamos liberdades, erros, sucessos, deveres e tarefas ... e aprendíamos a viver e a conviver com tudo isso.
A pergunta é então: mas como conseguimos sobreviver ? Como pudemos desenvolver a nossa personalidade ?
Será que tu também és desta geração?

Se sim, envia esta descrição aos teus contemporâneos, mas também aos teus filhos sobrinhos e sobrinhas, etc. para que eles vejam como era, naquele tempo!

Eles vão achar que a nossa época era aborrecida .... ah, mas como éramos felizes !"


sexta-feira, outubro 21, 2005

"End of the day"

D. W. Tryon (1883), End of the day

Mais um escape

Fim de dia, fim de semana. Não me vai apetecer escrever. Já li a entrevista da Srª Ministra, já vi o último candidato à presidência da República, estou a entrar em fim de semana... não me apetece escrever, nem trabalhar, nem ter na cabeça governos, sistemas educativos, coisas dessas.
Já folheei as provas de exames de alguns dos meus alunos do ano passado e, a seguir, meti provas, grelhas e outra papelada num envelope e guardei-o fora da minha sala de trabalho, para não ter tentações, pois quero fim de semana!!

Para domingo, já o neto me propôs programa, a pretexto de que haverá novidades naquela coisa pouco a meu gosto e da minha bolsa, ali ---->


Mas haverá compensação, que terminamos numa partidinha aqui -->
Há 3 meses que não jogamos, vamos ver se ele já fez progressos e desta vez me ganha ;)

quarta-feira, outubro 19, 2005

Afinal...

Lamentara eu não poder ter acesso às provas de exame de Matemática da minha turma de 9º ano do ano anterior, para as analisar dado que tive descidas, no exame, de níveis que atribuíra (análise que, penso, todos os professores que leccionaram o 9º ano têm interesse em fazer relativamente aos seus próprios alunos, independentemente do número de descidas que tenham tido). E, afinal, as provas estão ali mesmo perto de mim, guardadas no cofre da escola sob a ideia de confidencialidade! (Até supunha que tivesssem sido reenviadas ao GAVE).
Foi preciso o GAVE desencadear um trabalho de análise das provas dos alunos das nossas próprias escolas para lhes termos acesso, trabalho que já podia estar feito, e que agora será realizado com aparato (reunião prévia, autorização para entrega das provas aos professores de Matemática que leccionam 3º ciclo, distribuição de grelhas de análise, entrega de relatório final e mais uma reunião pelo menos). Mais uma vez, uma ideia implícita de que é necessário dar ordens para que os professores se preocupem com o trabalho necessário, e, provavelmente, mais alguma passagem televisiva para a opinião pública da ideia de que eles precisam de ser ensinados sobre as competências matemáticas que importa desenvolver nos alunos - o mesmo que insinuar que a culpa é toda dos professores, que nem se esforçam por isso???
Srª Ministra, quando lhe ocorre que quem, mais que ninguém, conhece as lacunas dos alunos e as suas causas são mesmo os professores? Ou não são os mesmos (pelo menos na maior parte), os professores que, no 3º Ciclo, preparam, para serem bem sucedidos no Ensino Secundário, aqueles alunos que aspiram a prosseguir estudos em áreas em que a Matemática é fundamental e aí têm os dezoitos e dezanoves nessa disciplina, e os que só conseguem preparar outros para se "aguentarem" numa Matemática menos exigente que não seja decisiva para as aspirações que até são ajudados a definir no trabalho de orientação profissional que é relizado ao longo do 9º ano, e ainda os que se esforçam para que os outros ao menos terminem o 9º ano com essas competências gerais que tanto importava que adquirissem todos, mas lidando com condições que em nada ajudam - não só sociais, não só também as decorrentes da demissão educativa de bastantes famílias, mas igualmente (se não principalmente) as decorrentes de enormes deficiências e erros sucessivos no nosso sistema educativo, como se fossem os professores (sozinhos) que o governam desde há anos e anos de sucessivos Governos?
Srª Ministra, espero que desta vez tenha o bom senso de não associar a este trabalho de análise que vai decorrer e que, em si, é importante, aquele seu jeito de abrir campo aos fazedores da opinião pública em prol do desprestígio de uma classe profissional fundamental - foi o erro maior de todos os que cometeu, srª Ministra, espero que já tenha conseguido percebê-lo.

terça-feira, outubro 18, 2005

Preparando-me para novidades em Matemática

Num "olhar crítico" sobre as passadas provas de Matemática do 9º ano, em artigo publicado na revista Educação e Matemática da APM (nº 84, Setembro/Outubro 2005), pode ler-se: "A análise dos resultados alcançados pelos alunos neste exame é sem dúvida outro dos aspectos que nos merece toda a atenção. Neste momento só é possível fazê-lo em termos gerais, pois não é ainda conhecido um estudo estatístico que nos revele quais os itens que obtiveram maior sucesso e maior insucesso" (destaque meu).

Estão a decorrer reuniões parcelares, cobrindo os professores de Matemática que leccionam 3º Ciclo. Porque ainda não tenho uma informação completa e precisa, esta fica para amanhã, mas a que me chegou leva-me a preparar-me/prevenir-me para a eventualidade de mais uma medida que forneça o referido estudo de forma cómoda e gratuita para o GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação).

segunda-feira, outubro 17, 2005

...





No escuro da noite
o sol
aguarda a sua vez.

Mésseder












William Glen Crooks, As the Sun Rises

ADENDA

Não imaginava que isto de ter um blog viesse a ser benéfico ao meu estado de espírito. Pensamentos e reacções que saiem de momento vão não só encadeando-se, vão também repensando-se, num pensar escrevinhando. E a verdade é que poetas de poemas que não saberia escrever ou pensar, e mestres da pintura que não saberia pintar, me vão permitindo também uma espécie de fala metafórica apenas de mim para mim, libertadora de estados de espírito menos positivos que inevitavelmente me causam as situações dentro das quais vivo constantemente como profissional, e também como cidadã num país e num mundo. Cada um só tem um momento de vida para viver, por isso é natural que se viva muitas vezes o presente como se fosse tudo - passado, futuro, até História -, e que o que nos afecta tenda a tornar-se o centro, reduzindo-nos a capacidade de reparar nas flores, no olhar das crianças, nas coisas bonitas que serenam, bem como nos processos dialécticos por que passa o evoluir, enfim, nesta coisa toda que é a vida, cada geração com muita gente a ter sonhos mesmo que sejam só para que o mundo pule e avance para os netos e bisnetos.

domingo, outubro 16, 2005

Preparar só para a sociedade/mundo vigente?

Apenas uma memória

(Alguém - já não consigo precisar quem - contava que, pensando em debates com alunos sobre valores, uma aluna dissera que pertencia a uma juventude sem valores. Eu vivi acompanhada por uma geração - ou várias seguidas - norteada por valores; hoje, entre muitos jovens que ainda vemos/ouvimos defendendo valores de sempre, já me aconteceu ouvir directamente a um ou outro (crescido, estudos já cumpridos) respostas que se podem resumir assim: Quais valores? Com os vossos (vossos, leia-se os dos velhotes) não me safo; mas isto tudo já aconteceu numa só vida em que ainda posso esperar ter tempo para observar uma terceira, nova fase).

Era o ano lectivo de 72/73 - o meu 3º ano de ensino no então chamado Ciclo Preparatório - numa escola de Lisboa (Leccionara antes um ano, mas no ensino nocturno, a adultos, numa escola do Barreiro). "Novas correntes pedagógicas" chegavam do exterior - a censura não via motivos para se preocupar com assuntos de mera pedagogia. Eu ainda não tinha ligações políticas, funcionava "inocentemente" de forma natural e intuitiva, apenas, na escola, tinha afinidades "profissionais" com duas colegas que, embora suspeitasse, só de facto soube no 25 de Abril que tinham contactos clandestinos.
Suponho que bastantes professores, com suporte nas (ou a pretexto das) novas correntes pedagógicas, proporcionaram aos seus alunos vivências democráticas na sala de aula, à revelia de uma sociedade interna não democrática. Eu, embora considerando já a metodologia do trabalho em grupo especialmente adequada à aprendizagem da Matemática, também não me limitava ao objectivo dessa aprendizagem. As alunas participavam na análise do funcionamento das aulas, havia assembleias de aula (não me lembro se já lhes chamava assim), e também assembleias de turma no âmbito da direcção de turma. Mas os temas não excediam as questões escolares (só de vez em quando elas abordavam o autoritarismo do ensino noutras aulas), pelo que não chegava a ser uma professora suspeita - soube no 25 de Abril que a directora tinha o cuidado de se certificar disso indo de vez em quando escutar à porta da minha sala de aula, situada no fundo de um corredor.
No entanto, um dia, depois de eu ter promovido, a pedido das alunas da minha direcção de turma, uma reunião com todas as professoras da turma (reunião que estas não tiveram argumentos para recusar mas prepararam de modo a inibir as alunas de colocarem as questões que queriam), a directora quis falar comigo, e a pergunta que me ficou na memória foi: Não acha que não está a preparar as suas alunas para a sociedade em que vivem? Respondi apenas que não, que não achava, e a conversa ficou por aí.
Talvez, de facto, não estivesse a prepará-las, talvez as vivências democráticas da sala de aula fossem decepcionantemente cerceadas na sociedade a que, mais crescidas, teriam que adaptar-se - sociedade que muitos ainda esperavam que permanecesse. Mas, apenas um ano depois acontecia o 25 de Abril.

_____________________

Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial , na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.


Bertold Brecht

Sugestão de leitura

Aqui.

sexta-feira, outubro 14, 2005

...

G. H. Levade, On the way Home from School

Aulas

Uff! A primeira etapa parece ter sido percorrida, no essencial!
Uma das minhas duas turmas de 9º não tinha sequer que a percorrer - tenho-a desde o 7º, eles estão há que tempos integrados no método de funcionamento da aula. Alguns "trabalhos" que me dão decorrem de que são adolescentes - mas há melhor do que isso, a não ser ser-se criança?
Quanto à minha outra turma de 9º, é aquela que já designei aqui por "a minha turma difícil", dizendo então: "Uma das turmas de 9º que vou ter, e que já tive no 8º, já me anda na cabeça antes de começarmos. A pergunta "como vou fazer?" segue-se à pergunta que me fazia no 3º Período do ano anterior, "posso fazer alguma coisa?". No ano passado, até não chegava a ter 20 alunos, e agora lá teve que recomeçar a etapa devido a um número considerável de novos alunos - etapa de eliminação de hábitos estranhos de comportamento em certas aulas (estranhos dado que já as frequentaram durante vários anos, mas o conceito de permissividade anda muito variado), etapa de "contratos" de não desestabilização, etapa de passagem de um alheamento inicial (de que a Matemática é alvo privilegiado nos alunos repetentes) para uma integração facilitada pela dinâmica de grupo e pelos reajustamentos na composição dos grupos que a turma foi encarregada de propor (ao que os alunos mostram sempre corresponder com sabedoria). Além disto, tenho este ano a "minha turma difícil" também em Estudo Acompanhado, o que me proporciona uma relação professor - alunos mais abrangente e uma acção mais cativante para eles. (Ao menos, que valha para alguma coisa passar a dar esta aula para completar o meu horário lectivo devido à retirada do direito a redução por cargo pedagógico). E, a verdade (que prova que o pessimismo é sempre um erro) é que até vou começar a próxima aula com a afixação no quadro de um A4 com letras gordas intitulado Avaliação, para dizer uma coisa que a turma em geral está a merecer: que está a revelar progressos em relação ao desgraçado ano anterior (sem o "desgraçado", claro).
Finalmente, a minha nova turma, um 8º ano, igualmente com um número considerável de alunos repetentes pouco fáceis, também está com a etapa percorrida no essencial - com essa só hoje consegui que começassem a funcionar em termos propriamente de trabalho em Matemática, por isso é que foi hoje que me saiu o uff!! do início deste post (e o próprio post).
Claro, continuo (e é previsível que continuarei todo o ano) a ter alguns alunos (o alguns "arredondado" por defeito) a que tenho que estar sempre tão atenta como à minha neta quando se aproxima o atravessar de uma rua, senão seria mais que certo que atravessariam aulas em completa distracção, mas isso já faz parte do cuidar de rotina, que sem cuidar destes e daqueles a profissão ficava assim como aquela pessoa que eu seria se não agarrase a mão da minha neta antes de chegarmos à berma do passeio.
_____________________________________________
(Adenda no post abaixo.)

Para além (ou aquém) de ideologias

Peço perdão pela batota que vou fazer na hora/ordem de publicação deste post, mas o "Aulas" significou em definitivo o meu distanciamento da confusão reinante (em que me agride movimentar-me) até que a evidência das consequências obrigue à desconfusão. Mas, esqueci-me de justificar esta decisão de distanciamento com uma máxima pessoal, que se segue.

Pior que ideários em que valores de justiça e equidade social não são os mais prioritários, e que finalidades distorcidas, ou objectivos hipócritas, ou estratégias erradas/ineficazes, pior que isso ainda é, para mim, a incompetência técnica, a ignorância e a proa desta - a arbitrariedade -, isto a qualquer nível de governação: do país, de um sector, de uma autarquia, de uma empresa, de uma escola, ou até de um chefe de família. E, quaisquer medidas globais podem ser controversas, mas pior que tudo é se incluem medidas específicas avulsas, completamente desnecessárias no âmbito dos objectivos das medidas globais, inúteis e até prejudiciais, e bloqueadoras de outras possíveis de serem válidas, mesmo que no quadro discutível de uma prioridade economicista.
Em suma, penso que incompetências/ignorâncias, mesmo que no âmbito de boas intenções em termos teóricos, são factores que podem concorrer para colocar um sistema sectorial ou mesmo um país na fila da mediocridade.

Acrescento, a propósito, os seguintes extractos:

quarta-feira, outubro 12, 2005

E agora...

vou dormir, que preciso de ter sonhos cor de rosa.

Foi há muitos anos, ainda pela década de 70, mas a frase ficou-me gravada na memória.
Estávamos numa aula de fim de Período, a turma fazia o balanço. E, claro, a professora também ia a balanço, que essa aula chamava-se mesmo uma assembleia (da aula) de Matemática. Quando chegou a vez disso, depois de outras apreciações, uma aluna - devagar, como quem escolhe as palavras certas - teve esta frase espectacular (ela tinha, no máximo, 12 anos): "Bem... também há aqueles dias em que a stôra não teve sonhos cor de rosa".

...

Feodor Vasilyev

A História anda a passo de caracol...

... digo que anda pois eu até acredito que mesmo a passo de caracol, ela anda.

(No meu mail tive hoje a informação detalhada de mais uma escandalosa-choruda reforma aos 50 anos, razão porque vim ao meu blog com mais uma irritaçãozinha)

sexta-feira, outubro 07, 2005

...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

Reflexos da passagem de uma ministra pelo ME

Um comentário-resposta do Miguel Pinto a um meu comentário (pergunta) relativo ao seu texto [Ex]citação, embora eu partilhe do essencial do seu ponto de vista, suscitou-me um receio.
Tendo começado por lembrar que tentativas de soluções e erros, no domínio da educação, dos nossos administradores (actuais e anteriores) não são originais, mas repetições do que já foi testado em países mais desenvolvidos que o nosso, o Miguel diz: "O problema é que o nosso atraso educacional é imenso quando comparado com esses mesmos países e não nos podemos dar ao luxo de perder mais tempo. Já que os nossos ministros insistem em andar de costas voltadas para a investigação em educação seria bom que os professores se antecipassem e agissem em conformidade com os resultados desses trabalhos."
Mas o que interrogo, nesta perspectiva do Miguel, é a ideia, que também expressa, de que, tal como a dos antecessores, a passagem desta ministra pelo ME "deixará um rasto mais ou menos inócuo".
Ora, embora admitindo que o meu receio enferme de uma subjectividade decorrente da minha pessoal e muito forte reacção a determinadas atitudes que me lembram ambientes sufocantes do passado, receio de facto que a passagem desta ministra pelo ME seja bem menos inócua que outras, pelas marcas que poderá deixar nos professores, na sua disponibilidade e no seu modo de encarar a sua participação em mudanças no sentido da qualificação da educação dos jovens portugueses.
Por um lado, cada professor que tenha a consciência e o reconhecimento externo de cumprir a sua missão com profissionalismo e dedicação não terá deixado de sentir o direito à protecção do seu bom nome lesado por fazedores da opinião pública, sobretudo por altura de Junho-Julho últimos - e não sei se será fácil esquecer isso. Foi um primeiro grave erro da presente administração, pois não deixou de ser conivente com tal.
Por outro lado - e outro grave erro - foi a extrema prepotência, fortemente agressiva para os que se norteiam por princípios democráticos, caracterizada pelo desprezo quer por uma apresentação prévia de projectos aos intervenientes no processo educativo, quer por qualquer diálogo com os mesmos.
Cingindo-me neste post às medidas directamente dirigidas à educação e ensino (e até independentemente de, em nome da sua melhoria, serem arremedos de educação ou de pedagogia), não esqueço que os sindicatos têm um papel próprio e um âmbito negocial delimitado por esse mesmo papel. Mas, que se saiba, também não houve consulta nem diálogo quer com entidades individuais ou colectivas de reconhecido conhecimento da investigação em educação (insistência em lhe manter as costas voltadas, como lembra o Miguel, numa preferência por conselheiros mais convenientes e de duvidosa credibilidade), quer com as associações profissionais de professores, vocacionadas não para a vertente sindical, mas para a recolha do património nacional e internacional no âmbito do conhecimento em matéria de educação, ensino e aprendizagem e para a sensibilização dos professores para o mesmo. No entanto, estas associações têm estatuto legal como parceiros no âmbito de pareceres e diálogo. (Um parêntesis para esclarecer que a APM foi chamada a participar na elaboração do programa de reforço da formação em Matemática dos professores do 1º Ciclo, mas essa chamada insere-se numa colaboração técnica, escandaloso seria se fosse esquecida dado o seu conhecimento dos amplos e valiosos trabalhos feitos no âmbito da educação matemática. No entanto, não eram ouvidas as suas chamadas de atenção para as insuficiências e deficiências - degradação, digo eu menos delicadamente - dos cursos de formação de professores do 1º e do 2º Ciclos). Não houve, igualmente, qualquer auscultação aos que, no terreno, bem conhecem medidas prioritárias que urgiria serem tomadas.
Este desprezo pelo diálogo foi demasiado ostensivo para que venha também a ser fácil aos professores esquecer o que foi, em suma, público desprezo por eles mesmos. E, por mais que saibamos que as medidas são economicistas e não de verdadeira preocupação com a educação, há limites que têm a ver com a dignidade profissional e não só, também com, globalmente, a dignidade pessoal.

São estes os receios que deixei dito ao Miguel que expressaria.
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Adenda:
Acrescento a sugestão de leitura do Miguel:
Philippe Perrenoud (2002). Aprender a negociar a mudança em educação.

E transcrevo também este extracto do comentário que aqui deixou:
"Na contracapa diz o seguinte: […] uma reforma conduzida sem ou contra os actores não só falha como deixa feridas e contribui para o desenvolver de mecanismos de defesa contra toda a inovação. […]
A Dra. Maria de Lurdes estará preparada para lidar com os efeitos das mudanças que pretende operar no sistema?"

quinta-feira, outubro 06, 2005

"Diálogo"

Sonja Svete (2001), Dialogue

Maquilhagem ou bravata?


E como se vai poder saber (?) se, enquanto o consciente de Sócrates falava, via jornalistas, aos cidadãos eleitores, o seu subsconciente não murmuraria: - Até podia haver mais guerra, para eu mostrar como os abateria a todos com a minha prepot..., perdão, com a minha maioria absoluta! (Intervenção atempada do inconsciente a fazer certa palavra soar como nada democrática).