terça-feira, setembro 06, 2005

Passividade, NÃO!

Peço desculpa, a quem eventualmente tenha lido o texto que aqui tinha escrito, por o ter substituído. Retirá-lo nada teve a ver com o texto, mas com a oportunidade dele num momento em que ainda não estão criadas as condições para pensar a escola. Estamos ainda em dias de preocupação com as nossas próprias condições de trabalho, nem sequer conhecendo os nossos novos e mais longos horários, e não sabendo se (ou como) vamos poder tornar pedagogicamente úteis aos alunos as novas tarefas, dando a volta às aberrantes preocupações prioritárias com que a Sra. Ministra as impôs precipitadamente: "para que nenhum aluno ande no recreio ou esteja desocupado" (como disse numa das reuniões com presidentes de conselhos executivos), esquecendo que a elevação da qualidade da educação e a dignidade profissional dos que pugnam por ela não admite arremedos de actividades para entreter meninos.
Por isso, por agora, mantenho apenas o título: Passividade, NÃO!

P.S. O post seguinte explica este.

sábado, setembro 03, 2005

Entremeando

Afinal, apresentei-me 5ª feira, mas fiquei com um fim de semana prolongado. Na minha escola as actividades (reuniões) só começam na 3ª porque ainda se está em final de obras. Não que tenha havido alguma verba adicional, claro, mas o nosso Sr. Fernando lá vai atenuando o aspecto dos pavilhões que, desde há uns 20 anos, são provisórios, com alguma pintura aqui, alguns remendos ali, e arranjando mais um espacinho acolá com um tabique a criar dois espaços num que já era reduzido.

Entretanto, mais (más) notícias na Educação, outras fora dela, nacionais e internacionais, continuam a fazer-me teimar em entremear a visão da realidade do país (e do mundo) que temos com outras visões. Outras esperanças também.
Vão-se sonhos nas asas da Descrença,
Voltam sonhos nas asas da Esperança.
(Augusto dos Anjos)

Amanhã vou vencer a preguiça de sair da cidade e vou à praia ver o mar.

Henri Moret (1905), Calm Day

Adenda
: Eu tenho a sorte (pelos muitos anos de serviço) de já não ser congelável (só quando o congelamento é de salários). Mas que raio de medida é mais esta agora de irem congelar por 3 ou 4 anos a esperança de quem ao menos esperança ia tendo de num próximo ano não ter que se despedir da família ou não fazer tantos quilómetros diários??!!!
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Juntos,

um homem e a brisa

viram uma página


Betty Drevniok


Claude Monet (1873), Sunrise

quarta-feira, agosto 31, 2005

Fim das férias!

Que ideia essa de pintarem o fim de férias a cor de rosa!!! Ainda mudei para tons de cinza, mas depois lembrei-me das filosofias do pensamento positivo, do não contrariar os sinais que a vida nos dá, etc.... Bem, não foi a vida, foi só o Google que me acenou com o cor de rosa, mas, pelo sim, pelo não, decidi não contrariar...
Pode ser que o J.M. (o meu presidente) amanhã tenha alguma notícia cor de rosa. Além de que... que cor iria eu dar às férias do C.C. e da M.M. (equipa de horários), que se dispuseram a ter férias na 2ª quinzena de Julho para começarem a trabalhar a 1 de Agosto? (A puxarem pelos neurónios para não haver horários zero e para não porem tarefas absurdas nas tais horas...) (Ainda negam que os professores é que vão impedindo que as escolas vão ao fundo?)


Adenda (1 de Setembro) - Bom ano lectivo para todos!_____________________________________________________


Ya se ha abierto
la flor de la aurora.

(¿Recuerdas
el fondo de la tarde?)

El nardo de la luna
derrama su olor frío.

(¿Recuerdas
la mirada de agosto?)

Federico García Lorca

terça-feira, agosto 30, 2005

Hora de intervalo

Tú querías que yo te dijera
el secreto de la primavera.

Y yo soy para el secreto
lo mismo que es el abeto.

Árbol cuyos mil deditos
señalan mil caminitos.

¡Ay! No puedo decirte, aunque quisiera,
el secreto de la primavera.

Federico García Lorca

Afinal, a quem cabe endireitá-la?

Ora respondam, por favor!
Nem que seja para animação...

Deixo hipóteses de respostas
e pontinhos em aberto.
(Preferia que preenchessem
os pontinhos...)

- Ao governo?
- Aos professores?
- Às ciências da educação?
- À sociedade?
- A mim (genérico)?
- A empresários? (credo...)
- Aos alunos? (E se os puséssemos 1 semana a governar a escola?... Quem sabe se não dariam umas ideias...)
- ........................................

segunda-feira, agosto 29, 2005

Recomeçando a reflectir no "déficit" em Matemática

O Miguel Sousa chamou a atenção para um post sobre o pensamento crítico, num blog a seguir referenciado por link. Dele transcrevo o seguinte:
É mesmo: não conhecemos a dimensão do problema nem a sua origem.
Deixo duas breves achegas (mais como interrogações), guardando, para quando conseguir rebuscar, em artigos acumulados aqui por cantos da casa, referências a investigação que as fundamentem (investigação que confesso não saber se também tem sido feita em Portugal).

Primeira: A incapacidade (prefiro dizer dificuldade) referida é conhecida pelos professores de Matemática logo nos 2º e 3º Ciclos desde há tanto tempo quanto me lembro de ensinar. Embora não deixando de me interrogar sobre se, face ao tempo requerido pelos programas para ensinar "a matéria", não teremos nós professores deixado insuficiente espaço para trabalhar mais nessa dificuldade geral dos alunos (geral, com excepções que são as daqueles alunos de nível excelente), não tenho deixado também de me interrogar sobre se essas dificuldades não terâo algo a ver com um estádio de desenvolvimento em que, por exemplo, capacidade de formulação de hipóteses, de relacionação e de raciocínio dedutivo estão ainda incipientes. Até me interroguei, na altura, sobre a adequação, no nosso país, à mudança da idade de ingresso no 1º Ciclo aos 6 anos completados para o ingresso ainda com 5 anos. Tem sido frequente deparar-me com bons alunos, com evidentes boas capacidades, a necessitarem de maior esforço do que outros colegas e a terem dificuldades na resolução de problemas, a quem pergunto, entraste para o 1º Ciclo ainda com 5, ou já com os 6 anos, sendo sempre a resposta a que espero: 5 anos.

Segunda: É largamente conhecido o chamado "problema da transferência" (e foi identificado e estudado há bastante tempo) - os alunos não transferem aprendizagens feitas num contexto, para outro contexto.
Um simples exemplo disso é bem conhecido de professores de Matemática e de Física logo no 8º ano, quando o professor de Matemática tem o cuidado de iniciar e trabalhar equações literais quando vão ser necessárias em Física, incluindo as fórmulas do programa de Física, e o professor desta disciplina tem que, a seguir, repetir o trabalho, com, por um lado, perplexidade de ambos, por outro, já familiaridade com o caso. Quantas vezes tenho perguntado a turmas: Como é que a vossa professora de Física diz que não sabem resolver, não é o mesmo que aprenderam, e sabem fazer, aqui?
Pergunto-me? Isto tem a ver com o tal problema da transferência? Porquê? Tem a ver, nesta idade, com o binómio conhecimento conceptual - conhecimento procedimental, ou com o binómio conhecimento declarativo memorizado, mas não apreendido - conhecimento procedimental?
(Não nego que alguns professores "pequem" por quase reduzirem o ensino da Matemática ao ensino e treino de procedimentos exigidos pelo programa de modo a que os alunos os mecanizem, mas isso não é para aqui chamado pois é uma completa inverdade que tal corresponda ao geral)

P.S. Assumo que escrevo este post sobre o joelho, motivado de imediato pela leitura do texto acima transcrito. Não pretendo reduzir, nem o problema, nem a necessidade urgente de estudo sobre as suas causas latas.

sábado, agosto 27, 2005

Calma

Domingo
Andava também a esquecer que, mesmo quando parece parado, o mundo pula e avança (até porque não se extinguem os homens que sonham) ;)



Imóvel,
o barco.
No entanto, viaja.
Yeda Prates Bernis


Claude Monet (1887), La Barque

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Sábado
Ando a esquecer que "a História nunca parece História quando a estamos a viver".
Vou aproveitar o último fim de semana das férias...

Calm

(Foto de Marc Appezzato)

sexta-feira, agosto 26, 2005

Porquê?

Porque temos sempre a esperança com cerca??
Porquê também a mediocridade consegue ser ditadura?



...Neste país do pouco. Neste país do pouco.
(Manuel Alegre, 1981)

Preparando-me...

Com o regresso à escola a aproximar-se, já recortei dos catálogos de livros as compras mais urgentes.

Este último
(O Feiticeiro de OZ)
não é para mim, é para ofercer à Milu R.

Ah! E também não me posso esquecer de comprar esse recipiente que falta na sala de professsores, que o presidente do C.E. não consegue pensar em tudo, apesar de se desvelar na protecção do ambiente.


P.S. Tudo compras para consumir na primeira quinzena de Setembro, claro. Depois, tenho os alunos, portanto, depois, não me chateie, Senhora Ministra, que só repararei em si se acaso fizer alguma coisa por eles.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Aos que aguardam colocação

Opening to Tomorrow


Karen Vernon

Eu sei que não sabem ainda para onde irão com a casa (leia-se vida) às costas... que nem sabem ainda quando vão saber. E solidariedade é uma palavra inútil perante a indiferença dos que comandam (sem pressa, que a vida dos professores não faz parte das prioridades) estavelmente sentados, e ainda afrontam com escândalos de certos subsídeos de deslocação. Deixo apenas estas flores, pensando no seu título. Porque eu acredito sempre num outro amanhã.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Que silêncio!!


ADENDA
Achei que uma ilustração surrealista era apropriada...

Silêncio com surpresas ou sem surpresas?
Alguém me dá notícias?
A Senhora Ministra está de férias? Nunca mais a vi nem ouvi, não é que tenha saudades, só não sei se deu algum passito atrás. (Não é ingenuidade minha, é só hipótese de lhe terem mostrado o previsível caos do recomeço escolar... nem sei se vou encontrar a escola cheinha de professores o dia todo, mas fechada por falta de funcionários auxiliares).
O Educare parece de férias, a Fenprof ainda mais, nos jornais nunca mais vi a secção Educação.
Serei eu que ando pouco atenta e já está tudo negociado, programado, organizado... escolas renovadas e entusiasmadas e eu aqui a continuar a pensar cobras e lagartos?

sábado, agosto 20, 2005

Ora esta...!




Métodos de ensino... manuais escolares... Onde estava a minha cabeça, para tais assuntos em férias??!!
Xôô... agora vai para fim de semana!

Manuais escolares

Ontem fui a um hipermercado, reparei logo no grande anúncio "Regresso às aulas" apontando a secção de material escolar, o que me trouxe à memória o meu habitual litígio com os manuais escolares - dizendo mais precisamente, com o manual de Matemática, que é com esse que lido. Litígio que, enquanto pessoal, não teria importância, pois só me dá o trabalho de gastar mais um pouco de tempo a seleccionar o que possa aproveitar do manual (que é importante que os alunos o usem, além de que custou caro) ao planificar as minhas aulas. (Minhas, sim, malgrado os autores dos manuais os elaborarem extensamente como se as aulas de cada professor fossem obviamente as que as suas cabeças concebem).
Mas, aparte o meu litígio pessoal não importante, a verdade é que o negócio das editoras com os manuais foi progresivamente tendo consequências negativas de não pouca importância. Seja porque alguns professores se sentem obrigados a tornar o manual no seu guia de aula dado que os alunos o compraram a alto preço, seja porque a concorrência leva os próprios autores a recheá-los tornando-os um aliciante à dispensa da planificação pessoal e autónoma das aulas pelo próprio professor. E, assim, alguns (eu evito sempre dizer muitos porque os casos que observo são de facto poucos) passaram a dar as aulas consoante a gestão ("flexível") do curriculum concebida pelos autores, usando as estratégias que estes entendem ditar (para qualquer turma e quaisquer alunos), propondo os problemas e exercícios profusamente a jeito de não se ter que os criar, mas em que cada vez menos se consegue discernir critérios de escolha, ordenação ou graduação (a não ser, por vezes, o de ser o problema "engraçadinho"). E com essa auto-incumbência de tudo fornecerem ao professor, acrescida do trabalho de procurar bonequinhos acessórios a encarecerem o dito e a infantilizar os alunos, é natural que lhes sobre menos tempo (aos autores que concorrem às editoras, cuja concorrência, por sua vez, impõe assim) para se preocuparem com uma organização simples e uma clareza que torne de facto o manual acessível e, portanto, útil ao aluno - além de que seria menos oneroso se se cingisse ao necessário dado que o manual é (devia ser) o manual do aluno, não é (não devia ser) o manual do professor.
Também o rigor científico nem sempre anda nas preocupações da negociata, e inevitavelmente escapa o errozito científico aqui e ali a quem escolhe a braços com umas duas dezenas de manuais chegados em catadupa e em cima da hora para analisar em 15 dias no meio do intenso trabalho das últimas semanas de aulas.

P.S. Quase no final de escrever este post fiz uma breve pesquisa e encontrei:

sexta-feira, agosto 19, 2005

E quando a primavera...

(Ainda a propósito de autonomia)

E quando a primavera começa a produzir mais conversa e menos trabalho, é frequente eu fazer um grande discurso que pouco efeito tem nos efeitos da primavera. Mas isso é porque também tenho altos e baixos, fadigas e caídas na rotina que me fazem andar um tanto esquecida de que mais eficaz do que meus discursos é "passar a bola" da análise da situação e das decisões responsáveis para a turma. Uma mesa a presidir e a ordenar a discussão, a stora pedindo a palavra o menos possível...
Dizemos muito que eles precisam de ser mais responsáveis pelo seu estudo (e é verdade), subscrevemos também que educar é preparar para a autonomia, mas esquecemos (eu pelo menos às vezes esqueço, apesar de o saber bem) que eles são capazes de ser autónomos e responsáveis quando mostramos que acreditamos nisso e nisso apostamos.

(Que coisa, as poucas fotos que tenho são de quando leccionava o 2º Ciclo, mas serem dessa idade até reforça o que acabei de dizer)

quinta-feira, agosto 18, 2005

Matemática e métodos de ensino

A minha necessidade de aproveitar as férias todas para destressar da actual política educativa (ou pseudopolítica educativa) não se estende às coisas da sala de aula - aí estão só os alunos (e eu).

Encontrei, numa entrevista de conceituado professor universitário ligado às questões do ensino da Matemática e à investigação nesta área, uma citação do grande matemático português do século XX, José Sebastião e Silva: “A modernização do ensino da matemática terá de ser feita não só quanto a programas mas também quanto a métodos de ensino. O professor deve abandonar, tanto quanto possível, o método expositivo tradicional, em que o papel dos alunos é quase cem por cento passivo, e procurar, pelo contrário, seguir o método activo, estabelecendo diálogo com os alunos e estimulando a imaginação destes, de modo a conduzi-los, sempre que possível, à redescoberta”. Lembrei-me então da 2ª questão que deixei agendada para pós-férias no meu post de 25 de Julho, que aí resumi assim: "Da defesa e até luta de bastantes professores de Matemática pela adopção generalizada de novas metodologias especificamente adequadas ao ensino-aprendizagem dessa disciplina nos anos da escolaridade básica (novas na prática, que nada novas nas teorias e investigações na área da educação matemática), até à resistência que não se situa apenas nos próprios - os professores de Matemática -, mas na cultura e/ou clima ainda prevalecente na escola portuguesa."

Creio que a parte da afirmação de Sebastião e Silva relativa a expor mantendo diálogo com os alunos é uma questão ultrapassada na escolaridade básica, pois julgo que nenhum professor conseguiria manter, nessas idades, os alunos mais do que cinco minutos atentos sem uma constante interacção com eles. E, embora a isso se chame método activo, não é isso por si só que, a meu ver, retira o cunho de ensino tradicional ao ensino-aprendizagem da Matemática, podendo esse diálogo não ser mais do que um expediente para a captação da atenção num método que não deixa, por isso, de privilegiar a exposição.
Mas, Sebastião e Silva acrescenta o que é o cerne da questão: a condução dos alunos à descoberta/redescoberta. E aqui lembro um dos meus lemas de sempre: qua a Matemática não entra pelos olhos ou ouvidos, mas pelo lápis no papel.
Não cabendo num post escrito ao correr das teclas enveredar por fundamentações teóricas, lembro apenas que da defesa e luta de bastantes professores nas décadas de 70 e 80 pela assunção de uma estrutura de funcionamento das aulas de Matemática assente no trabalho em grupo e respectiva dinâmica se chegou ao apoio mediante directrizes claras do gabinete de Matemática, a dada altura existente na Direcção Geral do Ensino Básico, no sentido de um método, efectivamente adequado à aprendizagem da Matemática, baseado na referida estrutura de funcionamento. Directrizes que se foram desvanecendo na resistência (talvez por insegurança devida a formação insuficiente para tal) dos professores de Matemática e também à desistência de alguns face à surdez de certas escolas à necessidade de não criarem obstáculos práticos à existência de salas apropriadas à exequibilidade de tal método.
Não me imagino a seguir outro, em toda a minha vida só entendi as aulas de Matemática assim. E os alunos também entendiam (e entendem) a diferença positiva, por isso colaboravam nos mais diversos expedientes no tempo em que o mobiliário de sala de aula (as carteiras, que não sei se ainda existem nalgum museu) de facto os requeriam para poderem trabalhar em grupo.

E aqui, trata-se de outra interacção bem para além da interacção professor aluno: a interacção entre os alunos, nos grupos e entre grupos, enfim, na aula toda.
Poder-se-ia pensar que o trabalho em grupo também não se trata de mais do que um expediente para substituir a real dificuldade de apoio constante a pelo menos 25 alunos pela maior facilidade desse apoio a um máximo de 6 grupos. Mas esquecer-se-ia o que de essencial essa estrutura de funcionamento dá aos alunos, preparando-os para um posterior ciclo, o Secundário, em que factores como a extensão dos programas decerto não a tornam exequível, mas em que também já não é imprescindível.
Dá-lhes uma relação com a Matemática baseada no trabalho de descoberta (também na tentativa e erro e compreensão deste), por si mesma desafiante como o mostram as frases frequentes: stora, não corrija ainda, deixe-nos acabar; stora, não explique ainda, já estamos a ir... . E dá-lhes sobretudo autonomia no trabalho nessa disciplina, pois trabalham uns com os outros, sim, mas boa parte da aula sem professor, cujo papel, além de exposições obviamente também necessárias, é o da explicação e do apoio apenas indispensáveis, que, na dinâmica criada, eles próprios (os putos) fazem questão de querer apenas nos impasses de naturais e inevitáveis dificuldades.
Piaget dizia que a verdadeira finalidade da educação é a preparação para a autonomia. Atrevo-me a parafraseá-lo dizendo que os métodos verdadeiramente adequados ao ensino-aprendizagem da Matemática nos anos do Básico são os que preparam para uma relação autónoma com ela no futuro trabalho pessoal que lhes exigirá.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Caminhar, sonhar e voar




"Os pés ... caminhos para seguir sempre; o professor e os alunos ... o sonhar e voar constante necessário à nova escola."





Mural cerâmico modelado pelos alunos
numa escola modelo no estado de Paraíba, 2002/2003
Centro Estadual de Ensino-Aprendizagem Sesquicentenário

Pequeno desvio

Digo e repito que ainda estou em férias. Com a diferença de que já estou ao pé do computador, por isso comecei a dar uns passeiozitos pelas notícias da Educação e por um ou outro artigo sobre esta. Por intermédio do Outroolhar conheci A Página da Educação e nela encontrei um artigo de que não resisto a transcrever o excerto seguinte (é só um pequeno desvio às férias).

O Governo não sabe nada (ou obriga-se a uma amnésia...) sobre o património teórico-prático das ciências da educação. Ignora a reflexão crítica acumulada sobre a avaliocracia; não estimula formas alternativas de avaliação contínua; esquece os efeitos de selectividade social dos exames e o florescente mercado das explicações; não estimula o ensino experimental e laboratorial; nada adianta sobre as modalidades de ensino tutorial ou acompanhado, apenas se preocupa obsessivamente em ocupar a carga não lectiva do horário docente – mas com que projectos, com que ideias, com que concretização?! O Governo não cumpre promessas. O seu programa proclama que jamais os meios – rentabilização de recursos, cortes orçamentais – se transformarão em fins. Alguém ainda acredita?

terça-feira, agosto 16, 2005

Do saco de viagem

Da cidade, passei a ponte para a montanha... as árvores... o rio. Também para outras gentes, que nos cruzam sem nos conhecerem e nos dizem bom dia.
Como disse abaixo, já pendurei em casa os ambientes que a memória trouxe no saco de viagem.
IC
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Jamais levaria para estas férias leituras sobre escola, excepto quando a leitura antes começada é de narrativa divertida (oportuna também). Por isso, entre os livros de férias, levei o Diário da Stôra Lili.
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Música, levei só em português. Não de Portugal... deve ter sido um acto falhado, o trauma do deficit já me faz ver deficit em tudo.
E, não só pelo deficit, como podia este país ser agora uma canção?

Mas...
Eu sei que há momento
que se casa com canção
(Bethânia)
E...
Já murcharam tua festa, pá,
mas certamente
esqueceram uma semente
nalgum canto de jardim.
(Chico)
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P.S. São apenas simbólocos os ambientes de férias que tenho deixado aqui. Para reparar nas coisas simples e na poesia que falta. Também para a serenidade de olhar os momentos agitados na perspectiva dialéctica de ser o progressivo e inevitável desiquilíbrio até à ruptura que sempre foi a condição para a mudança qualitativa e o progresso, e para a serenidade de nos sabermos num processo longo com a certeza (ou esperança) de que há luz no fim do túnel, ainda que demasiado longínqua para a vislumbrarmos no nosso presente.

Ainda em férias

Com mais dezena e meia de dias, agora quase todos cá pela cidade, vou já pendurar em casa coisas que a memória trouxe no saco de viagem, para manter o ambiente. Até ao regresso à escola, a que decerto não resistirão penduradas face ao clima ventoso previsível. Na sequência da já ocorrida precipitação ministerial, confesso que antevejo denso nevoeiro a dificultar a distinção entre medidas pedagógicas para diminuir o deficit das aprendizagens dos alunos e camuflagens hipócritas de medidas apressadas por ditames europeus para redução de outro deficit - o DEFICIT.
De tão súbitas preocupações com o sistema educativo eu até diria que repararam na carroça com seu burro há tempo de mais estacionada, mas disto de pô-la a andar à frente do burro é melhor não dizer nada para não perturbar as minhas imprescindíveis férias!

sábado, julho 30, 2005

Mais ambientes de férias


P.S. E agora este cantinho fica quieto porque voo mesmo... para férias.
No céu enfeitado,
papagaio de papel:
também vou no vôo.

Anibal Beça (Brasil)


Heinz Kirchner


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Pela Páscoa, não saí da cidade mas pairou-me uma imagem mental de férias, imagem que, por mera coincidência, se reforçou ao ver por acaso um programa de José Hermano Saraiva sobre uma terra de Portugal (não devia ter esquecido o nome). Imagem não de algum ambiente com que a natureza nos repousa e contenta os olhos, que para isso não preciso caminhar muito, basta uma tarde de passeio à serra de Sintra. Mas de ambiente humano NATURAL, as gentes saindo à praça nos fins das tardes ou nas noites serenas para cavaquear no convívio em que todos se conhecem, as crianças brincando na rua sem os sustos dos pais - cuidado com os carros! não te juntes a desconhecidos! não me largues a mão! -, de vez em quando a banda local a tocar sem estridência no coreto, e por vezes os bailaricos a acontecerem espontâneos...
Mas, se com a lupa no mapa encontrar tais lugares, os veraneantes os mudarão durante Agosto, pelo que, não projectando sair fronteiras nestas férias, o mais certo é restar-me ser turista no meu país, o que me soa estranhamente a algum antagonismo.

Mário Eloy Pereira (1936)

Ou não fosse este um blog de memórias, claro que a essa imagem mental de férias não é alheia a memória de quotidianos longínquos, independentes de férias. Dos cafés de Lisboa que não arrumavam as cadeiras às 9 da noite, onde se sabia encontrar-se sempre uma mesa de amigos ou conhecidos; dos bares, poucos mas obrigatórios, onde também sempre nalguma mesa havia conhecidos, e outros não tanto que passavam a sê-lo.
Até aqui no meu bairro os cafés, ao alargarem o serviço para os minipratos que permitem o almoço económico no intervalo do trabalho, têm agora as portas fechadas antes das 8 da noite (não duvido que por dificuldades financeiras e direito dos funcionários), e o convívio a pretexto da bica encerrou.
Claro, memória não é saudosismo - estamos no tempo de conviver em frente ao pc (mesmo que as frases curtas nem cheguem para preâmbulo de conversa), e quanto à bica também não há problema, que os hipermercados oferecem variedade de designs e preços para a podermos fazer com boa pressão, bem cremosa, na cozinha. Não vamos ser múmias - então não sabemos todos que esse café de Van Gogh aí abaixo nem do século passado já é?
-;)

quarta-feira, julho 27, 2005

Ambientes de férias

(...)
Uma fada madrinha e um duende na mesa ao lado no café
(...)
(Constantino Alves)

Vincent van Gogh (1888), Terrasse du café le soir
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Preso na cascata
um instante:
o verão.

Matsuo Bashô


Thomas Moran (1905), Cascade Falls

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Curiosity


Bryce Brown

(...)
Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!
(...)
Alice Gomes

segunda-feira, julho 25, 2005

Agenda pós-férias

Iniciado este cantinho em Maio último, logo duas memórias (entre outras) estiveram nas minhas intenções de posts. Relacionam-se com duas questões que, se até se afiguram particularmente oportunas neste momento, também lembrei em muitos outros, uma no círculo vasto de colegas de várias disciplinas que igualmente as colocam, outra no círculo mais restricto daqueles colegas de disciplina que, ao longo de anos, pugnaram (sempre isolados) pela sua aceitação como questão determinante da relação dos jovens alunos com a Matemática.

A "blogosfera docente" está a partir para férias, também eu me limito a deixar agendadas essas duas memórias para o começo do novo ano lectivo. Porque este cantinho ao menos uma utilidade tem: a de me fazer (a mim) pensar como que em voz alta, ao escrever.

1ª questão - Da necessidade de formação rápida de grande número de professores de 2º Ciclo, devido à massificação do ensino, até à instalação e continuação de uma situação quando os formados até passaram a ser em excesso. Situação derivada do alargamento da formação inicial (científica e profissional) para fora das ESES, ao sabor da proliferação de institutos superiores privados, creditados decerto por planos apresentados, mas não pela prática de muitos (demasiados), a qual, como é bem visível nas escolas a quem pedem cooperação e nos vários alertas, nomeadamente da APM, tem contribuído significativamente para insuficiente/deficiente formação inicial, científica e profissional, dos docentes que formam (do que estes não são responsáveis, note-se). E alguém nega a importância dos começos escolares dos alunos? E alguém nega que a dispersão dos formandos entre uma predominante vertente pedagógica teórica (aliás ligada à prática por uma prática efectiva e acompanhada que se limita à leccionação de meia dúzia de aulas disponibilizadas por um professor cooperante meramente voluntário) e uma vertente científica dividida entre, por exemplo, Matemática e Ciências, alguém nega, dizia, que se torna assim difícil, num modelo já de si interrogável e que se aplica ao sabor do que disse acima, que os professores formados tenham eles a educação matemática que tanto urge dar aos jovens alunos portugueses?

2ª questão - Da defesa e até luta de bastantes professores de Matemática pela adopção generalizada de novas metodologias especificamente adequadas ao ensino-aprendizagem dessa disciplina nos anos da escolaridade básica (novas na prática, que nada novas nas teorias e investigações na área da educação matemática), até à resistência que não se situa apenas nos próprios - os professores de Matemática -, mas na cultura e/ou clima ainda prevalecente na escola portuguesa. Questão de particular importância no 2º Ciclo (não tenho dados suficientes nem competência para referir a situação no 1º Ciclo) - ciclo em que são menos importantes os conteúdos (que se retomam no 7º ano), sendo qualquer um propício a ser trabalhado em pesrspectivas importantes: iniciação no processo de aquisição de conceitos (que sabemos ser longo, requerendo posteriores etapas); iniciação na resolução de problemas, ou seja, na aquisição de competências de interpretação, relacionação e procura activa de estratégias de resolução - e os alunos até são hoje exímios em jogos de estratégia, porque não hão-de interessar-se e ter sucesso nesse desafio ao raciocínio que a Matemática deve saber colocar?; iniciação em hábitos de rigor e precisão, tão necessários nos futuros adultos e que até vão influenciar o próprio domínio progressivo de um português correcto. Alguém duvida de que era preciso cautela (era, mas o passado corrige-se) ao colocar-se a Matemática do 2º Ciclo num plano susceptível de diminuir demasiado a respectiva formação especializada a requerer?

domingo, julho 24, 2005

Diálogo com aluno e Quase férias


Azul...

Joan Miró (1961), Bleu II

Diálogo com aluno
Bem quero dar férias aos resultados em Matemática, mas eles perseguem-me ;). Encontrei o H., ainda não tinha encontrado nenhum aluno depois da saída dos resultados, fiquei logo interessada na oportunidade.
Já falei da minha turma de 9º deste ano lectivo findo, a propósito de hábitos de trabalho. O H. era uma das excepções, era bastante trabalhador. Era aluno de quatros e cincos - em Matemática atribuí-lhe 4 e no exame teve 3. Não comecei por lhe falar do seu caso, e reproduzo o diálogo tão fielmente quanto é possível de memória (mas está muito fresco).

Eu: Então, que pensas do desastre em Matemática, assim pelo país todo? H.: Stora, acho que também teve a ver com os 25%, todos sabiam que já não reprovavam... mesmo os que tinham boas notas, era preciso que corresse muito mal para baixarem a que já tinham! Acho bem que para o ano seja 30%. Eu: Achas que não estudaram naquelas duas semanas... tiveste 3, também não estudaste? H.: Estudei um bocadinho, mas pouco. Eu: Bem, mas também não me parece que tenha saído alguma coisa que esquecesses nesses dias, achaste a prova difícil? H.: Não acho que a prova tenha sido difícil e vimos logo isso cá fora quando as storas nos chamaram a atenção para as respostas. Eu: Olha, até fiquei contente por te ter encontrado, não é pelo teu caso, ficaste nos 30% que tiveram positiva, é porque queria perceber o que se passou no geral, por isso era importante se conseguisses explicar como foi contigo. H.: Eu devia ter-me concentrado mais, não me esforcei... assim como esforço nos testes. Eu: Mas tu és muito responsável, como foi isso? Ou a prova não foi como esperavas, isso pode ter dificultado... H.: Não sei... não, acho que não. Stora, eu também estava como muitos, sairam as pautas e sentimo-nos assim... assim em férias. Se fizessemos outra vez... eu pelo menos esforçava-me mais durante a prova para não fazer má figura, falaram tanto de nós, toda a gente a ver os resultados... (...) Eu: E lá em casa, os teus pais que acharam destes resultados? H.: Ah, o meu padrasto disse logo que os professores de Matemática não são competentes. Eu: E tu, também pensas isso no geral? H.: Eu acho que há melhores professores e há... pronto, os professores não são todos iguais. Mas os alunos também não estudam, estudam pouco, também vejo isso.

P.S.: H. é um só caso, obviamente que não se pode fazer nenhuma espécie de generalização. Mas não dei conta de que os jornalistas tenham ido ouvir alguma amostra razoável de alunos. Talvez porque, ocupados com sensacionalismos, não lhes sobre tempo para investigar ao menos um pouquito; ou talvez porque, contactando pouco com adolescentes, não lhes passe mesmo pela cabeça que, fora do contexto disciplinas-avaliação, eles sabem pensar mais do que parece. Quanto aos que estudarão estes resultados e suas causas, não se lembrarão de ouvir também um pouco os alunos, ainda que apenas para detectar causas acessórias, que decerto não foram as causas de fundo de resultados preocupantes, mas podem ter contribuído significativamente para um resultado tão excessivo?

ADENDA: O Ministério da Educação deve ao país uma explicação fundamentada em pareceres de teóricos da educação e psicólogos sobre questões já levantadas por entidades competentes, tais como: O enunciado do exame exigia um grau de abstracção inadequadamente elevado? A resposta a alguns items exigia um grau de formalização que excede o programa do 9º ano? Sim ou não?

sábado, julho 23, 2005

14 de Julho


No momento em que tanto se tem discutido o ensino-aprendizagem da Matemática, tenho-me lembrado bastante de Paulo Abrantes. Em 14 de Julho, completaram-se dois anos desde que nos deixou, deixando também uma enorme perda no seio do pensamento sobre a educação matemática - expressão que ele usava bem mais do que ensino-aprendizagem da Matemática. Dando-me hoje conta de que a data passou há dias, não quis deixar de a lembrar aqui. Paulo Abrantes marcou larga e profundamente os que reflectem na educação matemática, e muitos decerto se perguntam: Porque têm alguns que partir tão cedo?

Não é por causa da questão "exames no básico, sim ou não?" que me lembro de Paulo Abrantes. Mas encontrei também um documento de arquivo, e achei oportuno deixar a imagem do cabeçalho, incluindo a citação de Hans Freudenthal.


in www.apm.pt/apm/revista/pabrantes/EM16-1990.pdf

sexta-feira, julho 22, 2005

Pausa??

Nicole Parigo

(...)
Um pouco mais de brasa. Ou se preferem
(como diria Mário Sá-Carneiro)
um pouco mais de golpe de asa. Pois falta ó Breton
um amor louco (laico e louco).
Neste país do pouco. Neste país do pouco.

(...)

Pois falta aqui o verbo ser. E sobra o ter.
Falta a sobra e sobra a falta. Ó proletários da tristeza
falta a ciência mais exacta: a poesia.
E há muito já que um poeta disse: É a Hora.
Neste país de aqui. Neste país de agora.

Manuel Alegre, 1981

____________________________________
E o essencial não muda com o mudar dos tempos... Torna-se um lugar comum...
Como em qualquer outro país, entre nós o problema essencial do sistema de ensino é o político. (Rui Grácio, 1973)


blogosphere



Pus a discussão em férias, mas os passeios pela blogosfera docente atraem-me para interrupções nas minhas pausas ;)


quinta-feira, julho 21, 2005

Exames na escolaridade básica (ou Um dilema)

"A escola tem urgentemente que se reorganizar para dar a cada aluno a possibilidade de desenvolver as suas áreas fortes. Só desta forma a escola poderá ser verdadeiramente inclusiva"
Adriana Campos,in Educare.

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Esta memória tão longínqua veio-me quando foi decidida a realização de exames de Português e Matemática no 9º ano. Não a escrevi na altura – nem existia ainda este cantinho. E não a escrevo agora por causa dos resultados em Matemática, cuja discussão já encerrei, aqui e noutros blogs. Escrevo-a para ficar por cá guardada, talvez para vir a fazer um link para ela depois de recomeçarem as lides em Setembro... talvez, ainda não sei.

Foi ainda no tempo em que o então Ciclo Preparatório (actual 2º Ciclo) terminava com exames nacionais. Numa turma em final de ciclo, que já leccionara no ano anterior, tinha algumas alunas para quem a Matemática era bastante difícil (prefiro não usar a expressão dificuldades de aprendizagem porque isso já é um assunto complexo para um post). Meti-me então numa experiência um tanto louca (daquelas a que o sangue novo nos impele), a que chamei pomposamente conciliação do trabalho em grupo com o ensino individualizado.
Resumidamente: O trabalho de base decorria, como habitualmente, em grupos organizados sob propostas da turma, heterogéneos. Em cima da minha mesa havia sempre fichas (de trabalho orientado, de autocorrecção, minifichas) dispostas por nível de aprendizagem - as que contemplavam os objectivos minimamente essenciais (deixemos a terminologia das competências, ainda não usada na época) e as de desenvolvimento face às primeiras. As alunas (ainda eram também os restos dos tempos em que evitavam misturar meninos e meninas) que não se sentiam em condições de avançar iam buscar outra ficha do mesmo nível enquanto o restante grupo prosseguia. Às vezes permaneciam nos lugares, outras reagrupavam-se espontânea e temporariamente, apesar da ginástica que o trabalho em grupo exigia com o mobiliário da altura. E cheguei mesmo a ter a turma a trabalhar em subunidades do programa diferentes consoante os ritmos de aprendizagem. (Por vezes, uma colega, interessada na experiência, ia ajudar-me, mas os nossos horários não permitiam frequência nisso).
(Agora, que me vem tanta aflição só de pensar que algum virus ou problema pior me pode deixar uns dias sem computador, a minha memória já nem atinge como é que eu fazia aquelas fichas todas à máquina, com o stencyl - só sei que fazia)
Resultado: as alunas que referi acima estavam felizes, realizavam o teste comum e, por vezes, um segundo adequadamente cotado, em que eram excluídas questões “mais difíceis”, e estavam com aproveitamento positivo.
Mas... a realidade impôs-se. Quando comecei a ter alunas em diferentes subunidades, o espectro do exame pôs-me em dilema. Eu tinha que proporcionar a todas não só todo o programa essencial (isso nem estava muito em causa), mas também as propostas de trabalho, problemas, níveis de dificuldade, etc. correspondentes ao que o exame, naturalmente, ia abranger – e nele nem teriam ninguém a evitar que se confundissem e perdessem, a gerir-lhes o tempo e as possibilidades, indicando-lhes: faz primeiro estas, não te preocupes com esta, etc. Que direito tinha eu, mesmo sabendo bem até onde podiam ir (e ao "minimamente essencial" estavam a ir) e até onde não iriam, de prosseguir com a minha opção?
Dirigi-me então à Direcção Geral Qualquer Coisa (dispenso-me de ir procurar o nome da altura), munida de exemplificativos do meu material. Fui recebida simpaticamente, fui até ouvida com atenção, foi-me até dito que a experiência era muito interessante, e até que podia contar com apoio mediante outros contactos ou documentação que me pudessem disponibilizar. Mas, claro, que o exame era inevitável e que era um risco. O que eu sabia, obviamente que não fui a contar que abrissem alguma excepção à jovem e anónima professora – fui porque, apesar de ter concluído que deveria interromper a experiência, eu já nessa altura não desistia de nada em silêncio.
As alunas ficaram tristes com a mudança de metodologia, expliquei-a e tranquilizei-as o melhor que pude, mas... na verdade jamais me voltei a meter em tal experiência.

P.S. Individualizar, pela atenção e apoio, por estratégias diferenciadas, por umas aulas de vez em quando divididas, etc., isso continua a ser o meu (o nosso) dia a dia. Com o “jamais”, refiro-me a uma determinada metodologia formalmente estabelecida e assumida.

sábado, julho 16, 2005

E pronto...

... encerro exames... resultados... réus e mais réus... passando pela poesia oriental do hai-kai sem precisar de sair dos nossos poetas.

Pensar incomoda
como andar à chuva
quando o vento cresce...
(Alberto Caeiro)

(Andô Hiroshige, 1797-1858)

Hábitos de trabalho - II

A minha turma de 9º deste ano não era uma turma típica da minha escola, mas também não era, de modo algum, um caso isolado. E, por uma qualquer coincidência, verificava-se homogeneidade nalguns aspectos (e não só em Matemática) :
Iam realizando as tarefas das aulas, estavam razoavelmente atentos, mas (ao contrário do que me acontece habitualmente devido à dinâmica própria do trabalho em grupo), abanavam a cabeça diante de qualquer problema de resolução menos imediata, não se empenhavam nele - pedindo logo que eu o explicasse - e, das tarefas de casa, vinham quase sempre vários "stora, não soube fazer" (tentaste? - tentei; quanto tempo? quantos minutos? - aquela expressão comprometida, que eles até costumam ser sinceros) e com frequência "stora, desculpe, não fiz o TPC... esqueci-me".
Numa reunião do conselho de turma, propus (e fui de imediato apoiada por todos os colegas) que o director de turma convocasse os encarregados de educação para uma reunião extraordinária e urgente, a fim de os avisar de que, sem hábitos de trabalho e sem esforço mental, a turma não estaria à altura do 9º ano (o director de turma usaria expressões mais convenientes, mas o que queríamos significar era mesmo isso: a turma não estava à altura... - com apenas três excepções. Vários desses alunos acabaram por aderir à "campanha" em que me envolvi com eles, entendendo as razões porque estavam a ter insucesso e passando nitidamente a um maior esforço. Mas, se acredito que a mudança não foi inútil para o seu futuro (inclusive escolar, para os que prosseguirem), era tardia por agora. Os níveis 3 atribuídos no final foram daqueles a que chamamos mínimos, ou "à continha". Porque eles adquiriam noções e aprendiam aqueles procedimentos que são condição necessária para a resolução de problemas, mas não são condição suficiente para resolverem os mesmos. E as competências de interpretação, relacionação, dedução, etc. têm que ser desenvolvidas ao longo da escolaridade, também com esforço e perssistência dos próprios - e a isso chama-se hábitos de trabalho/estudo.
Tive descidas desses níveis? Tive, sim. Mas previa-o, pois era fácil de prever que a prova se dirigiria às referidas competências - nem faria sentido que não se dirigisse.
Contudo, se até dissera previamente a colegas que tivera azar, face a turmas que tenho tido, nem o disse preocupada com a minha imagem (essa não foi construída agora, quase em final de percurso profissional), nem deixaria de voltar a ter a turma e de atribuir aqueles níveis 3 mínimos e inseguros quanto ao exame nacional.
Uma referência ainda aos alunos que faltaram (creio que com o conhecimento dos respectivos pais) às aulas que mantivemos no período pós fim oficial das aulas do 9º ano (determinado para poderem ficar em casa a "estudar"). Essas faltas não foram dos que tiveram os tais mínimos obtidos finalmente mediante efectivo esforço, ainda que tardio. Não sei é se estas atitudes que revelam o "ora, já estou aprovado!" são das mais prometedoras para o seu futuro escolar, nem se o consentimento delas por parte de alguns pais significa apenas uma atitude pontual.

sexta-feira, julho 15, 2005

Hábitos de trabalho - I

Hoje a "memória" não é profissional, é familiar. Mas, não tenho só alunos, também tenho netos que são alunos.
O Nuno terminou agora o 6º ano do básico. Iniciou o 2º Ciclo com uma excelente preparação - que não comecem agora todos os dedos a apontar os professores do 1º Ciclo e que o reconhecimento das condições em que muitos trabalham passe à actuação sobre as mesmas. Mas, começou um percurso de 5º ano com um desempenho demasiado "mediano" para a preparação que lhe fora dada e para a capacidade que tem - os alunos têm o potencial necessário de capacidade, podem é não ter o trabalho/esforço para o desenvolver. Iniciou-se então, em casa, um processo de responsabilização. Os pais, como o geral, trabalham todo o dia e chegam a casa cansados, mas não evocam a necessidade de descanso diário televisivo ou congénere - decidiram ter filhos, não é? Primeiro, foi estabelecido um horário de trabalho/estudo, mediante um consenso tão democrático quanto possível, incluindo as consequências de incumprimento, as quais eram: não haverá playstation, pc ou tv. Depois, foi a 2ª fase do processo: Agora, acabam as preparações de testes com os pais (e avó), por vezes à última hora pois o Nuno também, por vezes, "esquecia" a marcação atempada feita pelo professor; Agora, a responsabilidade passava a ser inequivocamente dele, os testes seriam preparados por ele, até tinha a sorte de poder contar com os conhecimentos dos pais e avó para dificuldades/dúvidas de última hora que soubesse colocar, mas só com isso, quer porque quando estudam sabem colocar dúvidas e quando não estudam têm os outros que as adivinhar, quer porque não se tinha nenhuma razão para duvidar de que, para outras não de última hora, os seus professores estavam sempre disponíveis. E, se não assumisse esta responsabilidade (ninguém defenderá, decerto, que não têm idade para a assumir) imediatamente acabaria a playstation, etc., no fim de semana e (numa hipótese remota de tal se justificar, também nas férias).
Fim da história: O Nuno terminou o 6º ano com um desempenho positivamente bem distante do início de 2º Ciclo, em que até um ou outro teste negativo tinha havido.
Será assim tão difícil, apesar do trabalho diário dos pais e consequente cansaço no fim do dia?
(Um post "Hábitos de trabalho - II" também virá a este blog - uma memória da minha turma de 9º ano deste ano lectivo que terminou).

quinta-feira, julho 14, 2005

;)

Este pedacinho do poema é para os 70%. (Não sei como se sentiram, de tão falados - talvez até nem tenham reparado -, nem temos pensado nisso...)

Ai o ponteiro da tortura
naquela sala
que a matemática tornava mais escura
em vez de iluminá-la.


Felizmente só o nada-de-mim ficava lá dentro.


José Gomes Ferreira

(Ainda os resultados em Mat) Só outro pormenor

A Senhora Ministra da Educação veio deitar água na fervura dos resultados dos exames de Matemática do 9º ano. Pelo menos, não caiu na manifestação de falta de reflexão (não digo falta de inteligência, seria cair eu também no tipo de juízos que tão facilmente espalham afirmações injustas ou redutoras) de alguns comentadores da praça pública, ou menos pública. Porque só a falta de reflexão pode inferir de imediato que resultados tão excessivamente negativos e gerais significam que, por este país todo, os professores de Matemática são uns incompetentes (ou os professores de Matemática do 3º Ciclo – nem sei por que não os especificaram, essas mentes falantes!). Sim, porque em Português não houve catástrofe... então, estando inseridos no mesmo sistema de ensino, no mesmo modelo de formação e nas mesmas escolas, estar-se-ia a descobrir uma tipicidade – incompetência -, ou uma espécie àparte, os professores de Matemática.

Eu abstenho-me de escrever aqui, sobre o assunto, mais do que “pormenores”, pela simples razão de que me recuso reduzir a poucas linhas problemas no sistema educativo que têm causas profundas, muitas e diversas responsabilidades – e talvez não confinadas ao sistema educativo (a sociedade quase toda está acusando, mas exclui-se de qualquer lugarzito no banco dos réus, e em especial os pais, as famílias, parecem sentir-se legítimos acusadores isentos de qualquer pecado).
Mas, pela “blogosfera docente” (e não só docente) há entradas sobre o assunto e respectivos comentários que, juntos daqui e dali, dão um conjunto de válido material de reflexão e debate. Vale a pena procurar.

Uma proposta à Senhora Ministra...

;)

quarta-feira, julho 13, 2005

(Re)pouso

De seguir o viajante
pousou no telhado,
exausta, a lua.

Yeda Prates Bernis
Final de ano lectivo agitado... precisa também de repouso o viajante...

Cheryl Robertson

ADENDA: Roubo a sugestão ao Miguel Pinto, discussão sobre propostas para o sistema de ensino aqui.

terça-feira, julho 12, 2005

Resultados em Matemática (só um pormenor)

Sobre o tema, já participei numa breve discussão em outroolhar. E, não sendo a questão inerente a um comentário aí deixado pelo Miguel (entre outros sobre o tema, e até despoletado por um meu) a que vou abordar aqui, sobre essa deixo apenas a transcrição do mesmo: “ Mas, não considera… estranho que os resultados de Matemática e Língua Portuguesa, realizados aos mesmos alunos, sejam tão discrepantes?(...)”
Tenho pensado, desde que ontem foram conhecidos os resultados, noutra discrepância que me parece que seria mais importante vir a merecer análise, não simplista ou racionalmente redutora (como estamos habituados a ver na comunicação social), também não intelectualmente desonesta, como será se não vier a ser feita, por quem queira lançar no país ilações sérias, sob equacionamento de múltiplos factores que podem intervir.
A discrepância que saliento é a que se verificou, em todo o país, entre os resultados obtidos pelos alunos na situação de exame nacional e os resultados que tinham obtido na avaliação de final de período (e ano).

"No entanto, como a maior parte das respostas não são imediatas e exigem um trabalho elaborado de interpretação e análise das situações propostas, algumas exigências que consideramos de pormenor, nomeadamente nos critérios de correcção, podem penalizar os resultados dos alunos, mesmo dos que desenvolveram um bom trabalho ao longo do ano." (APM)

Nesse âmbito (já que o meu blog é de "memórias") deixo uma pequena memória muito recente, a que não atribuo relevância só por si, mas que também não é completamente alheia aos diversos factores possivelmente concorrentes. Porque o próprio clima psicológico criado em torno de exames nacionais que os alunos de 9º ano realizaram pela 1ª vez não é decerto indiferente, é uma situação nova face às de teste a que estão habituados.
Um breve diálogo com uma aluna fez-me pensar que gostaria de ter previsto um encontro com a turma em ambiente que não fosse apenas propício àquelas perguntas: como te correu?, resolveste aquela questão...?, etc., mas destinado a perceber funcionamentos em situação de exame. A aluna é, em Matemática, de nível médio-alto (só médio porque trabalha e esforça-se pouco, que “cabecinha” para mais, tem). Resolveste a 5.2., a dos bilhetes... (disse eu, mais afirmativa do que interrogativa) - Aceno negativo com a cabeça, naquela expressão que eles às vezes têm ao mesmo tempo comprometida, mas pouco preocupada; E a 11, a última? - O mesmo aceno. Deixaste em branco?! – Resposta afirmativa.
Posteriormente, reparei na frequência com que foram deixadas em branco essas mesmas questões nas provas, de escolas diferentes, que corrigi. Escolas que não sei quais eram, mas que eram da Grande Lisboa; alunos que não sei quem são, mas entre os quais também houve bastantes “uns” , de facto preocupantes em quem tem, no mínimo, 14 anos (sem deixar de considerar precipitadas eventuais atribuições lineares a incapacidades de alunos ou de professores). Quanto à frequência das respostas em branco, seria obviamente complicado considerar os rascunhos (tão importantes em situação de aula) onde decerto foram esboçadas tentativas de resolução e abandonados cálculos feitos - quem sabe se as mesmas tentativas e cálculos previstos nos critérios de classificação com atribuição de alguma cotação?
Este post não é, nem pretende ser, mais do que um pormenor. Pretende somente exemplificar que as causas podem ser feitas de muitos “pormenores”.

domingo, julho 10, 2005

Fim de estágios

O blog está de fim de semana prolongado, mas eu vim acrescentar uma "coisita" - não que o assunto seja coisita pouca, mas porque um comentário deixado ontem por um colega numa entrada relativa à formação dos professores mo reavivou. É que me tenho referido à formação inicial dos professores do 2º Ciclo, da qual já foram há anos abolidos os estágios - ao que actualmente se chama estágio nesse ciclo (ver IC said), tenho designado por "estágio", isto é, entre aspas . Entretanto, não era preciso mencionar especificamente o 2º Ciclo!
Por isso, relembro mas nem comento a questão "fim dos estágios". Indigno-me apenas, ou melhor, vou-me indignando sempre mais.

De acordo com a proposta ministerial, os candidatos à docência deixariam de dar aulas para passarem a assistir às aulas dadas pelos orientadores de estágio, deixando por isso de receber a remuneração que até agora lhes era concedida pelas aulas que ministravam. Com esta medida, a tutela irá poupar cerca de 50 milhões de euros.O Ministério decidiu também que o ano de estágio deixará de contar como tempo de serviço para efeitos de carreira.Em comunicado, os estudantes afectados por estas medidas afirmam que as alterações ao modelo de estágio "representam uma verdadeira regressão na formação inicial da carreira docente e são inaceitáveis, para além de terem consequências imprevisíveis na qualidade do ensino e na qualidade da formação dos alunos".

sábado, julho 09, 2005

Fim de semana

Pois, eu estou em fim de semana normal, mas provavelmente terei que conceder a este meu bloguezito um fim de semana prolongado.

Claude Monet (1874) , the studio boat

sexta-feira, julho 08, 2005

Outras escolas

Esta não é do G8...

E como nem sei qual a que George W. Bush frequentou, deixo mais esta foto...

quarta-feira, julho 06, 2005

Formação de professores (um preâmbulo só)

Estou precisando de algum tempo para trazer aqui a memória (devidamente comprovada, que memória só por si, tenho-a bem presente) da evolução (ou involução) do sistema de formação de professores para leccionação do 2º Ciclo do Ensino Básico desde que, em 1986, tivemos a 1ª Lei de Bases do Sistema Educativo. 2º ciclo, porque o conheço bem; 2º ciclo, também porque ninguém negará decerto a importância determinante da aquisição de "bases" no futuro escolar dos alunos e nas possibilidades (que há o possível, mas também há o impossível) que terão os professores dos ciclos seguintes (e até também conheço bem o imediato, o 3º Ciclo).
Entretanto, encontrei quase por acaso um documento do Conselho Nacional da FENPROF, de 25 de Novembro de 2004, de que deixo abaixo dois breves extractos (do 1º parágrafo e do ponto 6, relativo à formação de professores, inicial e contínua). Inicial - já neste blog toquei nela, se a Srª Ministra vai tocar é que não sei; Contínua - a tal que se tem dito, com razão, que dá créditos que tornam as mudanças de escalão equivalentes a automáticas, sem se acrescentar que do modelo disponível conhecido por FOCO e da degradação subsequente do mesmo não são responsáveis os docentes, que sempre defenderam o direito a uma formação contínua de qualidade e pertinente.
"A chamada Lei de Bases da Educação, que a maioria de direita aprovou sozinha na Assembleia da República, foi posteriormente sujeita a veto presidencial..."
"Uma nova Lei de Bases para a educação deve inscrever também a profissão docente como eixo central da qualidade de todo o sistema educativo, valorizando o papel que cabe aos professores nos processos de ensino e aprendizagem e na actividade global das escolas, exigindo que na sua formação, para além dos métodos e das técnicas científicas e pedagógicas ajustadas, se contemple também uma formação pessoal, cultural, social e ética, adequada ao exercício da profissão. A formação de professores, numa perspectiva de educação permanente, deve associar a formação inicial à formação contínua (...) A consagração de uma formação que favoreça e estimule a inovação e a investigação, para todos os níveis de ensino, com incidência particular no ensino superior, projectada a partir da própria actividade educativa, visando práticas reflexivas e atitudes críticas e actuantes no domínio social, deve ser posta em consonância com a relevância social da profissão docente e com a dignificação do seu estatuto de carreira."
(...www.fenprof.pt/?xpto=27&cat=53&doc=566&mid=115 - Princípios de uma nova Lei de Bases do Sistema Educativo)

terça-feira, julho 05, 2005

Metáforas poéticas


A nuvem atenua
O cansaço das pessoas
Olharem a lua.
(Matsuo Bashô)
Posted by IC 11:10 PM

Com o deficit e outras coisas bem pouco poéticas que nos rodeiam, opto por me lembrar também de um nadinha de poesia - em formato mini, são só uns haikus...
Imóvel,
o barco.
No entanto, viaja.
(Yeda Prates Bernis)

_________________________________
É muito silêncio
enquanto as flores não crescem
e os poetas dormem.
(Eolo Yberê Libera)
_________________________________
Para onde
nos atrai
o azul?
(Guimarães Rosa)

segunda-feira, julho 04, 2005

Outras potências

O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fora).
(Álvaro de Campos)
Pois, querido poeta, mas o binómio de Newton é o binómio de Newton, e a matemática dos senhores economistas é apenas a matemática dos senhores que governam a economia – variáveis, só uma, euro, euro, euro, e quanto a potências, não são as da matemática, são OUTRAS.

Só coisitas soltas (vassourada)

Ao iniciar este blog não previa que o final do ano lectivo, já relativamente próximo, viesse varrer, para um canto adiado, memórias de professora de Matemática com a vassourada decorrente do caso geral e de fundo que é o sistema educativo português, de súbito a saltar de boca em boca, para muitos perfeitinho se não fossem os professores, para alguns (que haja alguns, ao menos!) com as suas profundas mazelas.
Vassourada, porque o caso traz outras memórias, não de professora de Matemática, mas de professora (ponto final); vassourada, também porque não deixei de ser atingida pela vassoura que procurou varrer para o banco dos réus os professores – ao molho, sejam os maus exemplos que sei que há (e há em todas as profissões), sejam os tantos e tantos que se dedicam ao ensino com profissionalismo, competência e muitas vezes persistência e sempre persistência, sem qualquer apoio, em iniciativas que tentam colmatar problemas escolares (melhor dizendo, de desmotivação e desinserção escolar) de cada vez maior número de alunos, que, como toda a gente sabe, mais não são que o reflexo de problemas sociais que a sociedade não resolve (mas esta não se senta no banco dos réus).
E esta segunda vassourada stressou a minha memória. Stressou sobretudo porque o eterno stressa e eternamente são precisos réus e eternamente é preciso que encham bem o banco para que não fique espaço para lá sentar (também) os primeiríssimos responsáveis – os de hoje, os de ontem, os de há bastantes anos, neste caso da esfera da educação no nosso país.
Por isso aqui vão ficando, até uns dias de férias para relaxar, nem memórias soltas de professora de Matemática nem outras memórias soltas de professora – só coisitas soltas. Apetecia-me até ter à mão coisas poéticas, que a poesia faz-nos falta e o deficit não é nada poético
.

quinta-feira, junho 30, 2005

...eu mordo!

Terminaram as aulas... já estamos habituados a ouvir: Que grandes férias têm os professores! Eis um momento propício para acrescentarem mais um aos "privilégios" da profissão docente. Mas garanto que se alguém me disser que estou de férias, eu mordo! (Mordam também, colegas!)

Jennifer Kirby

terça-feira, junho 28, 2005

"Chega mais para perto"

Pedimo-lhes que equacionem, que demonstrem, que expliquem por expressões matemáticas, e surgem respostas que do princípio ao fim estão matematicamente erradas. Temos que passar um risco vermelho, pois o exame é mesmo de Matemática... apesar de haver aquela questão ainda difícil para os 14 anos.
Ontem um colega ao meu lado dizia-me, face a uma "resolução" dessa tal questão: Eu não dou zero ao que leio por detrás disto!!
Não sei bem a que propósito (ou despropósito) me lembrei:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Chega mais para perto e contempla as palavras.
Carlos Drummond de Andrade
(Que o autor perdoe o recorte)

domingo, junho 26, 2005

De novo o tema Nível 5

Na 6ª feira decorreu, na minha escola, a festa de encerramento do ano lectivo. Apareceram ex-alunos, entre eles o Ricardo, que me trouxe à memória o tema que já abordei num post aí para baixo: Nível 5 e Nível 5.
O Ricardo, de um dos meus nonos anos do ano passado, era um óptimo aluno. Não era daqueles de respostas rápidas, intuitivas - ele concentrava-se, ponderava, queria o fundo dos porquês. Parecerá então estranho que, nos finais dos dois primeiros períodos lectivos, o seu nível em Matemática destoasse dos cincos que tinha nas outras disciplinas. Mas acontecia que nos testes, naquele problema ou questão que pretende seleccionar e testar aqueles que já temos como certo que resolverão sem erros nem dificuldade as outras, o Ricardo perdia-se nos seus raciocínios exigentes e falhava. Depois do teste, ele mesmo, sozinho, percebia a falha, mas a realidade era que, no seu futuro de estudante, não seria a avaliação contínua, mas sim os testes ou exames que determinariam os seus resultados.
O próprio Ricardo pensava nisso e ficava aborrecido consigo próprio pelas falhas em situação de teste. Quanto a mim, ter-lhe-ia dado na mesma o cinco no final se o precalço se mantivesse - era evidente que as suas competências em Matemática estavam nesse nível. Mas ele venceu, tendo 100% na prova global e resultados perto disso nos outros testes do 3º Período. E é minha convicção que foi um desafio, ao contrário de desanimador, assumido por ele como necessário.
Na 6ª feira, o Ricardo ainda não tinha as suas notas de 10º ano, mas aguardava 18 em Matemática. :)