sábado, maio 30, 2009

A manifestação

Foto do site da FENPROF

Tencionava tirar fotos para pôr aqui, mas quando cheguei à manifestação dei conta de que a minha máquina estava sem bateria. Assim, remeto os visitantes para
aqui.

sexta-feira, maio 29, 2009

Amanhã lá estarei

Estou aposentada, mas continuo a manifestar-me pelos meios ao meu alcance na defesa de uma Escola Pública de qualidade para todas as crianças e jovens (escola onde, aliás, tenho netos) e por uma Educação Integral, decisiva para o futuro do país, o que exige professores motivados, estimulados e apoiados adequadamente.
Não vou à manifestação apenas por solidariedade para com os meus colegas que, no activo, são e querem continuar a ser profissionais dedicados; vou para protestar contra uma política educativa desastrosa em muitos aspectos - cujas consequências não poderão ser remediadas no imediato nem a curto prazo -, na esperança de que venha a ser corrigida.

quinta-feira, maio 28, 2009

quarta-feira, maio 27, 2009

Folhas secas (Desencanto)

Desencatada da política - hipócrita e eleitoralista -, deixo haikus japoneses, que sempre me encantam.

Dá para uma fogueira —
O tanto de folhas secas
Trazidas pelo vento.

Ryôkan

Tão miseráveis,
As glicínias sem folhas
Do velho templo.

Buson

Varrer o chão
E então parar de varrê-lo —
Estas folhas secas.

Taigi

Kamisaka Sekka (1866 - 1942)

segunda-feira, maio 25, 2009

A minha neta Inês e o Scratch

Depois da nossa iniciação e da motivação resultante do Scratch Day (16 do corrente mês na FPCE de Lisboa), a Inês já completou dois projectos - o segundo no computador dela (ainda não o vi), o primeiro aqui na minha casa. E eu (avó "babada") não resisto a deixar aqui esse seu primeiro projecto para minha recordação desta aventura no Scrath, onde os miúdos se iniciam em programação.

Scratch Project

Clicar na imagem

(Depois, clicar na bandeira e, para que as instruções funcionem, é preciso pôr o rato em cima do projecto)

domingo, maio 24, 2009

Construir no homem

MON PAYS

Vois-tu
nous avons d'abord bâti dans du sable,
le vent a emporté le sable.
Puis nous avons bâti dans du roc,
la foudre a brisé le roc.
Il faut qu'on pense sérieusement à batir
dans l'homme.

Ahmed Bouanani
Poeta marroquino
1939, Casablanca



O meu país

Vê bem
Construímos primeiramente na areia
o vento levou a areia
Depois construímos na pedra
o raio quebrou a pedra
Temos de pensar seriamente em construir
no homem

Tradução de Amélia Pais
Com o agradecimento à Amélia Pais

sexta-feira, maio 22, 2009

Momentos com a música

LUDWIG VAN BEETHOVEN:
ODE AN DIE FREUDE, DA SINFONIA No. 9

Não sei se isto é um hino e os anjos
precisam deste instrumento
para ampliar o silêncio. O que sei
é que chega de longe esta surpresa
de poder segmentar em força o coração
que em mim pulsa e eu não sei
de onde vem quando na música
pressinto um tema que só aos anjos pode pertencer
pela pujante candura dos acordes
e a humilde magnificência da alegria.

Tudo quanto ignoro é que está bem.


Amadeu Baptista

(Poema via Amélia Pais)

quinta-feira, maio 21, 2009

Eu e o Scratch

Procurei iniciar-me no Sctratch para poder iniciar também a minha neta Inês antes de irmos participar no evento Scratch Day que se realizou no passado dia 16 na FPCE de Lisboa.

Agora, ela está a tentar fazer um projecto, mas com desenhos dela, pois gosta muito de desenhar e pintar (EVT é a única disciplina em que tem tido nível 5). Entretanto, pareço eu uma criança a brincar com o scratch. Ainda me falta muitíssimo para chegar ao nível dos projectos da 3za, mas quero deixar aqui a recordação dos meus primeiros passos na aprendizagem - duas experiências destinadas a motivar e ensinar a Inês, a primeira antes do Scratch Day, a segunda depois. Mas eu própria ando com o "bichinho" do scratch a fazer-me querer aprender muito mais. ;)


Scratch Project


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Scratch Project


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terça-feira, maio 19, 2009

Pelos vistos, já é tempo de não nos queixarmos dos jovens ;)

Com o agradecimento à Amélia Pais, de quem recebi estas citações.

QUATRO CITAÇÕES SOBRE A JUVENTUDE. SURPREENDENTE!

1ª citação:
"A nossa juventude ama o luxo, é mal educada, zomba da autoridade e não tem nenhuma espécie de respeito pelos velhos. As crianças de hoje são tiranas. Não se levantam quando um velho entra numa sala, respondem a seus pais e são muito simplesmente más"
- Sócrates (430-399 a.C.)

2ª citação:
"Não tenho nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o mando amanhã, porque estes jovens são insuportáveis e não têm moderação. Simplesmente terrível".
- Hesíodo (720 a.C.)

3ª citação:
"O nosso mundo atingiu um estado crítico. Os filhos não escutam os seus pais. O fim do mundo não pode estar longe".
- Inscrição no túmulo dum sacerdote egípcio (2000 a.C.)

4ª citação:
"Esta juventude está podre desde o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Não serão nunca a juventude de outrora. Os jovens de hoje não serão capazes de manter a nossa cultura".
- Inscrição numa olaria de Babilónia (2500 a.C.)

Fonte: Ronald Gibson, British Medical Journal, cit. por "Revista da Armada", s.d.

domingo, maio 17, 2009

Que não se desista de despertar a beleza adormecida

«(...) O escultor ama o bloco de mármore bruto por causa da beleza da Pietá que está dentro dele. E o seu trabalho de escultor é uma luta contra o mármore para arrancar a beleza que ele sepulta. Exupéry dizia que "o deserto é belo porque nele se esconde uma fonte". E o educador - outro tipo de escultor - ama os adolescentes terríveis e violentos por saber que em algum lugar da sua alma vive uma beleza adormecida. (...)»
Rubem Alves. A boa nova dos dias.
(Destaque meu)

sábado, maio 16, 2009

sexta-feira, maio 15, 2009

Scratch day

Amanhã vou com a minha neta Inês ao evento, na FPCE, comemorativo do dia do Scratch.

Já a iniciei, mas eu também estou ainda na fase de iniciante. Ambas vamos aprender ;)

Como sou um tanto animal nocturno, terei que me levantar à hora em que costumo estar a começar o 2º sono, para mais, terei que ir buscar a Inês a casa. Mas não há problema, eu vou pôr dois despertadores daqueles muito barulhentos. lol

Depois darei notícias.

Uma prenda de aniversário

A Isabel deu ao meu bloguezinho uma prenda de aniversário, que ele e eu muito agradecemos.

É um prémio para passar a cinco blogues, mas eu só vou nomear três. Porque, pensando no nome do prémio, desta vez vou atribuir a blogues onde se sente directa e especialmente a presença dos alunos, embora eu saiba que outros autores de blogues meus preferidos têm igualmente amor por Educar.



Assim, o meu prémio vai para:



quinta-feira, maio 14, 2009

No 4º aniversário deste blogue

Iniciei o blogue com a ideia de escrever algumas memórias relacionadas com a prática de ensino como professora de Matemática, primeiro no 2º Ciclo, depois no 3º, e como directora de turma, pensando essencialmente nessa disciplina de tão grande insucesso e na minha convicção de que a diminuição desse insucesso passa muito pelos métodos e estratégias de ensino-aprendizagem. Não fazia ideia se seria lida por alguém, mas depressa o Miguel me descobriu e, a partir daí, fui conhecendo colegas com quem senti grandes afinidades, vindo a criar elos de amizade e tendo tido o prazer de conhecer alguns pessoalmente.

Mas logo surgiu Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação, e a atenção foi desviada para a sua política, para as suas medidas, para os seus efeitos nefastos na Escola Pública e nos professores e para a luta destes. Luta que continuei (e continuo) a sentir como minha também, mesmo depois de me aposentar, pois a Educação, além de ter sido paixão para mim, é essencial para o futuro do meu país, onde, inclusivamente, irão crescer e viver dois dos meus quatro netos (dois, porque tenho duas netas na Suiça, onde nasceram e vivem).


Entretanto, a blogosfera dos professores adquiriu grande visibilidade, sobretudo por blogues que permanentemente informaram em cima da hora sobre a catadupa de decretos, despachos e ofícios do ME, esclareceram, analisaram criticamente, denunciaram e mobilizaram para a luta. Mas, ao fim destes quatro anos, sinto saturação, até porque MLR, ao atolar os professores e as suas reuniões de papelada, retirou espaço e tempo para o tabalho colaborativo nas escolas no âmbito do que é o mais importante: as aulas e os alunos. Trabalho que é indispensável para a discussão e partilha de métodos, estratégias inovadoras e troca de experiências bem sucedidas - enfim, para um trabalho formativo que acabou por estar excluído da própria ADD.


Ora, com a visibilidade e popularidade que ganhou entre os professores, a blogosfera poderia também proporcionar essa partilha e debate de experiências e ter uma componente formativa, até porque muitas aulas continuam com métodos estagnados, rotineiramente iguais às do ano anterior e dos precedentes, onde os alunos sentem tédio, o que contribui para a própria indisciplina. Mas a sala de aula e os alunos estão silenciados na blogosfera dos professores, quer pelos autores de blogues, quer por aqueles que apenas comentam, salvo algumas excepções entre as quais se destacam os blogues da 3za e do JMA.


A minha desmotivação foi sendo crescente, traduzida por intermitências e pausas, muitas vezes intercaladas quase só por coisas ligeiras como um poema, uma canção, uma estória.


Este dia de aniversário seria adequado para encerrar este blogue. Mas, tal como não deitamos para o caixote do lixo os nossos albuns de recordações, também, pelo menos por enquanto, não quero apagar um espacinho onde tenho memórias e recordações.

Assim, mantenho-o ao menos como um cantinho meu onde às vezes me apetece escrever, outras apenas guardar para mim um poema, um quadro, uma canção... coisas assim. Prevejo mais intermitências e pausas, até ao dia da pausa final, pois a tudo chega o momento do fim.

Tal como deixei de gostar de fazer anos porque isso me lembra que estou velha, e só não ignoro o meu aniversário porque a família não deixa, também o meu blogue não quer bolinho com velinhas nem canção de parabéns - "parabéns" já não faz sentido.

Mas termino repetindo que tenho pena que a blogosfera não seja melhor aproveitada também para espaço pedagógico formativo através de troca e debate de ideias, sugestões e experiências inovadoras bem sucedidas (saliento "troca e debate", o que é diferente de mera exposição) no sentido de criar nos alunos o gosto por aprender e de promover o verdadeiro sucesso educativo, sobretudo no ensino básico pois, após ele, corre-se o risco de ser demasiado tarde.


Até logo!

quarta-feira, maio 13, 2009

domingo, maio 10, 2009

Colocar a política no centro das melhorias

O título é o do último capítulo de um extenso artigo de Joaquim Azevedo, intitulado Melhor educação é possível - artigo que o JMA divulgou já há uns dias pelo Scribd, e cuja leitura integral sugiro vivamente: Aqui.

Como o artigo é extenso, destaco este seu último capítulo.

___________
«Precisamos muito mais de mudar de políticas educativas do que de ministros da educação! Temos de trazer a educação para a praça pública. O Presidente da República, a Assembleia da República e o Primeiro-Ministro (que tão afastados andam de uma intervenção capaz e concertada no terreno das políticas de educação e formação) têm de se entender sobre algumas prioridades básicas e colocar o pé no acelerador, anos a fio, sem hesitações e tibiezas. Temos de estabelecer compromissos políticos e compromissos sociais concretos (não consensos balofos!), desde o plano nacional ao plano local, valorizando sobretudo uma imensidade de pequenos compromissos (de preferência assinados), que possam fazer da melhoria da educação uma efectiva e concreta grande causa nacional.

O tempo da retórica devia ser encerrado. Não são necessárias mais leis encantadoras, não mais discursos encantatórios, mas sim mais compromissos concretos, mais empenhamento e envolvimento, mais trabalho, muito trabalho e ainda mais trabalho, unidos neste objectivo comum de melhorar a educação das novas gerações e de todos os portugueses, ao longo de toda a vida e com a vida.

Repito: a melhoria da educação escolar não é uma questão técnica é uma questão política. E isto mesmo há muito boa gente que ainda não percebeu. E “ocupa” a 5 de Outubro ocupando o tempo a criar mais uma disciplina, a colocar mais uns computadores, a meter mais TIC nas escolas, a descobrir mais uma circular interpretativa, a desfazer planos de estudos e a criar outros que ninguém sabe de onde brotam, tão caudalosos, a criar “a martelo” agrupamentos verticais e horizontais onde poderiam existir apenas redes de cooperação, a mudar horas lectivas de 45 para 90 minutos, a…inventar soluções técnicas para problemas que não existem e a ignorar soluções políticas que a todo o momento urgem, passando todos os dias atestados de ignorância profissional aos professores e de irresponsabilidade social aos directores das escolas. “Até quando abusarão da nossa paciência?”. Até quando vai persistir toda esta esquizofrenia, sob o encantamento das vozes populistas do “ bando do eduquês”, que dizem que tudo está mal e que o bem só pode ser alcançado com mais uns requintados retoques técnicos, esses sim, os definitivos, sempre “de uma vez para sempre”!

Vivemos num tempo novo. O paradigma da educação de todos ao longo de toda a vida irá iluminar e condicionar o desenvolvimento da educação nas próximas décadas, num contexto de mudança contínua e de incerteza. Temos de esclarecer o novo lugar da educação na “sociedade do conhecimento”, desde a educação escolar à educação social, e discernir o lugar da “nova” escola em cada comunidade: é um enclave, um contentor que ali foi colocado e face ao qual a comunidade local pouco ou nada tem a dizer? Ou é uma instituição social nuclear para pensarmos e construirmos um desenvolvimento social sustentável? Como se articula esta instituição com outras instituições locais, com papéis educativos também relevantes ? Qual deve ser aí o lugar e o papel dos professores, o que espera a sociedade deles e como é que se cruzam os seus horizontes profissionais e a sua acção com a dos pais, das associações e agentes culturais, dos empregadores…? Ficou muito claro, no Debate Nacional sobre a Educação, que muitas escolas continuam dramaticamente isoladas, seja porque se fecham sobre si mesmas seja porque a sociedade desvaloriza a educação escolar e não se compromete (para lá de uma retórica gongórica e enfadonha) na melhoria da educação.

Pergunto: queremos que o sistema de educação seja regulado exclusivamente a partir do centro (dos vários centros, tipo DRE), de um Estado que irresponsabiliza ou um sistema multiregulado, que valoriza também a participação dos docentes e a acção dos pais, das autarquias, dos interesses culturais, socioeconómicos? Até onde estamos dispostos a ir, como sociedade aberta, num novo Modelo de Governação de Educação (MGE) assente na multiregulação, na intervenção renovada, personalista, subsidiária e inteligente do Estado e valorizando a participação sociocomunitária, para atingirmos, com outra serenidade e persistência (sem andarmos aos solavancos, num “stop and go” permanente), uma educação de maior qualidade para todos os portugueses? Sem redefinirmos as prioridades, os níveis de responsabilidade e os responsáveis, continuaremos, por exemplo, como já acontece há vinte anos, a falar e a decretar a autonomia das escolas quando, efectivamente, as escolas não têm autonomia real nenhuma, simplesmente porque nada mudou no modelo de regulação ao dizermos que mudou a autonomia da escolas. Por outras palavras, que lugar é que queremos que tenha a autonomia das escolas neste novo MGE? Que atribuições, competência e responsabilidades devem ficar concentradas nos agrupamentos escolares e escolas? E que lugar é reservado para a comunidade local e para os serviços regionais e centrais? E para os directores das escolas, e para os professores e as equipas interprofissionais, a cooperar em prol da melhoria da educação? E para os pais? E para as autarquias? E para a administração central? E…Não podemos prosseguir a política do simulacro, da retórica balofa, do faz de conta e… do caos subsequente!

No processo de melhoria gradual, contínua e persistente da educação em Portugal, um imperativo social de primeira grandeza, é preciso reconstruir, por um processo de concertação e de acção-reflexão permanentes, o lugar e a função dos professores como profissionais, das equipas de professores dentro das escolas, da cooperação destes com outros profissionais, da articulação com os pais, da ligação a outros actores sociais locais. O que queremos dos professores e das equipas docentes? São correias de transmissão, são funcionários que apenas repetem matérias ou são profissionais autónomos, num novo e clarificado quadro de responsabilidades profissionais e sociais? Há ou não lugar para o desenvolvimento e aprofundamento de uma cultura escolar e para a sua valorização social? Sabemos que só uma pertinente, cuidada e persistente reflexão pedagógica sobre as situações-problema concretas, pode gerar melhorias na educação, turma a turma, escola a escola, em contextos comunitários de incentivo à educação de todos. Que dinâmicas de governação educacional devem exercer as escolas e que controlo social querem o Estado e a sociedade instituir para credibilizar e apoiar as escolas e os professores e os seus projectos de melhoria gradual da educação?

Temos de definir se queremos que o MGE seja centrado no Diário da República, como até aqui, governo após governo, ou em actores sociais e em compromissos sociais concretos em prol de mais e melhor educação, construídos com a activa e responsável participação dos portugueses, desde o nível local ao nacional (como já se teima em querer fazer em tantos locais e com a participação de alguns parceiros sociais)? Que novos compromissos sociais concretos queremos vir a estabelecer? Uma coisa parece certa: só num clima de liberdade e de confiança entre os parceiros e de responsabilização das partes será possível edificar um novo MGE.

Uma educação de qualidade para todos os portugueses, sem excepção, é demasiado importante para o nosso futuro para continuarmos a deixar de lado as questões centrais, persistindo em seguir um MGE que teima em ser centralista, uniforme, burocrático, tecnocrático, desresponsabilizante, quando não desnorteado, em contínuos solavancos, sob o signo do improviso e da inspiração do momento (de cada equipa ministerial, mesmo dentro de um mesmo governo!). Este modelo de governação gera mediocridade e desresponsabilização social. Todos os dias. Há muitos anos que precisamos de mais liberdade e de mais política, não precisamos de mais tralha técnica a cair ciclicamente dentro de um sistema fechado.
Políticas de equidade impostas pelo Diário da República, central e uniformemente, constituem atentados à liberdade e à responsabilidade e só podem gerar mediocridade. Precisamos de plataformas cívicas de participação para a reconstrução do bem público educacional, como ficou tão claro no Debate Nacional. Precisamos de política, não precisaremos tanto de “comissões técnicas de sábios”, que se nomeiam para desatar pequenos nós, quando estes pequenos nós apenas escondem os grandes nós, que, esses sim, continuam atados e bem atados. Somos nós, todos nós, em todo o país, que podemos e temos de desatar estes nós.
Precisamos de um regresso à esperança e estou certo de que nós somos bem capazes de o fazer.
À profecia decretada da incapacidade dos portugueses, temos de opor a profecia da construção social de mais e melhor educação, num renovado quadro de cooperação e de esperança.»


______

Adenda

Não resisto a acrescenter uns breves excertos do capítulo, do mesmo artigo, intitulado Os professores, bodes expiatórios ou construtores do futuro?


«A ética do cuidado é o seu modo de proceder. Cuidam de cada um como se fosse único. Cuidam de cada turma como se fosse um jardim, onde a variedade das flores é o seu encanto, não o seu problema. Onde é preciso regar e nutrir todos os dias as raízes, indicar caminhos e ser luz para que os botões de cada pessoa de cada aluno despontem e as suas flores abram, únicas, humanamente resplandecentes, frutos da convocação humilde do jardineiro. Diante de tanta beleza, que é o desabrochar humano que ocorre diante dos olhos e das mãos dos professores, o professor realiza-se e é impelido a partilhar e cooperar com os seus colegas essa mesma beleza e as diversas formas de que se reveste.
Não, os botões não hão-de ficar amordaçados dentro do peito, eles têm de rebentar, de abrir, de ser gente, de amar e ser amados, de dar e de receber, de construir e ser construídos em sociedade e em comunidade. O professor é o profissional que cuida de cada flor (em cada geração) e esse é um trabalho imenso (regar, adubar, podar,..), que requer toda a atenção, carinho e rigor, que implica um trabalho imenso, muita dedicação e dádiva e a formação de equipas educativas (Boavida, 2002; Formosinho e Machado, 2008). Não perceber isto é não perceber o essencial da educação e também da educação escolar.
Este cuidado requer níveis sofisticados de atenção. Não basta o trabalho individual de cada professor, porque cada jardim conta com dez jardineiros, que têm de fazer equipa (...)

Faz falta, no entanto, entre os professores, a construção de dinâmicas de auto-formação, rotinas de trabalho semanal em equipa de docentes, de reflexão assente na acção concreta, nas dificuldades e nos êxitos alcançados, uma acção lenta e persistente, colectiva e de equipa de profissionais, de melhoria contínua. Este (árduo e apaixonante) caminho é, a meu ver, o que pode conduzir a uma real redignificação profissional dos professores, num novo quadro institucional e profissional. (...)»

sábado, maio 09, 2009

sexta-feira, maio 08, 2009

O tesouro mais precioso

Uma mulher velha e sábia fazia uma viagem através das montanhas quando, no leito do rio, encontrou uma pedra preciosa. No dia seguinte, continuando seu caminho, deparou-se com um viajante que tinha fome e, para atender o seu pedido de ajuda, a mulher abriu a bolsa para dividir com ele sua comida.
O homem deslumbrou-se com a visão da pedra e pediu à mulher que lhe desse de presente. Sem hesitar, ela lhe entregou a jóia. O viajante se foi, rejubilando-se por sua sorte. O tesouro poderia garantir-lhe segurança para toda a vida.
Mas, alguns dias depois, ele voltou à procura da mulher. Ao encontrá-la, entregou-lhe a pedra, dizendo: "Pensei muito e sei bem o valor desta pedra, mas venho devolvê-la. O que quero é algo muito mais precioso. Se for possível, me dê o que está dentro de você e que a fez capaz de me entregar um tesouro como esse."

Canfield & Hansen. Histórias para aquecer o coração 2. Ed. Sextante

segunda-feira, maio 04, 2009

Articulação curricular

Transcrevo para aqui o comentário que deixei no Aragem ao tema lançado pelo Miguel Pinto. O tema não pareceu suscitar interesse em comentar, debater ou partilhar experiências. Mas, quando escrevo sobre questões directamente respeitantes ao ensino, mesmo que me sinta a pensar sozinha em voz alta, gosto de guardar os meus pensamentos neste meu cantinho, ainda que sejam pensamentos só de mim para mim mesma.

Não vou teorizar nem dizer generalidades, mas só dar alguns exemplos da minha experiência como prof. de matemática no âmbito do que eu entendo por articulação curricular, e detendo-me nos próprios conteúdos dos programas, embora esse nem seja o principal aspecto na dita articulação.
1- A desarticulação começa pelos programas: os da cada disciplina parecem ser feitos por equipas que nem pensam em conteúdos comuns a várias disciplinas (dou os exemplos da Matemática com a Física-Quimica e da Matemática com a Educação Visual), havendo desfasamentos que impedem (ou dificultam muito) que os respectivos professores reforcem e complementem simultaneamente o trabalho de cada um. E isso seria importante, pois sobejamente a investigação refere o problema da transferência, isto é, os alunos têm muita dificuldade em transferir os conhecimentoa aprendidos num contexto para outro contexto (neste caso, de uma disciplina para outra). E, por exemplo, professores de FQ e de EV queixam-se por vezes de que os alunos não sabem o que era preciso saberem da Mat quando afinal se trata de conteúdos que o programa de Mat só prevê para mais tarde. Claro que isto poderia ser resolvido se houvesse interesse e tempo para reuniões de trabalho.
2- Os conselhos de turma intercalares, sempre com uma calendarização apertada que dá pouco tempo a cada um, são na maioria dos casos gastos a dar informações (avaliação) ao dt, a fazer queixas também ao dt de problemas de indisciplina, e não me lembro de nenhum em que tenha participado em que se falasse de alguma coisa a ver com articulação curricular, a não ser umas generalidades, mas mais em termos de estratégias para prevenir ou resolver problemas de indisciplina. Só me lembro de algum trabalho (além de breves e esporádicas conversas com outros professores) entre mim (coordenadora de mat do 3º ciclo) com a colega de Física (tb coordenadora), mas um tanto apressadamente quando os nossos horários faziam que nos encontrássemos no intervalo na sala de professores.
Quanto aos ditos projectos curriculares de turma, são pouco mais do que meros papéis.
3- A falta de trabalho em termos de articulação curricular vem de há muito tempo. Mas MLR, se percebesse alguma coisa de pedagogia e didáctica e estivesse verdadeiramente interessada em medidas que efectivamente melhorem o ensino em vez de só estar interessada em estatísticas e propaganda, e em que a escola guarde meninos nas salas, teria pensado bem na melhor utilização a dar à componente não lectiva de estabelecimento, que introduziu. Lembro-me de uma mesa redonda promovida pelo SPGL em que uma colega e minha amiga às tantas apelava à senhora ministra por "um só papelinho, um papelinho apenas" a determinar que prioritariamente fosse pensada essa componente não lectiva para possibilitar reuniões de trabalho. Mas o que a ministra fez foi atulhar, sim, os professores com reuniões para papelada e mais papelada, muitas vezes feitas para além do seus horários.
4- Uma nota sobre a articulação entre o Português e a Matemática. Pode parecer que estas disciplinas não têm a ver uma com a outra, mas têm, e muito. Todos sabemos que há uma interacção entre o desenvolvimento do rigor do pensamento e o desenvolvimento da precisão na linguagem. Além de que um dos maiores problemas dos alunos na resolução de problemas está na dificuldade de leitura atenta, compreensão e interpretação dos enunciados. Em que escolas vemos professores das duas disciplinas e com turmas em comum considerarem a necessidade de falar disso e traçarem estratégias convergentes?
5- As tão faladas competências transversais são inscritas naqueles papéis que o CP aprova sem ler, respeitantes aos objectivos/competências de cada disciplina, para serem arquivados nos dossiês de cada departamento, mas cada departamento continua a ser um compartimento fechado.

Termino com três perguntas:
- Como sensibilizar os professores para esta questão? (Só falei de algumas disciplinas, mas a questão põe-se a todas e, como disse no início, não só em termos de conteúdos a ensinar)
- Como aproveitar as reuniões existentes para que se concretize uma verdadeira articulação curricular?
- Como pode a chamada (e falsa) autonomia das escolas inserir esse trabalho nos seus projectos?